The Wolfman (O Lobisomem, Joe Johnston, 2010)

A mística em torno de algumas lendas soa sedutora por muitos ângulos. Pessoalmente não acho que exerçam tanto fascínio de forma nua, sem uma dissecação, mas o façam pela habilidade intrínseca do ser humano de as expandir. Transformar um pequeno ponto do espaço em um grande universo na qual utiliza como matéria prima o imaginário popular mas se estende, cria ramificações, dramas pessoais complexos e libertadores da criatividade de seus propagadores. Estes detalhes riquíssimos sim exercem intenso fascínio.

Os Homens-lobo criados no filme de Joe Johnston parecem surgir de uma dessas expansões. Condecorados  com horripilantes paisagens acinzentadas, tons negros assustadores e florestas sombrias de um verde desfalecido e mórbido, bem como ambientes de pouca luminosidade e a atmosfera peculiar dos idos de 1890, havia tudo, absolutamente tudo para ser um dos grandes filmes do ano.

No entanto, Johnston peca demais nos demais elementos. As imagens a todo momento relacionadas ao fenômeno sobrenatural,  seu caráter místico e suas ligações espirituais e malditas (há estátuas por toda a parte de todos os tipos, algumas soando benignas, outras malignas pelos olhares, constituição e posicionamentos) são extraordinárias, mas a carência da estória da forma como foi desenvolvida chega a ser constrangedora.

O descompasso é enorme, pois há uma contradição extrema na sutileza das ambientações e a “visceralidade” dos eventos, que aos poucos reduzem o impacto das primeiras, pois há que se dizer que o filme seria incompleto sem tais acontecimentos. Não são, porém deselegantes ou extremas as cenas de horror (até porque não haveria mal nenhum em serem), mas a insinuação cairia melhor do que o excesso, especialmente com a proposta a que parecia ser desenvolvida.

Daí um desfile de transformações, cenas explícitas, confrontos detalhados e a estória absolutamente estúpida e previsível cria uma desconexão intensa com o espectador (era possível sentir nas pessoas que a tensão se esvaía com as frequentes aparições, pois as arremessam de volta ao mundo real). Toda a atmosfera brilhantemente construída se tornava novamente uma lenda e a consciência de que tudo se tratava de uma fantasia em CGI (mesmo que os efeitos sejam razoáveis).

Tanto que a melhor cena do filme é a tortura infligida ao personagem principal, que chega a provocar arrepios na espinha e por um breve instante um dimensionamento do real sofrimento pela qual passava. E isso tudo sem carnificina, sem gritantes efeitos computacionais ou poderes supremos.

Daí penso no romance absolutamente estapafúrdio vivido entre a mocinha e o protagonista, mesmo pouco depois dela se tornar viúva de seu próprio irmão e isso se associa a uma série de problemas de timing e exageros. Nada mais natural que o final ser tão bobo quanto o decorrer da estória com uivos (que de assustadores se convertem em constrangedores) e um desfile de eventos previsíveis.

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~ por mrscofield em 14/02/2010.

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