Up in the Air (Amor Sem Escalas, Jason Reitman, 2009)

Uma vez li o brilhante cineasta Andrei Tarkovsky dizer em uma de suas obras que um filme contém uma essência, uma espécie de mística representativa da fé de seu autor. Nenhum filme é apresentado aos olhos do espectador sem propósito, ele corresponde a uma visão de mundo do artista que compõe seu trabalho, assim como do cientista que faz ciência para mudar uma tímida porção da realidade.

Up in the Air é uma comédia que ao nos deixar, associa-se imediatamente a uma entorpecência confusa, porque ao mesmo tempo que nos proporciona inquietude, causa uma sensação de prazer pela diversão de sua duração e piadas inteligentes e até atípicas (especialmente o brilhante roteiro da primeira metade, com falas rápidas e de um interesse frenético pelo que advirá).

O debate logo se formula como uma perda gradual de identidade devido a vida moderna composta pelos costumes capitalistas e das exigências de mercado e seus efeitos sobre a vida. Não acredito que esse assunto seja novo, mas a forma na qual é captado e os símbolos utilizados para a discussão são sensacionais. Que emprego seria mais apropriado para algo assim que o de uma pessoa que trabalha cercada de outras pessoas, as causa desconforto e utiliza de sua ausência de conexão com elas como arma para realizar suas tarefas diárias e ganhar seu dinheiro?

George Clooney é um profissional muito inteligente. Aprecio não só suas representações, mas seus projetos. Uma pessoa que deixou a imagem do médico sedutor de ER completamente para trás (e na hora que julgou correta…e foi mesmo) e criou uma persona totalmente diferente, atuando como protagonistas normalmente associados a críticas pesadas, argumentações representativas ou estórias reflexivas.

Seu personagem aqui é o foco da estória.  Praticamente isento de relações sólidas, começa a descobrir seu lado humano, perdido ao meio de uma complexa rede de estímulos objetivos com fins de escape de si próprio, quando descobre uma mulher atraente e sensual que sugere compartilhar de suas paixões. E aí começa uma jornada de auto conhecimento muito bem humorado que culminará em um clímax divertido e bem mais significativo que o esperado.

O filme decai por volta da metade, mas é explicável (talvez até necessário) pelos rumos que a estória toma, entretanto tem uma boa surpresa na parte final, quando nos remete às ótimas situações da primeira fase. Reitman acerta mais aqui que no seu sucesso Juno e para mim é um filme muito mais valoroso para a indicação do Oscar, embora esteja longe de ser uma obra prima. Mas opiniões são opiniões, sabe cumé?

Anúncios

~ por mrscofield em 16/02/2010.

2 Respostas to “Up in the Air (Amor Sem Escalas, Jason Reitman, 2009)”

  1. Sempre achei críticas cinematográficas chatas e cansativas de se ler, até agora. Antes destas considerações sobre “Up in the air”, eu jamais conseguia passar do primeiro parágrafo, nenhuma crítica prendeu minha atenção como esta.

    • Fala, Lucky Luciano. Legal seu comentário, honra ser seguido por pessoas inteligentes (embora completamente loucas, haha), em breve pode estremecer por aí que comentarei Zeitgest: Addendum.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: