Dead Man’s Shoes (Shane Meadows, 2004)

•03/01/2012 • Deixe um comentário

6.3/10

Atenção: este texto pode conter spoilers:

Em um tempo onde as demandas sociais recebem cada vez mais atenção por parte das autoridades e da própria população, uma vez que o fluxo de informação atual permite a disseminação rápida de ideias, discursos de cunho moral assumem cada vez mais uma identidade massiva.

Dizem que a sociedade é dinâmica pelos conflitos e eles são incrivelmente importantes para sua evolução natural. Na verdade, se todos fôssemos atendidos com as regras impostas atualmente, dificilmente haveria conflitos distributivos ou de geração de alternâncias conceituais. Ora, suponhamos um indivíduo que se sente inserido em um determinado grupo hegemônico. Seu nível de renda é satisfatório, seus atributos intelectuais e seus padrões de comportamento e físicos também. Dificilmente ele lutaria para conquistar algo (dadas algumas exceções, por exemplo, direitos de pessoas próximas de si ou um espirito naturalmente solidário, etc).

Não parece ser absurdo considerar que grupos que apresentam certa identidade mas não são reconhecidos na sociedade em geral tendem a se organizar para buscar reconhecimento. E é justamente aí que a sociedade se move. Bem, ao menos é um dos elementos primordiais para que a evolução ocorra. A busca e a luta por ideais e as vitórias de grupos minoritários em alguma característica, dependendo do poder de organização e resistência, transformam e ampliam conceitos.

Partir de problemáticas reais e imprimir soluções bizarras a fim de ilustrar a latência de demandas reprimidas é uma das mais interessantes temáticas abordadas pela sétima arte. Uma estratégia árdua, pesarosa e de efeito imprevisível no contemplador. Em Dead Man’s Shoes, é introduzida uma situação problema que ilustra uma estrutura tradicional.

O filme trata da estória de Richard, um soldado que retorna à sua cidade natal obcecado com o objetivo de destruir um grupo de mau caráteres que violentaram seu irmão com retardo mental, de nome Anthony. Ele busca a redenção buscando eliminar um a um dos agressores do pobre rapaz.

Não há muito mais que acrescentar ao plot da estória. Não é um filme de atuações, roteiro inteligente ou frases brilhantes. Aqui define-se uma vítima, potenciais vilões/agressores e um guardião da “justiça”, cujos métodos de atuação exigem uma discussão apurada pela sociedade das consequências, objetivamente catastróficas em diversos níveis, mas que combinam a indignação do espectador com o apelo emocional da ética. Durante a jornada, os elementos são lançados a fim de flertar com os limites da “selvageria” aceita pelo expectador. Diante do dilema, é muito fácil perceber que suscita-se a questão da insatisfação com o conceito de justiça atual, aquele institucionalizado e considerado ideal e que respeita o homem, indiscutivelmente como ser e estabelece punições de cunho repressor (aqui de forma psicológica, mas jamais física – os indivíduos não são presos) e não vingativo. É como se Shane apontasse o dedo para você na tela e falasse: e a sua justiça, aquela que você acredita, não fez nada pelo indefeso Anthony. Deixe Richard fazer, eles merecem…ou não. Mas não deixe de ver o que aconteceria se você deixasse.

Apesar da ideia simples e de certa forma, até pretensiosa, Dead Man’s Shoes peca pela previsibilidade e por não transformar a situação em um dilema real para quem assiste, uma vez que os personagens não são ricos (é insuficiente e enfraquece o dilema fazer com que os personagens pareçam aceitar seus destinos) e soam mais como peças com uma função específica em um tabuleiro de xadrez que seres humanos complexos. Parece-me a contemplação de uma tragédia, não há a sensação de que havia uma escolha ali, uma armadilha do destino e da “justiça”. Apesar do insucesso nesse aspecto, sem dúvida, ao menos toca em um assunto que devia ser encarado com mais seriedade pela sociedade insatisfeita com tamanha impunidade difundida hoje. Não há como discutir, entretanto, se não pensarmos em contemplar todas as hipóteses, inclusive as que ferem as ideias que defendemos. Quem sabe, diante de uma profunda análise imparcial, um grupo pode fazer a sociedade se mover em torno de mais um passo “evolutivo”?

The Ides of March (Tudo pelo Poder, 2011, George Clooney)

•01/01/2012 • Deixe um comentário

6.3/10

Não podemos confundir governo com governabilidade. O governo é uma entidade que, supostamente, corresponde a um provedor de serviços e bens que não podem ser fornecidos pelo sistema de mercado competitivo. Portanto, constituiria a configuração mais estável e benéfica para a sociedade a fim de atender suas demandas. Naturalmente, tal conceito sofreu várias mudanças com o tempo, desde a incorporação de um representante divino na Terra, que guiaria a população contra a barbárie até a atual noção de “inevitabilidade” de existência, devido a seus papeis de estabilizador da economia, alocador de recursos e distribuidor de riquezas.

Como administrador dos recursos públicos a fim de prover tais benefícios, desencadeia-se um aparato burocrático e organizado, contando com uma complexa trama de indivíduos, leis que regem seu funcionamento e controle de gastos através de planejamento orçamentário a fim de evitar sucessivos déficits e o fim da governabilidade.

Há muito, entretanto, sabe-se da dificuldade de administrar um país ou mesmo chegar ao poder. Parte-se do princípio de que não é possível governar sem estabelecer alianças entre as inúmeras classes sociais e econômicas e estabelecer um pacto que efetivamente permita-se tomar atitudes de melhoria das condições de vida para todos os indivíduos da sociedade. E, apesar da teoria distributiva ser muito bela, ela despreza a diferença de influência das diversas classes, que não é equitativo e encontra resistência até mesmo de seus defensores, uma vez que normalmente eles ficam surpresos quando percebem que para distribuir renda ELES terão que abrir mão de parte de seus benefícios, pois pressupõe-se que é necessário que haja uma fonte de recursos (possivelmente através de aumentos de impostos sobre a renda ou bens supérfluos, que promoveria uma tributação menos regressiva). E, não se iluda, a resolução dos problemas de corrupção e má administração da máquina são muito importantes (fundamentais), mas não seriam suficientes (aliás, nem perto disso) para gerar recursos para atender as gigantescas demandas.

Lidando, portanto, com a carência de recursos, é necessário fazer escolhas. E para fazê-las é fundamental compreender que há resistência. Ninguém quer ter sua renda diminuída e deseja continuar em crescimento financeiro a fim de obter mais bens e serviços privados. A luta pelo poder é natural, portanto, nas diversas populações e países. E, infelizmente, na dinâmica do jogo político, o que se vê é que a cessão às pressões de grupos privilegiados (alguns, inclusive estrangeiros) é requisito para governar. Nojento.

Enquanto não se encontra uma resolução definitiva para essa deturpação, lidamos com um jogo sujo e revoltante. The Ides of March, filme do inteligentíssimo George Clooney, se envereda pelos bastidores das prévias do partido democrata (naturalmente como metáfora de um conturbado cenário que poderia se localizar em qualquer lugar do mundo), utilizando de um dos principais ícones da campanha de um dos candidatos, o diretor Stephen Myers, vivido por Ryan Gossling para ilustrar as dificuldades e a manipulação selvagem das formas de comunicação, que são moldadas a belprazer dos interesses predominantes ou dos mais espertos.

As reviravoltas da trama são relativamente inocentes para ilustrar o quão distorcida pode ser uma informação a fim de atingir um objetivo específico. O roteiro é muito bom e o elenco é estelar, com ótimas atuações de Giamati, Phyllip Seymour Hoffman, o próprio George Clooney no papel do governador Morris, Evan Rachel Wood, dentre outros.

Repleto de traições, jogadas por debaixo dos panos e questões ligadas a lealdade e influência, The Ides of March confronta o jogo perigoso das urnas com o discurso inflamado e apelativo dos candidatos (por vezes irritante) diante de uma plateia insandecida e receptiva que não parece fazer ideia do que de fato acontece.

