Nekromantik (Jörg Buttgereit, 1987)

3,4/10

A abordagem de temas demasiadamente polêmicos (tanto que tendem a ser rigorosamente evitados) é uma faceta do horror extremo. Este legítimo exemplar de um sick movie aborda dessa vez a necrofilia e vai a fundo nos processos de insanidade envolvidos, nas abstrações e coerência interna e principalmente na aposta na violência e choque para alcançar a discussão social que o assunto requer (ao invés de ser simplesmente ignorado).

Percebe-se pelo filme que as origens de tais distorções sociais no protagonista e sua parceira são de fato desconhecidas, mesmo com alguns lampejos que permitem frágeis conexões com a infância e talvez eventos fortemente traumáticos. No entanto, a dinâmica envolvida pode ser exposta de forma plena e explícita, originando cenas contraditoriamente ridículas e por vezes absurdamente fortes.

Como se tratam de pessoas visivelmente perturbadas, você rapidamente se encontra imerso em uma plataforma bizarra, que utiliza apenas de elementos reais em uma concepção distinta da realidade (quem assistiu ou leu o comentário de Begotten perceberá que essa tônica é bem comum em filmes do gênero). Acompanhar Nekromantik é tarefa árdua, uma jornada construída sobre a alcunha de infelicidade, desvios graves sexuais e solidão intensa.

O filme acompanha um homem relativamente jovem cuja profissão é transportar cadáveres captados em acidentes violentos ou encontrados pela polícia. O destino desses corpos não é explicitado de fato no filme, mas percebemos que o homem tem problemas ao ver logo no início seu vício estranho de recolher porções disjuntas das pessoas mortas e mergulhá-las em vidros com formol em sua residência. Tudo se torna ainda mais bizarro ao notarmos a presença de uma mulher que se mostra extremamente contente com o hábito. Dentre banhos com vísceras e desejos sexuais reprimidos, o rapaz decide roubar um cadáver inteiro em decomposição e levá-lo para casa. Quando o improvável triângulo amoroso (sick) se consolida, a relação entre ele e a moça se desgasta e os problemas psiquiátricos se evidenciam ainda mais poderosos.

Não se surpreenda com a estória. É normal nesse tipo de filme estórias pobres e de cunho tão excessivo que aparentam ridicularidade. A tônica dos filmes extremos está na propagação da violência psicológica intensa justamente a partir de enredos desse tipo. Só que aqui funciona demasiadamente mal.

Os efeitos especiais refletem a alternância entre o podre e o razoável, apesar do visível baixo orçamento, mas há muito sangue. Os ângulos de proximidade e a técnica empregada na movimentação difusa dos personagens principalmente nas cenas de sexo é bastante promissora, muito embora nos deparemos no mesmo filme com cenas indesejadas e dispensáveis de pessoas urinando em close (what the fuck?).

Nekromantik é, pois, uma montanha russa, repleta de prós e contras que devem ser analisados cuidadosamente antes de um posicionamento decisivo. Eu vejo muito mais contras que prós, mas alguns admiradores consideram o filme indispensável. Deve-se ressaltar que existe violência contra animais (embora não saiba se ela é verdadeira como no caso de Cannibal Holocaust).

O filme teve uma continuação em 1991, muito mal falada e de cunho apelativo (como se este não tivesse), segundo dizem.

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~ por mrscofield em 23/04/2010.

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