Soylent Green (Richard Fleischer, 1973)

7.4/10

A década de 70 corresponde a um período de longas convulsões sociais onde o pânico da superpopulação e o esgotamento dos meios de subsistência constituíam prenúncio de um futuro mórbido e uma sociedade doente. Soylent Green “reconstrói” de maneira aterradora nas cenas iniciais e com um timing excepcional a completa degradação social a que seríamos teoricamente submetidos se as condições fossem mantidas.

Quando chegamos a 2022, quando o espaço e o tempo se estabilizam na estória a ser contada, o período de crise atingira seu ápice. Não há sinais de emprego real e disseminado, mas de corrupção nos poucos existentes, grandes amontoados de pessoas espalhadas dentre mortos, doentes e sadios pelas ruas, esquinas, escadas e carros sucateados (lembremo-nos da crise do fordismo e da falência do Welfare State que vinha se delineando desde a década de 60, cujas mercadorias principais eram “a moradia média” e o automóvel, símbolos de status clássicos) e uma minúscula parcela de uma elite que aprecia as benéfices de suas conquistas materiais, privilégio de bem poucos. Tais privilégios seriam trivialidades do mundo moderno a qual sequer damos muito valor. Fatores que se tornaram luxo pela escassez, colapsando por completo um dos fatores principais componente do mecanismo que envolve as roldanas do capitalismo. Exemplos demonstráveis são  morangos, água quente, vegetais, carnes, etc.

Nosso protagonista é um policial que, sendo um indivíduo de certa forma privilegiado (aparentemente parte de uma classe pobre que, devido a circunstância de miséria da maior parte da população recebe status de classe média), investiga o assassinato de um homem misterioso, cujos segredos, se expostos poderiam colocar em risco a ordem vigente.

Sua curiosidade leva a um mundo exótico composto, principalmente de pessoas sofridas que tentam desesperadamente conquistar sua parcela de alimento (especialmente às terças feiras, onde a grande empresa Soylent Green, apresenta sua “ambrosia”). Outras variações são disputadas, mas não com tanta veemência, como o Soylent Yellow, Red, Blue e outros. As engrenagens por detrás de seu funcionamento são desvendados aos poucos levando o rapaz a descobertas perigosas e surpreendentes.

A condução da estória é realmente muito interessante, especialmente nos últimos vinte minutos onde a trama efetivamente começa a se desvendar e revelar uma realidade ainda mais assustadora que a suposta anteriormente. É o poder do cinema e da ficção científica novamente problematizando questões inerentes a fenômenos sociais de vulto paradoxal. O extremo de flertar com as bases fundamentais do sistema vigente de reprodução e ampliação do capital inabaláveis (o poder versus a miséria expressos através da materialidade), mesmo diante das transformações óbvias e praticamente insustentáveis de cunho especificamente comprometedor da vida no planeta.

Soylent Green é um alerta de um possível esgotamento das forças contraditórias que mantém essa estrutura se reconstruindo e se mantendo. As consequências de um mundo onde cada vez os detentores dos mecanismos transformadores se importam menos com os próximos e mais com o consumo desenfreado e a elevação de status individuais. Bela obra, de grande teor reflexivo e de final fascinante.

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~ por mrscofield em 11/04/2010.

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