Case 39 (Caso 39, Christian Alvart, 2009)

6,6/10

Contemplar o horror despido na face de uma criança proporciona um calafrio na espinha.  O melhor disfarce para um ser que representa o mal na terra é conduzir-nos dentro dos princípios sociais e morais a que seguimos por tradição a uma observação totalmente adversa de suas intenções. A criança é a representação da inocência, da pureza de sentimentos, da sinceridade e do amor real.

Já disse aqui que a irracionalidade do medo indica que para atingir um grande público chave através de fatores gerais devemos nos confrontar com a perversão de conceitos pré-estabelecidos. Assim, atingimos uma grande parcela das pessoas, cujas ideias advém da própria formação. Grandes sucessos já subverteram o papel da infância nas telas de cinema. Talvez o exemplo mais temível seja a estória de Damien, em A Profecia e suas subsequentes continuações. O garoto obtinha com facilidade o aparato necessário para acobertar seus terríveis atos, já que as pessoas tendem simplesmente a ignorá-los ou não enxergá-los por causa da máscara cruel da criança.

O que me atrai nesse tipo de filme é, de fato, a possibilidade de destruição de um estereótipo, uma vez que não gosto de paradigmas comportamentais. Em geral, tenho uma opinião bastante polêmica: considero o universo das crianças tão egoísta, mesquinho e manipulador quanto o adulto, só que com armas diferentes. E cabe aqui dizer, que esse universo apresenta duas dinâmicas: a relacional entre o mundo adulto e o infantil e o interno. Como há uma relação de domínio no primeiro caso através da coerção (quando ocorre o confronto direto, pelo menos há domínio dos responsáveis pela criança), convém considerar tais armas no segundo caso, onde os instrumentos de “batalha” e “imposição” são semelhantes, entre garotos e garotas situados no mesmo nível.

Notadamente, a exploração de tal universo é complexa e não pode ser discutida isoladamente, pois muito da manipulação envolvida está relacionada ao instinto protetor dos pais (que pode ser usado na estrutura interna do ambiente infantil como arma para “oponentes”), proporcionando um intercâmbio constante entre as duas vertentes, mas enfatizando que a principal relação (até pelos valores ainda em processo de maturação) é interna ao mundo infantil ou adolescente (este segundo caso é ainda de maior gravidade).

Por toda esta problemática, Case 39 funciona de forma bem interessante quanto a construção narrativa. Somos apresentados a uma assistente social (profissão ideal para quem reflete o retrato do pai tradicional, que considera todos os valores construídos pela sociedade como inabaláveis, pois na maioria dos casos a ele apresentados, é mesmo o que acontece) que se depara com um estranho caso de uma garotinha que seria assassinada pelos pais queimada dentro de um forno a gás.

Os ingredientes são muito bem expostos, especialmente pela delimitação dos personagens, pois se tratam de extremos. A assistente social é incrivelmente bondosa, a menina é sobrenaturalmente maldosa mas se faz de boazinha, a sociedade se porta como o esperado e você, como espectador ciente de tudo, rói as unhas na esperança de que alguém vá ajudar a protagonista ou ela consiga se livrar do grave problema, que se agrava com o passar dos minutos. Exatamente a distorção do habitual, como disse anteriormente, no caso, elemento sustentador da trama.

Considero esse um suspense muito mais de estrutura do que de execução, uma vez que a boa constituição dos elementos centrais são fundamentais para um filme que não tem muito diferente do que todos já vimos, funcione relativamente bem e seja uma boa diversão e não mais que isso. Bons sustos!

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~ por mrscofield em 16/04/2010.

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