Zeitgest: Addendum (Peter Joseph, 2008)

Vale dizer que:  neste texto ignorarei completamente a questão do cristianismo e outras religiões porque há tanto que se falar de tais assuntos que teria que elaborar outro texto. Como sou agnóstico mas me interesso pelo cerne das religiões e seus princípios, me limitarei a dizer que sou absurdamente contra as alegações proferidas.

Dito isto, há um grande problema com a mistura de didatismo e  defesa de qualquer “tese” com a arte, em especial a cinematográfica. Pois se a arte é por si só multifacetada, há uma incoerência interna na projeção de uma ideia rígida na tela.

Assim, Zeitgest é uma grande confusão entre as duas coisas.  A tentativa de explicar ao leigo o mecanismo dos multiplicadores monetários e como tudo funciona no sistema bancário para logo após nos bombardear com suas defesas de insuficiência do funcionamento e a consequente e necessária destruição dele a fim de que possamos voltar nossa sociedade para uma estrutura social mais “bondosa” é notadamente falha em vários sentidos. E não poderia ser diferente. Vejamos porque:

Tive a oportunidade de fazer grande parte do Curso de Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais e com isso, obviamente não vou fazer uma análise do que o diretor falou ou deixou de falar sobre o que estudei, mas alertá-los sobre uma coisa: se demorei 3 anos e meio para  aprender algo a respeito, um cara que discursa sobre 15 minutos sobre um tema seria capaz de resumir TODA estrutura de funcionamento do sistema por detrás dos mecanismos de trocas? Obviamente que não, a não ser que ele selecione o que interessa a ele, apenas. Para ilustrar um pouco dos equívocos pensemos no seguinte exemplo que nada tem a ver com economia. Imaginemos uma casa. Nela há um quarto no nível superior com um problema de vazamento. É um problema grave, pois afeta os cômodos abaixo e prejudica a casa como um todo (tanto por sua valorização no mercado, quanto pelos transtornos causados ao proprietário: imagine se falássemos de uma cadeia de apartamentos!?), mas a solução seria compreender a origem do vazamento, investigar suas causas e saná-las…ou DERRUBAR a casa inteira e construir um parque temático? Parece absurdo, não? Pois é exatamente isso que se propõe aqui.

Não há um discurso sobre as origens reais do sistema monetário. Não se fala das necessidades as quais ele se propõe sanar (leia o primeiro capítulo de qualquer livro de macroeconomia para compreender) nem das vantagens que ele oferece. Tudo é exposto como a revelação de um gigantesco segredo escondido da humanidade há anos, a revelação dos pormenores da economia norte-americana como dominadora absoluta do mundo (ideia também completamente ultrapassada desde o início dos anos 00 – ver Sachs e Larrain – “Macroeconomia”) e o total esgotamento do sistema como algo intrínseco a estrutura engenhosa de manipulação montada nele.

É lógico que todos sabemos que há algo de errado com a estrutura capitalista. Há sim um constante fluxo de riqueza fluindo na direção de uma classe econômica extremamente poderosa e que pouco se importa com os demais segmentos. No entanto, uma narrativa cheia de buracos com tom de “simplicidade” e típica de um orador como a de “O Segredo”, construída como se o espectador fosse um “dummy”, não atende aos requisitos para reflexão.

Não há citação de fontes numerosas, não há o desenvolvimento de perfil crítico do espectador (uma vez que ele mastiga cada palavra com sua própria interpretação dos fatos, disfarçando os inúmeros furos) e o tratamento da informação é estúpido (se estivéssemos no interior de uma estrutura tão sofisticada e a revelação fosse tão absurda, porque seriam TRIVIALIDADES de um curso universitário ao acesso de todos? Porque haveria tantas ideias a respeito? Porque existiriam tantas teorias econômicas conflitantes pensadas por indivíduos de várias classes sociais que escolheram estudar e se dedicar a tais argumentos? E se o sistema é tão insuficiente assim, porque perdura por tantos anos? O pensamento social não evolui? Porque há países crescendo e se tornando grandes economias? Porque há países diminuindo suas dívidas públicas e externas?).