O filme peca pela previsibilidade, comparações óbvias com a candidatura de Obama e a não inovação. Falta fermento, ousadia. Simplesmente não há nada que você não saiba que exista e muito menos a surpresa que deveria ocorrer diante das revelações. Também não acho que Ryan Gossling seja suficientemente carismático para interpretar o papel de condutor da estória, mesmo que várias pessoas o considerem candidato às indicações ao Oscar (sic). Incomoda também algumas passagens serem excessivamente americanas, perdendo um pouco do tom universal que acredito ser a ideia central.

Mesmo distante da sutileza e do roteiro belíssimo de Good Night and Good Luck, do mesmo diretor, o filme não faz feio e não será uma surpresa se conquistar uma ou outra indicação de fato. Recomendado, mas não é dos meus preferidos do ano passado.

The Future (2011, Miranda July)

•01/01/2012 • Deixe um comentário

6.5/10

Existe uma certa mágica no espetáculo da vida. Delimitada por marcos temporais insuperáveis de início e fim, compete-lhe um papel de se desenovelar por entre esses dois pontos de forma imprevisível. Vida permeada por conceitos individuais, cujo sucesso e felicidade dependem de um emaranhado de eventos que determinam personalidades e conferem subjetividade às percepções do cotidiano.

Provavelmente decorrem daí as infinitas linguagens possíveis de lidar objetivando dialogar e filosofar sobre seus fundamentos. Sim, porque independente do fator subjetivo existe uma série de fatores que, em critérios dos mais gerais possíveis, é possível denominar como comuns e identificáveis em todos os seres humanos. É como se o início e o fim fossem ligados por uma linha sempre feita de um mesmo material específico, mas cujas combinações a partir de então fossem tão numerosas e variáveis que seria impossível construir uma tese que engloba tudo. Assim, só de pensarmos em quantos fios compõem a linha ou qual a organização deles ou qual a cor ou tonalidade ou se eles apresentam ou não pequenas formas repetitivas na composição ou ainda que formas são essas; permaneceríamos um tempo infinito elencando as possibilidades. Mas uma coisa não podemos perder de vista: efetivamente todo mundo POSSUI uma linha.

A identificação desse fator em comum, quando aplicado nas diversas circunstâncias, é entretanto, muito mais fácil quando partimos do fator comum. Infelizmente, normalmente isso não é possível. Como perceber tal elemento quando ele perscruta pelos arredores íntimos de questões complexas? É ousado dizer que ele sempre existe, por mais que permaneça oculto?

A percepção do “fator comum” poderia bem ser uma teoria. Ela podia ser usada para explicar um monte de eventos a partir de um referencial humano, conjugando tanto fatores emocionais quanto racionais e lógicos. Testando essa ideia, poderíamos testar inúmeros “exercícios” psicológicos.

Designado como experimental, The Future, de Miranda July bem que poderia ser um desses exercícios. Apresentados a um casal totalmente não convencional ou simpático, a qual a matéria bruta é composta de melancolia, estaticidade e obsessão pelo tempo, tentamos encontrar algo com o qual nos identificamos ali. Eles contemporizam a adoção de um gato doente, Paw Paw, a qual poderiam buscar após 30 dias depois do qual poderia ser sacrificado se não encontrasse um lar. Naturalmente a adoção promoveria uma responsabilidade pela vida do bichano e ensejaria um contexto de mudanças radicais para o casal. A situação cria um limite de tempo para o “fazer algo diferente”. Enquanto a moça tenta adquirir popularidade criando uma sequência temporal de dança e compartilhando no youtube, o rapaz percebe que deveria se destinar a questões mais amplas, de cunho importante, que lhe confiram um papel na sociedade. Os dois abandonam seus empregos anteriores e passam a viver em torno de suas causas, sem perceber que as alterações proporcionadas por suas escolhas os levarão a um caminho totalmente distinto decorrente de suas frágeis decisões.

