A Máquina (João Falcão, 2005)

7,1/10

Conceber uma fábula em um horizonte de sonhos e surpresas…Um mar de cores compactuando com as emoções, o caráter especial de sua existência, a plenitude do amor, viver infinitamente a partir da música e até mesmo possuir o controle do clima e do tempo. Ser o dono do mundo.

A Máquina, uma experiência teatral de sucesso a partir de uma adaptação do livro de Adriana Falcão, traz às telas uma experiência única e agradável sobre a felicidade de encontrarmos ecos dissipados no mundo de nossos sonhos e desejos, como se o universo conspirasse “todinho” (na linguagem maravilhosamente regionalista do protagonista) para tal.

O filme desenvolve, sempre em uma atmosfera de irrealidade, mas sempre cuidadosa e encantadora, o mundo de Antônio, filho mais novo dos 13 de Dona…bem, o que importa o nome da senhora? Pois poderia ser qualquer mulher batalhadora brasileira do nosso querido e sofrido Nordeste. O garoto se dissipou em choro inexplicável por anos a fio sem descanso até que a natureza, para lhe conferir um merecido descanso, presenteou suas lágrimas com a chuva, que substituiu em âmbito maior seu sofrimento sem origem. E o garoto finalmente pode sorrir. E abrir sua mente para sonhar com o auxílio de sua nova aliada a qual possui conexão íntima: a mãe natureza.

E, em uma condução sóbria e sempre mágica, encontramos uma estória de amor. E diante das contradições inerentes ao desejo de Karina, de jamais permanecer naquela pequena cidade de Nordestina (que nem aparece no mapa) e conhecer o mundo versus o de Antônio de permanecer ali para sempre, no seu território de maravilhas, nosso herói decide, com o auxílio de seus poderes paranormais, trazer o mundo até ela, desencadeando eventos belíssimos.

A narração do saudoso Paulo Autran é emocionante, bem como a linguagem poética sem abandonar em nenhum instante a riqueza gramatical particular e peculiar do Nordeste brasileiro em nenhum dos dois cenários onde a estória tem lugar. Por vezes há um disparar de palavras, uma conjunção de beleza e saber, tecendo um panorama de lirismo.

Os últimos minutos, onde a temática do tempo é abordada, é também bastante interessante. Não a discutiremos nesse comentário para não destruir as surpresas do roteiro, mas a coerência interna é sempre preservada, uma vez que o filme, em nenhum instante, se propõe a viver o mesmo mundo da realidade palpável. E as críticas sobre os supostos absurdos da fidelidade e plausibilidade dos eventos não fazem qualquer sentido, justamente porque o filme não firma um compromisso real com a lógica. Não é mais do que uma estória de amor contada em moldes originais em um contexto onírico onde tudo é permitido.

E olha só eu falando isso, mesmo sendo um grande fã de viagens do gênero e sempre observador assíduo dos inúmeros paradoxos temporais (especialmente do homem sem passado e do encontro de você com você mesmo)! Neste quesito, o filme de Shane Carruth (Primer), obra prima do gênero é imbatível porque se foca no assunto e constitui-se no mais razoável destrinchar das consequências dessa possibilidade, algo que não faz o menor sentido aqui e, portanto, é discussão para outra ocasião. : )

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~ por mrscofield em 18/04/2010.

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