Enfim, acho que o grande trunfo do filme é fazer olhar para a questão econômica, como um alarme (porque muitos sequer se importam com ela). Há algumas coisas impressionantes ali, mas esse filme não pode servir jamais como único foco de análise. Deve ficar claro que ele é tendencioso e explica as coisas segmentadamente, como se tentasse provar uma tese (e muito mal provada, diga-se), o que torna as explicações confusas e repletas de erros. Se você se interessou pelo assunto abordado por Zeitgest: Addendum, recomendo deleitar-se em uma biblioteca com manuais de economia e livros básicos e intermediários de Micro e Macroeconomia. Mesmo que você concorde com o que Peter Joseph fala no fim das contas, ao menos terá uma base melhor de como as coisas funcionam e que não é tão simples assim descrever o mundo que vivemos.

Quanto a exposição da teoria, ela parece possuir consequências sedutoras. Mas como não seria, já que propõe o fim dos problemas sociais, de uma preocupação com o todo e não com os fundamentos egoísticos que se perpetuam, etc. QUALQUER coisa que for falada e tiver tais objetivos é sedutor. No entanto, as bizarrices da proposta chegam ao cúmulo de condenar a sociedade “viciosa” de tantos anos e utilizar um de seus principais aspectos positivos : a tecnologia para criar a nova!  Parece absolutamente óbvio que a tecnologia chegou onde está hoje ALIADA ao sistema que ele tanto deteriora. Logo, as afirmações são vazias, pois se a estrutura falha, TUDO (inclusive a tecnologia e a criação de técnicos e cientistas – já que são classes diferenciadas) falha também.  Sem contar as características naturais e psicológicas humanas que não gostamos de comentar como a competitividade, a proteção a si mesmo e a prole, destacar-se dentre um grupo, etc. Um lixo intelectual, mas “bonitinho” na forma e ingênuo na concepção.

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~ por mrscofield em 25/02/2010.

6 Respostas to “Zeitgest: Addendum (Peter Joseph, 2008)”

  1. Olá Silvio,

    Concordo com você, muito dos pontos negativos que você levantou eu também percebi quando assisti, principalmente por não citar fontes e apresentar tudo como verdades absolutas.

    Com relação a parte em que o filme trata sobre o cristianismo, há um total desconhecimento sobre diversos fatos históricos, sociológicos e culturais que se fossem levados em conta desconstruiria todo seu argumento. Se o autor conhecesse a Análise do Discurso, ficaria sem material para defender seu discurso, e falo do ponto de vista científico. Se alguém pretende defender algo deve ter a obrigação de saber se não existem estudos e trabalhos que mostrem uma outra visão do que ele propõe.

    Abraço.

  2. Projeto Venus = Comunismo New Age.

  3. não compreendo sua questão, você queria uma aula de economia sem recursos audiovisuais elaborados?
    se você demorou 3 anos para estudar economia, bem Jacque Fresco tem mais de 90 anos e estudou o assunto a vida toda pra dizer o que diz. O documentário tem endenciosidade e que não deve ser o único foco de análise? Claro! Perceber-se disso é algo que está na própria filosofia de questionamento do documentário (como diz o próprio discurso de Krishnamurti, colocado propositalmente ao fim do doc), mas certamente, pelos inúmeros documentários que eu assiti, não é o unico em que pessoas sensatas, estudiosas, articuladas e sãs abordam tais problemas, ou mesmo se aprofundrem nessa e em outras questões econômicas(sugiro Crash Course e Fall of the Republic).
    Documentários obviamente são a informação rápida, o supra-sumo de uma abordagem, para o espectador direcionar-se e depois arregaçar as mangas sobre seu interesse. É como ver o filme (pq é mais prático) pra depois ler o romance.

