While She Was Out (Enquanto Ela Está Fora, Susan Montford, 2008)

6.7/10

A correspondência entre a realidade palpável e o universo irracional ocorre, segundo muitos, por uma interpretação cerebral nem sempre lógica da percepção dos objetos do espaço físico. Segundo essa teoria, não somos capazes de imaginar nada do que não conhecemos, apenas readaptamos os elementos já vistos em uma nova realidade composta por parâmetros distintos dos que estamos acostumados. Conforme esse reagrupamento vai ocorrendo, situações as quais muitas vezes desprezamos são prontamente captadas e posteriormente “recalculadas” para povoar nossos sonhos, medos ou influenciar em nossas decisões de forma inconsciente.

Utilizando o cinema como exemplo, podemos citar a ficção científica. Já discutimos anteriormente em outra ocasião que os mundos longíquos e os seres por vezes medonhos que aparecem em filmes não são mais do que retratos de nossos comportamentos refletidos em uma sociedade que funciona envolta em uma dinâmica distinta. Muitas vezes, o desejo de mudança é expresso em suas características ou ela é utilizada para nos advertir de que nossa condução nos levará à destruição. Tantas vezes são seres muito mais inteligentes com enorme desenvolvimento tecnológico mas sempre dentro do limite do imaginável, ou do que imaginamos ser possível um dia atingir.

A ciência ainda estuda possibilidades estranhas de concepção de outras dimensões e universos e o que significariam para nós. No livro Hiperespaço, de Michio Kaku, a tentativa de imaginar como seria uma quarta dimensão espacial só faz sentido quando imaginamos como seria penetrar um dedo em uma folha de papel (somente possível em um mundo com pelo menos 3 dimensões como o que vivemos) para um ser que vive em duas (dentro da folha de papel). Para esse ser “achatado” sem noção de profundidade, à medida em que afundamos o dedo, ele perceberia um monstro horrendo em forma de círculo (pense em um dedo cortado transversalmente) que muda várias vezes de forma em poucos segundos. Ele ficaria aterrorizado. Imagina-se que seria exatamente o que sentiríamos se observássemos um ser que vive na quarta dimensão. Como não temos noção da outra dimensão a mais, ele poderia atravessar com facilidade portas, janelas, ir de um a outro lado do nosso mundo em segundos (pense na facilidade de você chegar de um lado a outro com o dedo em uma folha de papel). Enfim, esses testes empíricos tentam suplantar nossas deficiências racionais de ter noção verdadeira do que seria a experiência.

Fica então muito difícil saber de onde vêm sentimentos irracionais comuns a todos. Porque sentimos medo? Pânico? Terror? Essas sensações por vezes desagradáveis que por forma associativa desencadeiam reações biológicas como taquicardia, fechar os olhos, incômodos gástricos, perturbações psicológicas e outros efeitos. Ora, se tudo é questão de nossas experiências e cada um tem as suas, de onde vem a similaridade para causar em um grande número de pessoas a mesma sensação?

A explicação mais plausível está na massificação de alguns elementos, digamos, causadores. A maior parte das pessoas tem medo da morte porque pode vir a ser dolorosa ou criar dor quando da perda de um ente querido. A violência nos causa náuseas porque proporciona medo de sermos atacados e assim por diante. Essa “constância” nem sempre propõe nexo inconsciente, mas na maior parte das vezes abre uma possibilidade grande de encadeamentos como esses ocorrerem.

Em While She Was Out há exatamente um exemplar da exploração cinematográfica da temática do medo. A partir de uma premissa banal – uma mãe de dois filhos, vítima de um marido violento se envolve, em um episódio estúpido em um estacionamento de um shopping com um bando de marginais que a perseguirão incessantemente até a morte – capta-se a problemática desde a partir dos movimentos da câmera até as emoções dos personagens e a arremessa aos olhos do espectador, criando um universo paralelo dotado de armadilhas e riscos terríveis e dos mais graves possíveis. A cada nova cena unhas são devoradas, você se acomoda de forma diferente na cadeira e sua tensão se eleva.

E a partir daí o filme se entrega a um só fator: o medo. E ele atinge TODOS os personagens da estória. Não só a mulher que luta desesperadamente pela sobrevivência como os delinquentes (que representam uma outra face do medo, quando a mulher começa a reagir de forma instintiva e violenta à ameaça). Este bingo do filme de Susan Montford só não funciona bem porque comete um erro: não preconiza AMBAS as faces, para tornar o mal onipresente (como em Halloween faz de outra forma, mas em uma condução brilhante). Sempre vemos o filme do ponto de vista da mocinha e ela se assemelha à face da inocência (e vingança). Portanto, a ameaça que ela poderia representar é vista como boa. Legal mesmo seria a inversão de papéis explícita. Ver a alternância de pontos de vista, mostrar que realmente o caráter dos protagonistas oscila e ampliar nossos medos por temer tudo e todos.

E à medida que caminhamos para a conclusão, tudo passa a ser previsível e os momentos de tensão são menos intensos por isso. Nem mesmo o final absurdo era inesperado. No entanto, há um material bem interessante a ser trabalhado, que só não ganha forma mais encorpada por desperdiçar a força do argumento (que nem depende muito da estória, o que seria um trunfo). Uma pena. Boa atuação de Kim Basinger e alguns bons momentos de tensão acabam por resumir um filme que poderia ser muito melhor.

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~ por mrscofield em 04/04/2010.

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