Begotten (E. Elias Merhige, 1990)

8.3/10

Para compreender as intenções de Begotten, precisamos reverter o que normalmente pensamos em termos de humanidade e sociedade. A relação de causalidade e consequência é frequentemente usada para detectar as falhas e virtudes que originaram determinado comportamento ou ordem “natural” de forma a suprir problemáticas e motivar a mudança de rumos que eliminará (no caso de negativa) ou sustentará (no caso de positiva) a condição para as futuras gerações.

Em resumo, o comum em estudos de psicologia/sociologia é tentar imaginar a raiz, a origem dos fatos, portanto, que desencadearam tal comportamento ou estrutura indesejada (ou desejada). Em Begotten, partimos de uma premissa que envolve de início a observação de uma humanidade incrivelmente frágil e doente, com instinto auto destrutivo mas potencial absurdamente poderoso de se renovar e ainda assim se auto destruir novamente em um assombroso ciclo de sofrimento.

E então surge a estória que cuidadosamente deve ser observada através dessa ideia inicial. Sua simbologia envolve a sexualização de elementos de criação (a escolha das entidades religiosas como gênese existe por estarem vinculadas naturalmente a nossa cultura) e a podridão de suas constituições (novamente a consequência-causa:  uma humanidade tão doentia só pode ser fruto de algo ainda mais doente). Dessa forma, não há de fato, uma crítica pesada às religiões em si, mas a utilização de seus “prefixos” para tornar a ideia mais compreensível. Afinal de contas, é razoável dizer que a perspectiva geral só permite que nos limitemos ao que já conhecemos ou temos contato, até para efeitos de linguagem e comunicação.

Merhige pensa de forma cuidadosa em cada frame com a qual nos brinda na tela. Utiliza de uma dicotomia única entre o preto e o branco sem gradações e a imagem em movimento para revertê-las (produzindo na mesma cena resultados amplamente distintos) e envelhecê-las enormemente, como se o mundo da ficção pudesse retratar em suas câmeras artificiais o instante exato do nascimento humano há séculos e séculos atrás e sua tentativa desesperada de sobrevivência. Todas as criaturas da estória possuem traços humanizados, horrivelmente deformados e conexos com um estranhíssimo mundo onde suas ações violentas são amorfas, desfocadas, sem entretanto, abalar seus requintes de crueldade e atos sanguinários.

Begotten é um filme de terror em essência, encrustrado no âmago de sua concepção, partindo do algo completamente original e perturbador para construir uma fábula de dor e extremos negativos. Uma das maiores iniciativas da década a qual demonstra que o gênero jamais se esgotará e o vanguardismo ainda existe e não será nunca totalmente explorado. A década de 90 começa com um terror extremo de altíssima qualidade (o que é raro), uma obra prima de difícil degustação, abstração e reflexão. Brilhante.

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~ por mrscofield em 27/03/2010.

7 Respostas to “Begotten (E. Elias Merhige, 1990)”

  1. Parece ser puta filme perturbador, eu estou com ele há tempos para assistir. Vai pro topo da lista.

  2. Pois é, Marcus, e é mesmo. Diz aí, você gosta de filmes do gênero? Me dá umas indicações aí, garoto. Eu indico sempre Visitor Q, do Takashi Miike, que distorce a felicidade de uma forma totalmente estranha, mostrando que esse sentimento é questão de ponto de vista. Você não tem ideia do que é a felicidade e a busca para os personagens, mas é bem punk. By the way, assim que ver Begotten, poste sua opinião aqui pra gente discutir, mesmo se não gostar.

  3. Bah, eu sou fanzão do Miike, Ichi e Audition na veia! Na real eu comecei me interessar mesmo por terror não faz muito, logo depois de ser atropelado por “Martyrs” – diga-se de passagem um dos melhores filmes lançados ultimamente. Curto bastante os do Carpenter também, principalmente Prince of Darkness. Estou começando a ver os Fulci e o resto da galera italiana, Bava e tal. Os terrores do E falando em terror, estou com Holocausto Canibal pra conferir também. Pode deixar que assim que ver Begotten, volto pra dar minha opinião.
    Abrs!

  4. Hmmm..você está indo pelo caminho certo. Já assisti a Martyrs, é um filme da nova safra de cinema europeu de terror, gosto bastante. Mais aclamado que ele, na crítica, é o francês A L’Interiéur (Inside – Unrated), que tem um final apavorante e é da mesma linha. Recomendo assistir, é muito bom, mas foge da linha do terror extremo, como Cannibal Holocaust ou Begotten. Fulci e Bava são sensacionais, bem como Carpenter (veja o excelente Eles Vivem também). Ah, e veja pelo amor de Deus Reazione A Catena, se gosta do horror italiano.
    Cannibal é um filme excelente, mesmo sendo demasiado moralista e contraditoriamente violentíssimo. É o único exemplar do terror extremo que vi com mensagens(normalmente eles são amorais).

  5. Tive o desprazer de assistir Begotten, depois fui fazer uma pesquisa para saber as opiniões.
    Não dá para tentar intelectualizar essa PORCARIA.
    É um filme doentio, criado a partir de uma mente doentia, de desnecessária existência.
    A cinematografia é uma MERDA, a trilha sonora é outra MERDA

  6. Eu assisti o filme sem ler qualquer crítica, ou seja livre de preconceitos no bom e mal sentido, a minha opinião é que não é possível compreender qualquer coisa do filme sem ler algo sobre ele antes. A forma em preto e branco sem definição faz com que não se compreenda grande parte da mensagem, o filme é extremamente lento em seu desenvolvimento, o que irrita, não agrada, não passa a mensagem. Mas o que se lê sobre o significado do filme é sempre bonito.

    • Olá, Eric, seja muito bem vindo ao blog. Realmente o filme é bem esquisito e foge um bocado do que estamos acostumados a assistir. Eu não acho muito lento, acho tenso, meio triste e me incomoda bastante (especialmente o início). Tem também uma série de eventos polêmicos – como a noção do criador – mas eu gostei bastante.

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