Estômago (Marcos Jorge, 2007)

7,0/10

Definitivamente há vários tipos de poder em uma sociedade. Quando observamos o mundo, percebemos uma estrutura complexa composta por categorias que interagem o tempo todo e dependendo da situação predominam umas sobre as outras.

Todo ser humano possui habilidades, e a diversidade das características possíveis dentre os homens promove uma grande amplitude de resultados para essa interação, dependendo de como os indivíduos elaboram suas estratégias de conduta social.

Nesse contexto, “definir o que eu possuo de melhor” ou “como posso utilizar isso para meu benefício, sabendo que sou melhor que os outros nesse aspecto” e o principal e mais assustador: “como posso impor essa característica para que os outros sejam obrigados a me aceitar dentro do grupo e, de preferência, como ser dominante” são faces da mesma moeda. As diferentes interpretações dão conotações mais ou menos nobres dependendo do ponto de vista, mas estão todas presentes e no fundo representam a mesmíssima coisa. Coisa, convenhamos, até normal no mundo capitalista e competitivo em que vivemos.

Em Estômago, a gastronomia é a característica que simboliza o poder. Aos poucos, convivemos com o processo de descoberta da habilidade culinária por Nonato, sua apreciação, o longo processo de refinamento e finalmente a escolha do ambiente adequado para sua impugnação (e, em um nível mais elevado de “evolução do personagem”, posteriormente, à adaptação do ambiente para a imposição da habilidade).

Nesse ponto, Nonato lembra os super-heróis com os quais tivemos a oportunidade de conviver em nossos sonhos infantis. Nordestino, visto com preconceito por toda a sociedade com a qual tem contato na cidade grande, o rapaz é vítima da ingenuidade (?) e da ausência de elementos básicos para sua sobrevivência – a princípio ele não tem casa, comida ou segurança.

A estória se divide em duas situações que se desenvolvem em linhas narrativas diferentes, mas relatadas de forma quase simultânea, separadas por um hiato cronológico. Desde o início o espectador sabe que as duas se entrelaçarão, mas não tem idéia de como isso vai acontecer.

Na primeira, Nonato chega à cidade se vê às voltas com os problemas da migração interna e a falta de dinheiro. Aos poucos percebemos que o universo do personagem se torna limitado pelas ruas do bairro onde se instala – se à princípio vemos um local repleto de prostituição, condições de higiene deploráveis e pessoas pobres e exploradoras, mais tarde, a ascenção social de Nonato não muda tanta coisa assim: o restaurante de nome sofisticado a qual passa a trabalhar mais tarde, embora um pouco melhor, ainda escancara algumas características que não negam sua origem: a prostituta que desfila livremente pela cozinha, as compras dos alimentos mais requintados no mercadinho local, o linguajar chulo do dono do restaurante e as tomadas que ilustram as portas do local fechado à noite são indicativos. No entanto, claramente tudo é retratado como uma melhoria de vida gritante para o personagem, o que não deixa de ser realidade segundo às circunstâncias. É ali também que temos contato com uma deliciosa salada de sotaques, personalidades e o aprendizado de vivência do protagonista.

Já a segunda é mais soturna e misteriosa. Ocorre em uma prisão onde Raimundo Nonato, aterrorizado, tem mesmo que mudar de nome (passa a se auto denominar Nonato Canivete) para conseguir respeito inicial dos presos. E o rapaz logo começa a mostrar seus dotes culinários se aproximando dos líderes poderosos de lá, mas mantendo o bom humor e algumas das características que o fez tão querido por todos, especialmente a humildade.

O impacto do cruzamento entre as duas estórias sem dúvida muda algumas visões sobre o acontecido e proporciona uma (re) análise de vários aspectos discutidos.

Ganhador da Mostra Internacional do Rio e inspirado no livro “Pólvora, Gorgonzola & Alecrim”, Estômago é um filme repleto de ótimas atuações, humor não apelativo e conclusão sombria que merece atenção de quem se diverte com cinema e um bom entretenimento.

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~ por mrscofield em 06/05/2010.

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