The Happening (Fim dos Tempos, M. Night Shyamalan, 2008)

7,2/10

Atenção! O comentário a seguir contém spoilers:

A curiosidade é uma das características humanas mais arraigadas. E, como tal, apresenta-se nas configurações mais diversas ao decorrer da vida de um indivíduo, mas jamais desaparece.
Na infância se manifesta de forma explícita, simples e óbvia. As perguntas formuladas nesta fase são claras e diretas, sinais de inteligência para a criança ou até mesmo constrangimento de seus receptores em alguns casos. Mas há de se dizer que, durante este período, a curiosidade sempre é observada a fim de avaliar o potencial do futuro adulto de construir sua própria história de responsabilidade, sucesso e prosperidade.

À medida que crescemos, nos tornamos mais sofisticados. Pouco sabemos sobre o mundo que nos cerca (assim como não sabíamos quando éramos crianças), mas tudo se torna mais complicado, as perguntas mais elaboradas, as formas de exibirmos nossa ignorância perante o universo encontra formas mais dissimuladas. E quanto mais alto o nível, mais diferentes são as perguntas, mais sofisticadas. A ciência “institucionaliza” o processo por completo. A poderosa ferramenta racional estabelece métodos descritos minuciosamente (ao menos em teoria), confere substância à prática de sua utilização e enumera conceitos e condições para aceitação dentre as diversas correntes de pensamento científico.

Fala-se muito no que podemos explicar. De todo o conhecimento obtido até hoje extraímos substâncias que compõem medicamentos que salvam vidas de pessoas por doenças outrora catastróficas, construímos complexos computadores capazes de coordenar o trânsito de uma grande metrópole, interligamos pessoas através de meios de comunicação inimagináveis há um século atrás, enfim, tornamos a vida um “bem” mais duradouro e muito mais agradável.
Mas…e o que não podemos explicar? E nas situações onde a ferramenta racional não é adequada? E quando todas as explicações possíveis possuem falhas? O que acontece com nossa curiosidade?

É justamente nessa lacuna que o filme de M. Night Shyamalan encontra sua maior dádiva (e, por consequência, seu maior risco). A vingança da natureza contra os homens já fora tratada em outras projeções, inegável, mas não há simplificação da temática em “Fim dos Tempos”, uma vez que o filme traz à tona as possibilidades de análise do fenômeno natural. Explicar o inexplicável, um enigma da ciência, nós a serem desatados por inúmeras mãos através do conhecimento agregado por séculos de estudo.

Enquanto normalmente as explicações são estapafúrdias ou simplesmente se evita falar a respeito das causalidades de algo que distorce nossa noção de lógica, em Fim dos Tempos elas estão ali, tentando desesperadamente satisfazer a curiosidade das vítimas e a nossa…mas elas não funcionam, simplesmente não funcionam. Todas as avaliadas possuem problemas. E Shyamalan parece se deliciar fazendo o máximo para que isso ocorra (e, talvez, mesmo brincar com seus abundantes detratores instigando-os a questionar se o que presenciamos é sua genialidade ou erros abruptos no roteiro).

Os estranhos e devastadores eventos na Costa Leste dos Estados Unidos são retratados de modo aterrorizante e a atmosfera sufocante chega a nos envolver por completo em alguns pontos (a cena da morte dos garotos é desesperadora, por exemplo), gerando calafrios terríveis na espinha.

É nesse ponto que os problemas de Fim dos Tempos começam, por outro lado. As excessivas tiradas de humor, irritantes, em sua maioria, impedem uma interação mais perturbadora com o espectador, ocasionando um contraste com o descrito no parágrafo anterior que não funciona nada bem para a receptividade deste último.

Adicione-se a este elemento personagens insossos, sem profundidade psicológica e interpretações pavorosas de Mark Walhberg (que jamais deveria ter sido escolhido para o papel, soa extremamente artificial nos momentos mais tensos) e de Zoey Deschanel (belíssima fisicamente, mas horrível em todas as aparições) e, infelizmente, o resultado é um filme irregular, que peca pelos minutos finais por excesso de detalhes (especialmente com a relação “eventos-tempo”) e que desperdiça uma grande idéia com instrumentos inadequados.

Mas, sem dúvida, é, no mínimo curiosa a abordagem de Shyamalan, e apesar de longe de ser um filme excelente, proporciona um bom divertimento. O controverso diretor está de volta.

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~ por mrscofield em 21/04/2010.

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