Há o tempo todo a sensação de algo errado com os dois. Uma tristeza ímpar, a falta de lugar no mundo, algo que encontra canal na simbólica espera do gato e seus pensamentos existencialistas.

The Future é um filme difícil, muito pesado e artístico, que conta com uma excelente atuação da própria Miranda July no papel principal e gera um desconforto absoluto no espectador. Vale uma visitada pela originalidade e reflexão, muito embora a lentidão e a falta de empatia dos protagonistas cause uma enorme distância entre o filme e quem aprecia a obra.

Source Code (Contra o Tempo, Duncan Jones, 2011)

•02/10/2011 • Deixe um comentário

7,0/10

 

A possibilidade de manipulação de eventos passados é uma das maiores demandas do homem. Sempre foi, aliás. Não é nenhum devaneio imaginar que parte significativa das situações traumáticas e casos psiquiátricos que assolam a sociedade contemporânea seriam dissolvidos como por encanto se pudéssemos reverter seus efeitos no tempo sobre nossas personalidades atuais.

Naturalmente, deste argumento advêm inúmeros outros problemas como “como teríamos atingido o nível de maturidade e termos os convívios que temos hoje se não tivéssemos traçado nossos passos de acordo com os obstáculos que superamos?”. É indiscutível que estamos envolvidos em um longo e complexo processo na qual uma mudança de decisão promoveria impactos catastróficos não só sobre nossas vidas, mas de vários seres humanos que talvez nem conheçamos hoje.

É por tanto que considero Source Code um filme relativamente simples.  Acompanhando um personagem que serve a um propósito explícito, desempenhando um papel definido cujas lacunas de sua construção não apresentam grandes aprofundamentos psicológicos, não perde tempo com insights desnecessários ou com situações que não contribuam para a compreensão final da trama. Não é um filme de mistérios, o final é previsível e cumpre ao que propõe, sem descartar uma atmosfera envolvente e adaptada tanto para o expectador descompromissado, que deseja apenas uma emoção no final de semana, quanto para o que busca algo mais. Com a resolução, entretanto, a temática se fecha no universo interior sem grandes impactos, ou com impactos “limitados”.

Gyllenhaal protagoniza o filme como o intrigante Capitão Colter Stevens, cujo destino improvável lhe contempla com uma estranha surpresa: acordar no corpo de um homem desconhecido a bordo de um trem próximo a explodir em 8 minutos. Sem ideia de quem seja, como ou porque está ali, aos poucos descobre os propósitos de sua missão. O tempo vai de aliado a poderoso inimigo em poucos minutos e de acordo com o referencial. Em uma jornada que envolve fluxos de memória situacionais, realidades paralelas e relativo domínio cronológico, não há dúvidas de que as dificuldades serão intensas.

De destaque a bela Michelle Monaghan e o próprio Gyllenhaal em uma atuação correta (embora não tão marcante) e a ótima trilha (especialmente no plano inicial). O final da estória me parece consequência de um filme que jamais “esquentou” tanto a ponto de requerer algo surpreendente ou espetacular e , por isso, funciona bem. Mas fica a sensação de que a concepção de reter as imagens e memórias das pessoas nos últimos 8 minutos de vida poderia ter rendido uma estória muito mais inteligente.

Rio (Carlos Saldanha, 2011)

•14/04/2011 • 3 Comentários

6.1/10

Não é muito fácil tentar compreender processos construtivos.  A concepção é demasiado complexa para abranger estruturas lógicas simples e coesas. Já ouvimos dizer que alguns filmes de Lynch provêm de pesadelos ou que alguns artistas delimitam obras sem significado para testar a criatividade do público. No entanto, curiosos como cinéfilos tradicionais (e, refletindo a curiosidade natural que permeia o humano em tudo que tem interesse específico), não nos abstemos de tentar saber as raízes da criação de um personagem, de um ambiente, de uma estória. Em casos de maior “insanidade fílmica” – mal de todo cinéfilo – bom entretenimento é ultrapassar as correntes que prendem a produção na tela e passar um tempo refletindo e conectando as razões para sentirmos emocionados ou decepcionados com um filme qualquer.

