Equus (Sidney Lumet, 1977)

7.9/10

A discussão da loucura e de suas consequências não tem origem, naturalmente, no cinema, em filmes como Shutter Island, de Scorsese. Estudos amplos sobre essa patologia existem em várias obras que abrangem-na com numerosas abordagens distintas. Logo se percebe que o cinema em sua gênese possui em comum com uma visão mais geral das doenças mentais, a característica de ambos lidarem com a possibilidade de expandir a realidade, criando um universo alternativo, diante de elementos comuns e observáveis.

Nele, as interpretações dos objetos adquirem novas perspectivas que destróem o conceito do senso determinante do que significam e criam novos e inumeráveis padrões, que, vinculados a outras significâncias dos elementos a eles vinculados compõem uma lógica própria cuja existência está condicionada ao papel de cada um deles nesse universo paralelo. E assim se forma a liberdade de criação na sétima arte, que nos presenteia com belíssimos espetáculos que unem a lógica, a racionalidade e a emoção humana versus a chamada visão distorcida do senso comum ou reinterpretação do fato observável (por vezes de forma antissocial), comumente chamado de loucura.

Lumet utiliza, em Equus, de um componente trágico – um rapaz de 17 anos, apaixonado por cavalos, cega, aparentemente sem motivo, seis animais em um estábulo – para dar vida a discussões graves e complexas. O garoto é analisado por um psiquiatra que é absorvido pelo sofrimento e, em seus monólogos diretos ao espectador, revela, gradativamente, o quanto a compreensão da lógica de qualquer coisa prejudica nossas concepções socialmente aceitas por ser demasiado difícil designar algo sem recorrer a definições pré concebidas e simplesmente aceitas por nós. Pensar demais é proibido porque nos tira os pilares do que acreditamos cegamente, uma vez que tudo pode ser reinterpretado de maneira não convencional e não desejável.

Equus é uma viagem pela consciência atormentada de um rapaz que é produto do meio onde viveu. O encadeamento racional e emocional de suas relações com seus pais o levam a uma jornada de luta e dor. E para compreendê-la é necessário conhecer seus fundamentos e construir junto com ele seu “universo paralelo”. Mas o risco é muito grande. Você pode ser chamado de louco ao terminar. Excelente filme de Lumet com uma atuação espetacular de Richard Burton e do protagonista. A discussão é acessível, palpável e não é exposta de forma complexa, embora o seja. Recomendabilíssimo.

Spoilers

Me incomodou muito o fato do imdb ter classificado como uma das plot words algo relacionado a homossexualismo.Interessante como questões relativas a problemas sexuais são imediatamente relacionadas a homo-bi ou outros comportamentos comumente relatados. Não há respostas simples aqui.

O filme não tem absolutamente nada a ver com o tema. A sexualidade do rapaz está vinculada de forma rígida a seus preceitos religiosos cerceados pela mãe (interessantíssima discussão, inclusive, porque a retirada do fanatismo da mãe da formação da personalidade do menino – simbolizada pela retirada do quadro horrendo da condenação de Jesus – foi ainda mais catastrófica que sua manutenção). E sua conotação em Equus nada tem a ver com homossexualidade, mas é convertida, escondida, transformada em idolatria.

Um dos principais problemas tem origem sexual e não homossexual. A falha na relação sexual com a garota no final está relacionada à suposta traição do Deus Equus (figura relacionada a Jesus Cristo construída através da relação inconsciente entre os quadros na parede do quarto do garoto e similaridade de elementos) e sua punição, bem como a revolta por não conseguir conter sua natureza de SER sexual. Ele não poderia suportar a ideia de Equus ver sua traição, pela vergonha, obscenidade e sua fraqueza humana e daí o ato de violência contra os animais.

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~ por mrscofield em 21/03/2010.

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