Nosferatu (Murnau, 1922)

8,4/10

Uma das maiores dádivas do homem consiste na capacidade criativa infinita e na consciência de tal característica. Este, talvez, seja o maior motivo pela qual consideramos o cinema como inesgotável, repleto de variáveis que se modificam de acordo com o perfil e a experiência de quem o constrói.  É por isso que, mesmo os recursos tecnológicos limitados de determinada faixa de tempo proporcionam possibilidades de manipulação infinitas. Nelas, se destacam gênios que mesmo utilizando de escassos elementos elevam às alturas o potencial que lhes fazem diferenciados.

Em Nosferatu, uma adaptação espetacular da novela de Bram Stoker (Drácula) por Murnau, todas estas idéias ganham substância, surpreendendo o espectador atual com sua peculiar riqueza cinematográfica, poucas vezes reproduzida na história.

Nosferatu é um filme de horror em essência. E como em todo filme desta vertente, a expressividade se torna fundamental para nutrir a assimilação dos objetivos da trama. Partindo de tal problemática, em um filme mudo e preto e branco, se torna ainda mais sensacional a atmosfera apavorante e mórbida desenvolvida pelo alemão. O tom teatralizado desempenha, pois, o papel da dolorosa cruzada do herói e da impetuosidade de seus inimigos.

Através de inquietantes jogos de sombras refletindo o poderoso e assustador Conde que dissemina a terrível praga, a figura se mostra grandiosa, imponente e influente em todos os âmbitos, como se fosse responsável por todos os rumos da humanidade (dentro do universo do filme) diante da pequenez da cidade de Bremen.

E há o compromisso de fazer concreto o não dito, uma vez que o recurso das palavras não é utilizado ou somente disposto em pequenos textos. Mas frases escritas não têm vida e, portanto, sozinhas não dialogam com o espectador. E então há o triunfo criativo. As cenas falando por si. As figuras estranhas, complexas e nitidamente comprometidas com o eixo malévolo da estória se mostram abomináveis, cultuadoras da estranheza, do medo e do horror. Por outro lado, a pureza dos protagonistas se exprime em suas expressões alegres, nos trajes e na apresentação dos sentimentos. As imagens são o veículo de determinação do caráter do indivíduo, é como se você fitasse visualmente o coração de cada um dos personagens.

Mas Murnau não se conforma em apenas apresentar o caráter negativo consolidado pelos eixos: ele procura consubstanciar as bases do pensamento das vertentes, e, portanto, Nosferatu é um filme ainda mais perturbador. Com demonstrações científicas do “vampirismo” na natureza, sugere-se que, em determinado ponto de vista, que esta anomalia seria na verdade, simplesmente natural, forma de controle imposta por forças externas ao domínio do homem.

Com este pensamento, podemos concluir de forma aterradora que o Conde não apresenta caráter, ele apenas sobrevive à sua maneira e todos os seus métodos visam sua permanência entre os vivos. Não há, portanto, intenção de formar um exército de vampiros sugadores de sangue, mas a conseqüência inevitável de perpetuação de uma praga que mata os que estão à sua volta independentemente de sua vontade real. Vale dizer que o vampiro mata para sobreviver, mas a maior parte das mortes decorre de sua presença, como se ele fosse um dos portadores da destruição do mundo, simplesmente por existir.

Nosferatu é tétrico, complexo tanto em sua estrutura quanto em sua execução e belíssimo na arte de reprodução da ideia. Melhor filme de vampiros de todos os tempos.

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~ por mrscofield em 04/07/2010.

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