Rio é um filme bastante diferente, neste contexto. Não é comum assistirmos a uma animação ambientada em nosso país. E, muito embora, só isto seja já suficiente para nos promover uma análise infinitamente mais crítica (mesmo que inconsciente), neste caso, Rio ainda aposta em elementos estéticos e ambientais para construir sua sustentação, uma vez que os personagens são clichês e pouco atraentes psicologicamente, não diferindo em nada de outros exaustivamente retratados em outros filmes anteriormente produzidos, de maior qualidade, inclusive.

Em geral, tenho a impressão de que os brasileiros são extremamente xenófobos. Muitos detestam os norte-americanos como se cada um deles fosse responsável por uma parcela do imperialismo estrangeiro, a ponto de qualquer pequeno contratempo criar uma gigantesca bomba relógio (vide comentários horrendos no imdb quando da realização do péssimo Turistas, que é péssimo por ser péssimo e não por retratar a nação tupiniquim de forma inadequada). O pior é que a xenofobia parece inversamente relacionada com a falta de conhecimento (e não diretamente como creio que deveria ser).  Com as artes, a situação não se diferencia muito. Especialmente porque, contextualmente, trata de expressão concreta de ideias, mecanismos perceptivos da sociedade ou mensagens adaptadas à uma realidade recriada. Há a impressão de que um filme transparece uma ideia, um objetivo, um princípio suficientemente forte para que seja exposto por alguém.

Mas o interessante de Rio é exatamente o contrário. A retratação é de um brasileiro, muito embora em um contexto gigantemente internacional. E ele cria uma imagem desagradavelmente romântica. Um desfile de cores, luzes, um verdadeiro painel de estereótipos – o carnaval, o futebol, a natureza, as praias limpas – tudo está ali, concebido de forma alegre demais, bonita demais, vistosa DEMAIS. Tão vistosa que tenta apagar a falta de criatividade da estória através de tanta pompa. A estética magnífica passa do segundo para o primeiro plano e se torna centro da estória por ser o que tem de melhor (e os produtores tanto sabem disso que o nome do filme já reflete a importância do local). Com os holofotes acesos e voltados à seus detalhes (que não decepcionam em nenhum momento visualmente), os estereótipos realmente se contrapõem com o perfil multi-étnico do brasileiro, os contrastes da capital carioca e o mundo paradisíaco.

Não que fosse necessária a criação de uma ambientação pesada ou violenta, uma vez que o público alvo do filme é infantil (muito embora haja um certo desuso na criação de um filme para este público específico e se pense atualmente em agradar aos pais que levam os filmes ou os apaixonados por cinema) mas tampouco o anverso, que se torna exagerado e desnecessário.  Chega a ser tão forçado que parece ser colocado para agregar os saudosistas do Rio dos anos 70 e turistas de olho em visitas à cidade maravilhosa. A questão é que, na verdade deve ser tão difícil ocultar os contrastes quanto deixá-los transparecer.  Então porque se preocupar tão avidamente em fazê-lo e reforçar os estereótipos já criados – não é essa criatividade (difícil de ser reproduzida em um filme infantil) – que faz de alguns roteiristas e outros não? Ou as crianças precisam ter uma visão excessivamente romântica de tudo? O filme parece uma propaganda da Riotur promovendo a cidade. E tudo em excesso chateia.

Mas como não se emocionar com as belíssimas cores, desenhos e movimentos das aves do filme? Como não esperar pelo próximo personagem aparecer?  A técnica de captação dos “maneirismos” das aves é estupenda e Blu é absolutamente maravilhoso. Mas quando ele abre o bico ou qualquer outro personagem é como se a frase pudesse ser falada por qualquer um das centenas de protagonistas de outras animações anteriores. É realmente uma pena que só com beleza não se faz uma grande obra.