  4. Olá, Tássio. Bem, minha análise é do filme e não do Projeto Vênus em si. Como filme ele apresenta um didatismo incoerente com o que acredito ser a característica de arte viva da sétima arte. Eu não me importo se Jacque Fresco estudou a vida inteira dele para dizer o que diz: a questão é que utilizou uma mídia inadequada para expor suas ideias de tal forma, já que o tempo de filme não permite que ele seja mais abrangente e aborde as questões de forma amadurecida para o espectador e pouco tendenciosa. Para mim um filme é o que é, o que está efetivamente exposto na tela e principalmente a emoção que nos causa e não suas pesquisas subsequentes (que são adicionais). E discordo de você, documentários podem ser peças reflexivas que permitem ao espectador questionar sobre as estruturas e não um didatismo que o direciona para uma filosofia única como se fosse a salvação do universo e como se estivesse expondo algo que estava escondido há anos e efetivamente não está. Lamento, mas como FILME (que é a análise aqui), Zeitgeist funciona muito mal, poderia ser mais elaborado. Obviamente eu não queria uma aula de economia, mas uma exposição mais sóbria, sem tendências já que o assunto é demasiado complexo para discutir em 15 minutos. Aliás, já que ele estudou tanto o assunto, deveria ter consciência disso e portanto, mudar a forma de abordagem no filme. Mas enfim, it’s just an opinion.

  5. Zeitgeist NÃO é uma obra completa em sí, é um manual de instruções for dummyes pra dar o pontapé inicial a um novo modo de pensar na sociedade.

    O assunto é tão extremamente amplo que seria impossível tratar em uma enciclopédia, quanto mais em um filme?

    O que vocês queriam? Que economia, religião, exploração dos menos favorecidos e tecnologia fossem tratados aprofundadamente em 2 horas de filme?

    É verdade que ele diz coisas absurdas como: não precisariamos de leis nem políticos, é certo que não gostamos deles mas são necessários.

    Mas a intenção (e é tudo o que importou realmente pra mim, a intenção) do filme é ampliar sua mente para aquilo que você ordinariamente é levado a aceitar como “normal” e que de fato existem alternativas viáveis e práticas para quase todos os procedimentos sociais, tecnológicos e até de própria conscientização do eu interior de cada um.

    Outra coisa importantíssima é que o filme deve ser adequado à realidade Brasileira e não ser absorvido cruamente se vc deseja entender a verdadeira intenção.

    Desculpa ae se falei muita besteira =P

  6. Oi, Caio, tudo beleza? Em primeiro lugar, bem vindo ao site e não você não falou nenhuma besteira, de jeito nenhum. Apenas discordamos. E digo porque…partimos de ideias diferentes. Pessoalmente acho que o filme TEM que se bastar, se fechar em si mesmo, é por conceito uma obra COMPLETA, é arte e não vínculo de expansão de marketing. Um bom filme pode instigar discussões e esconder um universo enorme, mas tem que ter coerência interna e se bastar. SE o espectador quiser saber mais, procure. Mas deve atingir a todos, inclusive os que não se interessarem em fazê-lo.
    Para mim, ao contrário de você a intenção não importa muito.E sim a execução e expressão de suas ideias. Você pode ter qualquer ideia sobre qualquer coisa, mas se não souber expressá-la ou o fazê-lo adequadamente, pode transformar uma flor em uma erva daninha facilmente (veja Crash por exemplo, que para mim uma ode contra o preconceito se transformou para vários em um filme preconceituoso?).
    Discordo também que o filme tem que ser adaptado à realidade brasileira. O filme não foi feito aqui. Tem tendência universalizante (não é isso que Zeitgeist prega?) e portanto, a análise requerida não passa por esse elemento. Ao menos ao meu ver.
    Mas são discordâncias, entende? Eu vejo o filme como um filme e não como o Projeto. E como filme não funciona nada bem.

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