Le Collier Perdu de La Colombe (O Colar Perdido da Pomba, Nacer Khemir, 1991)

Uma das grandes peculiaridades humanas é procurar na maior parte das vezes algo com a qual se identifica, mesmo que de forma inconsciente. Você já viu que aquela garota pela qual se apaixonou, aquele filme a qual apreciou ou a música a qual mais adorou em determinado tempo de sua vida apresentam de certa forma traços de sua personalidade? E digo isso em um sentido bem mais abrangente, mesmo que haja uma relação de oposição implícita. Desafiador é o caminho da investigação dos meandros da psiquê humana.
Um exercício igualmente curioso para mim, entretanto, é observar o improvável, atípico oposto e contradizer essa mesma lógica, mostrando o quanto somos humanos e irracionais por vezes (isso depois de passar muito tempo pensando nos motivos da suposta identificação citada no parágrafo anterior!).

Como é absolutamente delicioso perambular pelo desconhecido, desprovido dos mesmos vícios lancinantes do Ocidente, remoalho composto de raízes aprofundadas e praticamente avessas à renitência. É como se desprovir de uma mortalha e deixar-se viajar sob os olhos de jaboticaba da Princesa de Samarkand ou das mãos cuidadosamente desenhadas para os hábitos naturais do Príncipe Harum, figuras dotadas de uma grandeza sobrenatural e que transcendem nossos preciosos sentidos.

É conhecer Zin, seus sonhos, sua impecável inteligência e apreciar sua sapiência encoberta na expressão de um pequenino. Ou a ternura de um jovem que é abandonado por seu Mestre e sai a procura de palavras que decodificam a magia de uma virtude desconhecida denominada “amor”. Este mesmo Mestre que deixara uma lição muito especial sobre a comunicação entre os iguais: a crença de que a escrita proporciona o elo entre o mundo visível e o invisível.

Há muito que ser desvendado. E as respostas não se encontram nas belíssimas locações inimaginavelmente atípicas das Universidades e escolas (de onde o convite a participação é concretizado simplesmente por não haver portas) ou na violência da guerra travada com os “mendigos”. É preciso conhecer. E nós somos os beneficiados com essa jornada.

As filmagens ocorreram na Tunísia, país do Norte da África, com suas estruturas diferenciadas e hábitos tanto religiosos (99,9% da população é muçulmana) quanto corriqueiros absolutamente distintos dos nossos. A fantasia impera elegante entrelaçada poderosamente com o clássico Arabian Nights e o visual e as interpretações são de alucinar qualquer um. Recomendadíssimo, um dos grandes tesouros perdidos da década de 90 e segundo filme da trilogia do Deserto de Nacer Khemir.

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~ por mrscofield em 23/12/2009.

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