A Erva do Rato (Júlio Bressane, 2008)

•09/03/2011 • 2 Comentários

6.2/10

Este texto contém spoilers e uma possível leitura “esquizofrênica” sobre o filme – não arbitra sobre suas qualidades ou defeitos, mas reflete sobre suas ideias

Se perguntássemos ao criador (se hipoteticamente ele existe) do que somos compostos simplificadamente, provavelmente ele bebicaria sua semipreenchida xícara de café, franziria o sobrolho, suavizaria sua expressão com um leve sorriso de canto de lábio e concederia a resposta em um átimo com olhar de desdém: “ossos, sangue e carne”, ele diria.

Sabe-se, entretanto, que estes elementos combinados em uma infindável variação de possibilidades confeririam uma amplitude incrível de “movimentos” complexos. Andar, ver, ouvir ou desenvolver algumas atividades de alta complexidade (como as batidas cardíacas, a respiração ou o fluxo de adrenalina conferido pelos sustos, etc) exigem uma coordenação inacreditável de associações improváveis entre nervos, músculos e transporte de substâncias específicas.

No entanto, o mais importante dos princípios humanos não está na coordenação refinada de tais “movimentos”, mas na concepção, elaboração e concretização dos sentimentos. A consciência nos confere perspectiva no interior do obscuro universo da racionalidade (e até mesmo em um pouco da irracionalidade). O sentir não basta apenas, é necessário compreender e mesmo dominar o que se sente.  Ah, mas tarefa difícil esta…o inimigo é interno. Basta um inevitável piscar de olhos e um mundo totalmente adverso ao real é imediatamente originado. E que mundo é esse que mesmo sendo fictício é capaz de promover tanto dano/dor ou alegria/felicidade?

A Erva do Rato não é um filme fácil (como todo filme que tem como pano de fundo o universo irracional). Logo de início, percebemos que a atmosfera recriada, embora constituída de elementos concretos, não reflete o real como vemos. Estamos diante de uma releitura de eventos que poderiam ser reais, mas talvez não o sejam da forma que percebemos.

Selton Mello representa um protagonista frio, sombrio e de ar doentio. Ao conhecer uma mulher em um cemitério (vivida por Alessandra Negrini), desenvolve uma relação atípica, a convida para morar consigo em circunstâncias estranhas e logo passam a dividir o mesmo espaço. Notadamente, porém, ele jamais desenvolve com a moça uma relação sexualizada, é como se o rapaz se tornasse uma espécie de pai ou curador da garota. Citando textos em voz alta enquanto ela realiza anotações, parecem estabelecer uma excessiva distância, mesmo dividindo a mesma cama e a mesma mesa de café da manhã.

E então, volvemos ao princípio. Já mencionamos a sede do domínio. Agora contemplemos o lado sórdido, a razão do sorriso do criador. Imaginemos, a princípio, uma folha de papel.  Matematicamente podemos dividi-la em inúmeros pontos interiores e chamarmos tal região de região interna. Vamos ainda imaginar cada um desses pontos como o símbolo de um fenômeno natural.  Agora tomemos um círculo desenhando seus limites com um lápis comum de uma região qualquer dentro da folha. Cada vez que alguém domina um elemento dentro do círculo (ou compreende o “segredo” de um fenômeno natural), o ponto correspondente se acende.

Para tornar mais complexo, imagine que cada vez que nos afastamos do centro do círculo mais difícil é acender os outros adjacentes. Tomando a representatividade desse círculo no espaço, é razoável supor que pelo menos 5% das luzes no interior do círculo estão acesas. Os pontos acesos, como é de se esperar, representam todo o conhecimento humano acumulado nos séculos de pesquisa e desenvolvimento. Mas o que nos interessa são os limites do círculo. Tais limites (que provavelmente jamais serão alcançados) são a porção do universo que podemos conseguir decifrar com nossa racionalidade. E isso utilizando cada ponto do cérebro em prol desse interesse.

E o restante da folha externa ao círculo, você me pergunta (a gargalhada do criador).  O restante da folha não é atingível por nossa capacidade. Não é explicável por nossas limitações. Você pode ser o homem mais inteligente do mundo de todos os tempos e de todas as épocas, jamais conseguirá compreender. E torturará-se eternamente nas trevas do desconhecimento.

