Shutter Island (Ilha do Medo, Martin Scorsese, 2009)

Atenção: O texto a seguir pode conter spoilers (embora não tão explícitos)

Há hoje em dia uma grande discussão sobre a existência das instituições psiquiátricas ainda na época contemporânea. São numerosos os casos de maus tratos, terapias invasivas e de natureza questionável perante os pacientes. Sendo assim, não parece haver tanta evolução assim desde os primórdios da revolucionária descoberta dos problemas mentais e sua análise anterior, que envolvia frequentemente possessões demoníacas e outros fatores.

Entretanto, a carência de consenso quanto a forma mais adequada de tratar os pacientes (especialmente os mais graves) ainda gera um impasse que curiosamente faz com que as estruturas antigas e arcaicas sejam mantidas ou vagarosamente substituídas por métodos alternativos, que tentam manter a respeitabilidade e humanidade que os seres humanos inadvertidamente têm direito, independentemente da natureza de seus atos.

Daí a dita monstruosidade de atos moralmente inadequados para nós contrapõe-se com uma visão de mundo distanciada da nossa realidade e ao mesmo tempo de lógica e metodologia coerentes com esses mesmos pontos de vista que para nós se dizem terríveis ou inaceitáveis – o do paciente. E como é difícil  aceitar a diferença entre o portador da doença mental e o infrator comum, que, mesmo ciente de como a sociedade vê seus atos, torna seu desejo ou “necessidade” individual acima de qualquer senso crítico (e muitas vezes disposto a alegar a problemática psiquiátrica, aproveitando-se de suas habilidades próprias de dissimulação e distorção dos fatos para encobrir sua postura consciente).

O filme nos leva inicialmente, através de um assustador plano limpo que aos poucos se torna cinéreo e de movimentos lentos e tétricos anunciando que se tratava de uma intensa névoa, a um barco e a presença de nossos dois protagonistas: dois detetives que vêm a princípio investigar um caso de desaparecimento de um dos mais perigosos pacientes que residem na inquietante ilha, uma espécie de presídio de segurança máxima em pleno oceano. A imagem rapidamente se torna sombria e soturna na medida em que nos aproximamos do cenário principal (em um delicioso plano filmado a partir da embarcação e ao som de uma melodia sinistra, gerando ao mesmo tempo, um sentimento de medo pelos acordes quanto de sugestão de loucura pela alternância de graves e agudos da trilha).

Shutter Island sem dúvida é um local de difícil definição, com amplos contrastes. Até mesmo suas paisagens exuberantes com vegetação rica e deslumbrante contrastam com a fúria do mar, rochedos altíssimos e a delimitação de suas margens de acesso extremamente restrito. O fator humano também é devastador. Os olhares perdidos e confusos dos “habitantes” constróem a imagem de uma luta permanente contra o meio em contrapartida com as atitudes convictas e compenetradas dos vigilantes e médicos do local.

Desse modo, logo sabemos que a jornada dos detetives não será fácil. Ninguém parece querer colaborar com as investigações, as autoridades não apreciam a presença de dois agentes federais em suas estruturas e amplificam o senso de perigo que envolve a ilha.

E aqui, acho que não convém dizer muito a mais para não estragar muitas surpresas, mas devo dizer que com o desenrolar da trama, somos envolvidos por um universo relativamente complexo ao lado do personagem interpretado por DiCaprio (apesar de em linhas gerais ser bastante ingênua pela sua obviedade) e com um visual riquíssimo, repleto de momentos tensos e bons efeitos visuais (o suficiente para o andamento da estória, sem exageros).  Apreciável também a estrutura dos personagens e os eixos de conexão entre eles.

Creio que o problema do filme é apostar demais no mistério final e, com isso, ofuscar os outras belíssimas peças do quebra cabeças montado por Scorsese (que realmente não se descuidou em nenhum momento da atmosfera, da criatividade e da plausibilidade de nenhum dos fios que tecem a estória). E o filme demonstra ainda na frase final o brilhantismo da condução madura, produzindo uma sensação aterradora no espectador. Recomendado, especialmente para os fãs do suspense e terror psicológico.

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~ por mrscofield em 14/03/2010.

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