Public Enemies (Inimigos Públicos, Michael Mann, 2009)

O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS

Não é desde tão pouco tempo que percebemos as inversões de papéis no cinema. Até porque, de fato, na vida real essas distorções de valores são bastante comuns. Me lembro de ter visto um traficante de drogas que de bandido se tornou herói, pessoas torciam por sua fuga, havia até mesmo cartazes…para mim era uma evidência de que o mundo perdia suas referências. Me pergunto de onde provém tais “aberrações comportamentais” e nem mesmo o fato de contar com uma percepção de ausência de racionalidade em determinados âmbitos por parte dos seres humanos é capaz de justificar.

Acho que há uma certa atração de muitos pela transgressão dos valores sociais devido a insatisfação com seus efeitos individuais. Tenho estudado um pouco da Declaração de Direitos Humanos da ONU, elaborada em 1948 a fim de prestar um concurso público e percebo a grande utopia (até um pouco de hipocrisia mesmo) em instituir aqueles parâmetros. Os discursos são belos, mas na verdade, justamente devido ao reconhecimento pelos que as estudam (que normalmente são pessoas com nível cultural um pouco mais razoável, tendo em vista a acessibilidade e interpretação de tais textos) de que representam algo um bocado intangível. Talvez esse seja um motivo pela qual mesmo dentre as classes privilegiadas da sociedade (economicamente falando) ainda assim há a propagação desse mesmo sentimento de tendência a algumas transgressões. Mesmo que psicológicas. Ninguém gosta totalmente do que é “certo” e talvez seja até porque o “certo” não foi instituído por nós mesmos (individualismo?)

Em Public Enemies, Michael Mann nos apresenta um cenário bastante típico que serve para identificar esses sentimentos obscuros que possuímos em nossos íntimos. Seria possível não apresentar carisma pelo bandido assassino John Dillinger ou mesmo odiar o defensor da lei interpretado por Christian Bale? Até mesmo porque suas feições e caracterizações são cuidadosamente construídas para que a inversão surta muito mais efeito?

E à medida que ocorre a decadência do bando, um a um se rendendo a uma força policial inteligentemente conduzida (diante de reviravoltas do roteiro muito bem produzidas, naturalmente), há um certo pesar estranho  no espectador. Parece que o vínculo estabelecido entre os personagens, independente do caráter a eles correspondido é grotescamente mais importante do que o senso de justiça. Ainda mais que Dillinger não esconde de ninguém o que é. Nem diante dos olhos embabascados da mulher de seus sonhos, que não se esmaece quando percebe os problemas advindos daquela vida de aventuras criminosas. Aliás, personagem espetacular.

E essa “aura” percorre PE do início ao fim. É extasiante participar da atmosfera para nós quase mística dos anos 30 e contrapor ao mundo de hoje e nos envolver sentimentalmente com um lado tão obscuro da personalidade.

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~ por mrscofield em 29/12/2009.

3 Respostas to “Public Enemies (Inimigos Públicos, Michael Mann, 2009)”

  1. Bom tê-lo de volta, Scofa; já adicionei ao blogroll.

    Apesar de também ser um cara bem ausente e relapso quanto a tratar do meu blog, mantenho-o razoavelmente desde o fim de 2007, ainda que não tenha intenções de divulgá-lo, é algo pessoal mesmo, que gosto de registrar – e, se houver interessados, são bem-vindos à leitura.

    Assim sendo, espero que dessa vez você consiga também manter o Psychofield (o WordPress em muito me agrada e a sua formatação está bem legal, organizada e classuda, hehe). Boa sorte na tarefa; estarei sempre dando umas bisbilhotadas e, conforme for, comentarei (pretendo inclusive fazê-lo a esta postagem ainda esta semana).

    Ltr.

    • Olá, Lt, é um prazer vê-lo por aqui. Tem algumas épocas que sinto uma certa repulsa em escrever, mas atualmente estou por aqui de novo, hehe e pretendo escrever bastante. Tomara que goste e comente bastante por aqui.

  2. Bem tocada por você essa questão de torcermos por personagens moralmente ruins. Acredito que, dentre tantas outras, essa discussão foi genialmente abordada por Kubrick em “Laranja Mecânica” (e também satirizada em “Dr. Fantástico”, por que não?). Acredito que o envolvimento emocional com alguém sempre fala mais alto do que a razão fria e instituída pelas leis sociais e a aproximação conferida a Dillinger nos deixa obcecados por ele e com uma baita tristeza pelo final.

    Gostaria de destacar o brilhante trabalho de Marion Cottilard, que deixa Depp e Bale na sombra com sua radiante interpretação. Filmaço.

    P.S.: comecei a minha premiação dos melhores de 2009 no blog; caso tenha interesse… “Inimigos Públicos” é um dos concorrentes à categoria principal. Dei-lhe 10 indicações, aliás (mas mais por ter visto poucos filmes de 2009, pois gosto de variar e incluir diversas obras).

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