Esta ruína é a ruína do personagem de Selton Mello, neste ponto de vista. A relação que apresenta o domínio de sua natureza, do jeito que considera correto, sofre uma grande dilaceração com a compra de uma máquina fotográfica. Este elemento de desagregação funciona como um instrumento punitivo e obsessivo do rapaz. Aos poucos, ele consegue convencer a moça a posar cada vez mais despida de seus pudores. Aproveitando-se do tormento sexual da garota, ele se aproveita dos lábios voluptuosos da vítima, da sedução de seu corpo entregue aos desejos de sua mente incorruptível que somente ganham vazão nos closes tortuosos e estáticos da lente da câmera. Ela sim, perscruta, percorre, venera e destila o corpo feminino, sua identidade e segredos íntimos.

O domínio seria completo. Diante da mente cada vez mais corrompida e desesperada da moça, as fotos se tornavam mais sensuais e eróticas, entretanto contidas, imersas em respeito jamais abalado. Ela era o objeto perfeito de devoção. Mas…

O desejo sexual afeta também o masculino. O homem não pode fugir de seus fatores instintivos. A carne dantes de odor agradável e singelo se transforma em podridão submersa em hormônios químicos. A genitália em flor feminina torna-se a pulsação do desejo masculino. A putrefação da moral dá a luz a um animal voraz, que deteriora rapidamente os pensamentos coordenados. Como um rato. Um rato que percorre silenciosamente as vertentes do incorruptível.

Ora, é o rato quem delineia as curvas sutis do corpo da mulher. É o rato que a faz gemer de prazer diante da consumação do sexo. É o rato quem representa a porção incompreensível da natureza. É o rato quem vence. E o criador gargalha de novo. Porque o homem nem consegue encará-lo. Porque ele proveio das entranhas do homem sem nome. O homem é o rato. Desnudo e desprovido de seu pífio domínio. Renegado e restrito aos esgotos repletos de vômitos, fezes e urina.

Não há dúvidas. O rato precisa morrer. E a metáfora de sua morte deve bastar para voltar a enxergar a mulher como o objeto. Desprovido de sensualidade. Que não tenta ou desperta o rato, pois ele está morto. Novamente se volta a ossos. Um esqueleto sem sangue ou músculos, sem vida. Ossos que não incomodam o lado ruim, que resignam o esgoto ao esgoto. A podridão ao abismo. De novo. Para sempre. Ou até a próxima vez.

127 Hours (127 Horas, Danny Boyle, 2010)

•22/02/2011 • 6 Comentários

6.7/10

Existe uma vertente atual que emprega a necessidade de estarmos sempre em companhia de alguém para que possamos ser plenamente felizes. Presente em diversos campos de abrangência, constitui livros, belas lições de filmes, estudos filosóficos, músicas, artes em geral, enfim, diversas ideias incorporadas aos incontáveis tipos de fluxos informacionais. Entende-se aqui por fluxo toda espécie de comunicação a qual a interrupção não se limita a padrões temporais comuns, mas a desvinculação emocional, que por vezes ultrapassa muito o contato concreto com a ideia (e algumas vezes sequer ocorre).

Seja em uma conversa esporádica entre amigos (normalmente reprodutora de situações anteriores dispostas em um filtro psicológico personalizado), seja na composição de um programa novo de computador sofisticado e técnico, as relações interpessoais (ou virtuais – no caso do computador/humano fala-se em interface “amigável”) são extremamente valiosas e estimulantes. Sem dúvida um importante fator na busca incessante da felicidade.

Naturalmente existe uma face cinérea, por outro lado. A associação entre o respeito, a busca do ideal comum e  o estabelecimento de vínculos fortes gera uma intensa conexão entre indivíduos, o que é benéfico, mas com possibilidades de distorções perigosas quando mal empregadas (quanto mais poderoso um conceito, mais danosa sua deturpação). Falamos, é claro, de manipulação. Constantemente entramos em contato com campanhas de marketing irritantes (o banco x é seu companheiro, está sempre com você) que exploram um belo conceito e decaem em uma tentativa de estabelecer um paralelo duvidoso tornando mais próximo o capital e o explorado por ele. Uma relação falsa, injusta e predatória.

