Kind Hearts and Coronets (As 8 Vítimas, Robert Hamer, 1949)

9.2/10

Ah, a Justiça. Abstração amorfa e impulsiva nas mãos do ódio dos afetados pelo ambiente inóspito dos casos onde é requerida; substantivo comum, símbolo de inesperada calma, paciência e solidez argumentativa nas mãos dos que a aplicam sem envolvimento direto.

Sua materialização constante (pois o homem insiste sempre em definir, delimitar em forma do que conhece) se constitui de uma mulher de expressão vazia dotada de uma grande venda nos olhos caracterizando uma cegueira ilustre, que lhe confere ares de imparcialidade e supremacia da verdade identificada na figura de Atena. A espada e a balança ostentadas em suas mãos completam a figuração. Transplantando-a para um mundo ainda mais figurativo, não há que se enganar, entretanto. Esta cegueira não é natural, é fabricada. Retire a venda e a criatura adquirirá a forma e a percepção subjetivas de que tanto foge. Não podemos criticá-la, uma vez que a moral a que se submete também é fabricada. Apresenta suas raízes penetradas fortemente  nas obras do Direito consonantes com as normas da sociedade vigente. No entanto, em um acordo com o destino, apresenta seus passeios secretos pelos jardins proibidos da mente humana irracional, liberta completamente das trevas de suas raízes profundas. E então se torna terrivelmente perigosa, afinal ela porta uma enorme espada para cumprir a sentença. Uma arma que como qualquer outra, pode ser usada para fins manipulativos e isentos de caráter.

Esse caráter sedutor e ambíguo da justiça é a principal estrela do roteiro magnífico da obra prima de Robert Hammer. Tão sensual quanto as belíssimas mulheres da trama em seus figurinos incríveis e clássicos e por vezes cruel quanto os sentimentos ambiciosos do protagonista, assassino confesso, é tratada como elemento central, desnuda em flor, em seu habitat genuíno. Livre a pairar pela imaginação do espectador, convidado a definir/descobrir suas intenções misteriosas.

Somos convidados a conhecer, após a instituição de sua sentença de morte, um personagem da nobreza. O Duque de D’Ascoyne. Nem sempre fora assim, entretanto. Filho de uma mulher pobre, descendente distante da tal família de nobres, Louis constrói, após a morte de sua progenitora há algum tempo atrás, um plano horrendo e sanguinário de vingança motivada. De se tornar o Duque e, para isso eliminar toda a prole indesejável que poderia tomar seu lugar. O seguimento do plano nos levará a uma brilhante conclusão e a participação inteligente e bem desenvolvida na arquitetura e execução de seus fundamentos malévolos.

Como se não bastasse o enredo extremamente envolvente nos apresentado deliciosamente pelo protagonista vivido por Dennis Price em sua elegância de Lorde Inglês e a frieza de um predador calculista, ainda convivemos com a maior das atuações múltiplas de todos os tempos (junto da aula de cinema de Peter Sellers em Dr. Fantástico): Alec Guiness, vivenciando espetacularmente os oito membros da família D’Ascoyne, cada um com suas características estapafúrdias e peculiares. Algo de encher os olhos. Bem humorado, misterioso, surpreendente e de uma riqueza inacreditável na profundidade dos personagens. O cinema novamente é mágico em sua plenitude como poucas vezes na história. Obra prima absoluta.

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~ por mrscofield em 04/04/2010.

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