Inception (A Origem, Christopher Nolan, 2010)

8.2/10

Não há dúvida de que a construção dos sustentáculos de uma edificação deslumbrante é fundamental, uma vez que a importância do processo inicial para a consolidação do todo tem um valor cujas consequências para o projeto arquitetônico final, embora não visíveis pelo potencial comprador, estão emborcadas na eficiência da equipe, na segurança e em última instância, na vida do habitante da locação.

A fim de traçarmos um paralelo entre a construção física do sólido edifício e a concepção abstrata envolvida na arte, necessitamos, contudo, reconhecer que a suposta “vida do habitante” se vincula a um procedimento caracterizado pela interação implícita entre a formação da ideia da qual se pretende tratar e a recepção de suas diversas significâncias pelo público. Justamente pelos inúmeros canais de transmissão e suas relações significativas envolvidas na produção de um filme ou escultura, ou pintura (e outras formas autênticas de comunicação) é que se percebe a “vida” nesse sentido emocional. Uma obra cinematográfica que não possui esse diálogo expressivo notável, infelizmente não obterá sucesso em vida, mesmo provida de uma cápsula atraente e estará fadada ao fracasso, independentemente de sua promoção ou dos dólares gastos. Constituímos, portanto, um conceito de uma morte dolorosa e desesperadora, por envolver um intenso trabalho de um grupo elevado de profissionais.

Portanto, toda a fase de formação de uma personalidade sólida e de caráter envolve a origem do processo, desde o surgimento da ideia até a implantação da viabilidade de sua transmissão aos olhos de quem a contempla (cultivá-la na mente do espectador). A perda de sua identidade ou a incerteza de suas delimitações por vezes ocorre e é desejosa por garantir a diversidade genética do DNA nela intrínseca (e, portanto, gerar distintas plataformas interpretativas). Ora, pois não é isso que garante a beleza do nascimento? A parcial ausência de controle sobre o que se pretende gerar? A existência de uma vida própria do ser concebido? Mas a persistência em algum locus específico dos valores nele implantados (por exemplo, pelo amor e experiência dos pais/diretores?).

Inception integra duas estruturas de interação incrivelmente complexa (mas claramente correlacionadas), tentando conferir sentido ao controle de um território de origem irracional (de intensidade emocional magnânima) pelo domínio do racional.

A equipe do protagonista é especializada no roubo de ideias a partir de sonhos (nossa atmosfera comum mais bizarra – outro terreno explorável nesse sentido é a loucura, mas esta não é comum a todos). Para tanto, é necessário acessar em um nível profundo de formação individual as mais arraigadas origens conceituais – simbolizadas no filme por cofres de penetração terrivelmente difícil. O curioso é que essa penetração é realizada na invasão da mais importante fonte propagadora destes mesmos conceitos em seu local mais intrínseco acessível (para os parâmetros e tecnologia expressas no filme): através dos próprios sonhos.

Diante de uma problemática já grave, a interferência dos demônios internos dos membros da equipe funciona como elemento adicional, bem como a subversão da racionalidade na percepção espaço-temporal, criando um universo próprio e peculiar ao criador.

Uma série de eventos circunstanciais, no entanto, faz com que nossos heróis (ou anti-heróis) necessitem cumprir uma nova tarefa proposta por um personagem misterioso; o oposto do rotineiro: a implantação de uma ideia. As dificuldades imensas se tornam praticamente intransponíveis em tal perspectiva. Implantar uma ideia exige uma reestruturação do nível fundamental a fim de permitir que ela se forme por si mesma. Explicamos: ao pensar em qualquer sentença imaginada por outra pessoa, há uma série de fundamentos ocultos que a originaram. Eles contêm experiências pessoais, conceituação do certo e errado, preceitos sociais, convivência com outras pessoas, enfim, um misto de variáveis extraordinário e que constituem matéria prima de um vínculo que por fim gera a tal ideia. É claro que diferentes experiências podem levar a uma mesma conclusão sobre um determinado assunto (e aí está a beleza de tudo) mas nunca sobre todas as coisas.

Um plot extraordinário deste, ao meu ver, possui um grau de periculosidade incrível. Você pode criar uma obra o mais fiel possível à realidade (e seria necessário um trabalho dantesco para torná-lo inteligível ao espectador, mas para mim seria o aproveitamente perfeito de sua constituição) ou desenvolver a superposição do irracional (sonho) com o racional (a realidade tal qual percebemos) limitando suficientemente as variáveis (como em um experimento) para tornar tudo compreensível e plausível.

Infelizmente, Nolan opta pela segunda ideia, apesar de trabalhá-la incrivelmente bem. Cria diversos níveis de inconsciência no sono, perpetua condições de tempo e espaço relativos a eles de forma incrivelmente bem feita, mas falha em reproduzir tudo em uma safety zone pouco arriscada. Inception é excessivamente explicativo, tem personagens rasos (exceto Mal e o personagem central vivido por Di Caprio) e decepciona um pouco por raspar em temáticas pertencentes ao subconsciente, mas limtá-las demais aos interesses do filme. Soa excessivamente polido para talvez atingir um público comercialmente mais satisfatório. Naturalmente o filme não é fácil, mesmo assim, mas não explora completamente sua potencialidade.

Não há dúvidas, entretanto, que há cenas excepcionais, como o nível em que a gravidade perde sua noção comum e o trabalho de alguns atores é notório (especialmente Joseph Gordon-Levitt), mas ficou faltando ser a obra prima que insinuou…Fico ainda com Memento e The Prestige.

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~ por mrscofield em 12/09/2010.

Uma resposta to “Inception (A Origem, Christopher Nolan, 2010)”

  1. Filmaço! Comecei a sonhar muito desde que assisti. Ou, pelo menos, comecei a lembrar do que sonho. E um amigo aqui do trabalho está vivendo a mesma experiência.

    Sou fã do Di Caprio, do Nolan e de filmes que misturam ficção e realidade. Filmes que nos deixam uma dúvida no final, que são lembrados por dias e dias.

    Cenas belas, complicadas, intensas…

    Muito bom!

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