Por isso a ideia de 127 Horas parece tão sedutora ao meu ver. Mais do que vários de seus predecessores (e esta estória e suas variantes são bastante batidas). Em sua premissa não há um homem desesperado para voltar a ter contato com uma família para a qual nunca ligou. Nem revoltado fazendo uma viagem inconsequente. Nem perdido por adentrar um caminho incorreto na trilha errada por não ter estudado direito o roteiro. O protagonista só quer tirar um tempo para si, se aventurar um pouco e promover um mergulho na natureza, captando lindas imagens, aventurando-se em acasos agradáveis e inofensivos e talvez refletindo sobre si mesmo. Enfim, estando feliz durante alguns dias sozinho. Sim, é possível estar feliz, ser feliz estando bem com os amigos, familiares e outros, mas também reservando um minuto para si mesmo.

Esta pequena parte da qual se esquecem frequentemente os anúncios de jornais mas convenientemente recebe ênfase especial quando interessa às ambições capitalistas é particularmente importantíssima aqui (uma mansão é cara por ser um bem escasso. Se fosse comum muitas pessoas abastadas financeiramente buscariam outras formas de exibir seu sucesso ou individualidade). Na verdade, esta porção é tão fundamental que se torna o foco do filme.

O curioso é que Danny Boyle explora um personagem extremamente inteligente e preparado, precavido, feliz, ciente de seus desejos, aspirações e objetivo no planejamento de sua viagem. Não há problemas. Ralston é um cara comum em suas relações. De nível intelectual acima de um cidadão médio e dramas de vida comuns. Explora um cenário perigoso, mas previamente estudado, em plenas condições, preparo, alimentação adequados para enfrentar as situações ambientais.

Só que acontece uma fatalidade. E realmente eu não dou muito crédito às objeções dela só ter se sustentado por que ele não contou para ninguém onde iria, porque a decorrência disto dificilmente teria, ao meu ver, os encadeamentos necessários para um salvamento heroico. Mas não nos prendamos a possibilidades, o filme não é tão reducionista para nos ater a tais detalhes.

E então começa a jornada de auto-superação, de desejo pela vida, do contar dos minutos e segundos em direção a um futuro desconhecido. Mas ele está só. O tempo todo só. E se não houvesse felicidade em viver em sua plenitude (incluindo seu individualismo), ele jamais teria lutado por tanto tempo.

Infelizmente as boas surpresas terminam por aí. Boas ideias não necessariamente resultam em grandes filmes e este é um bom exemplo. E o filme não funciona mesmo diante dos quadros divididos na tela ishpertos contrapondo a solidão de Ralston e sua fuga da urbanidade e as correntezas de pessoas nas ruas (oooooooooh), a suposta perda de sanidade gradativa “engraçadinha” do protagonista – e aqui ressalto a falta incrível de habilidade e criatividade de Boyle a lidar com a parte psicológica abalada do personagem. Parece que ele aposta no ridículo tentando um alívio cômico para uma estória que não precisa disso pela própria natureza de Aron. Bastava um descontrole emocional palpável, sem firulas ou um show Lynchiano, algo francamente menos…besta.

A trilha é interessante em vários momentos, mas irritante em outros. E Franco leva bem o personagem (não acho digno de uma indicação ao Oscar) e confere confiança no que ele parecer ser. O que é muito bom, pois demonstra o sucesso de sua interpretação. Mas não há muito que se dizer de um filme que conceitualmente é bem construído, mas falha em sua execução que é balizada na criação de tensão e suspense para um clímax dramático. Não funcionou. Infelizmente.

Por último recomendo aos amigos que apreciaram o filme de Boyle assistir a Gerry, do Van Sant, de temática parecida mas infinitamente superior e com algumas tomadas que são uma preciosidade.

 
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