Triangle (Triângulo do Medo, 2009, Christopher Smith)


9,2/10


Este comentário contém spoilers:

A imposição de regras de convivência social através de leis estimula igualmente a reação à infração dos mesmos princípios. Se não se pune quem contraria a ordem não se inibe comportamentos indesejados. A criação dessas normas, entretanto, remete a tempos muito anteriores, bem antes da instituição da escrita ou do estudo que originou as bases do direito moderno, elas se tornaram uma forma de comunicação entre os indivíduos.

Não é necessária, é bem conhecido, a manifestação verbal para expressar-se. Os seres humanos são dotados de uma perspicácia e inteligência fora do comum. Algo que subverte vários elementos naturais, inclusive. Altera paisagens, constrói casas, carros, manipula a matéria para criar algo totalmente distinto e mais aproveitável a seus desejos e até mesmo cria necessidades.

A evolução dos tempos gera necessidades e anseios diferentes. E, naturalmente, sofisticam-se também as regras sociais e consequentemente as punições para os que as ignora. A privação da liberdade, expoente máximo de felicidade de qualquer ser humano, delinea-se como forma suprema de coerção. Como tratamos de um tema complexo, ressaltaremos aqui que tal ideia gera um sem-número de subdivisões de graus progressivos e indesejáveis expressos na história desde as justificativas teóricas maquiavélicas para o poderio extremo dos reis até o senso restritivo de liberdade comercial veiculado por Locke. As prisões se ampliam sobremaneira que se ramificam em comportamentais, físicas ou psicológicas, dentre outras. Delas decorrem os grandes presídios, os fundamentos da concentração de renda, a aversão à escatologia ou a condenação de atos vinculados à sexualidade e mesmo ao preconceito de toda a espécie.

O estar preso assume caráter religioso, social, simbólico e político. No entanto, não existe prisão mais cruel e intransponível do que uma que se estende a qualquer indivíduo sem distinção qualquer. Aquela que, com todos os esforços e tecnologia existentes hoje e por milhares de anos seguintes persiste democrática e inviolável. Naturalmente falamos da maior das prisões: o tempo.

Quarta dimensão teórica no estudo da física, o tempo nos fascina tanto quanto nos limita. É a prisão última do ser humano. Ela atormenta brancos e negros, gregos e romanos, índios e escravos, ricos e pobres. Corrompe mesmo o mais puro dos argumentos da cruel morte: “quando morto permaneço vivo na mente dos amados”. O tempo não se encaixa. Ele destrói tudo sem jamais se saciar.

Tão difícil quanto pensar na corrupção dos fenômenos temporais (qualquer distorção causa destruição da lógica a qual estamos submetidos, o que torna a compreensão extremamente complicada) é sucumbir à sua superioridade. E o homem, permanentemente em busca de respostas para o que não compreende, busca na poderosa máquina cerebral, o conhecimento para ultrapassar seus próprios limites e superar sua própria racionalidade…tratamos de paradoxos.

Submeter um paradoxo à linguagem racional é quebrar paradigmas, criar uma lógica própria que destrói o senso comum, abordando a temática de uma forma atípica e surpreendente. O fundamento absurdo é submetido a uma sequência de análises (estas todas racionalmente constituídas) que resultam em uma alternativa impensada anteriormente.

Este aterrorizante método é a temática central do excepcional Triangle, de Christopher Smith. Utilizando de uma matéria bruta própria, concebe uma estória onde três elementos de gravíssimas consequências com relação à liberdade, se unificam constituindo um dos filmes mais inteligentes e intrigantes dos últimos anos: a morte (a privação do corpo físico), a mente progressivamente racional (a privação da mente emocional e de seus poderosos métodos de auto-defesa)  e o tempo (a privação da existência).

A simplicidade aparente das primeiras cenas (o início do filme talvez seja um dos mais enigmáticos e belos de todos os tempos) e dos subsequentes acontecimentos escondem uma realidade incrível, contida em um sofrimento infindável.

Jess é a mãe de um filho autista. Cansada das atividades rotineiras é convidada para fazer um passeio com amigos em um barco de nome Triangle. No entanto, devido ao mau tempo, os passageiros rapidamente se vêem envolvidos em uma batalha pela vida. Tudo parece estar salvo quando um enorme navio se aproxima. No entanto, uma série de eventos bizarros se inicia, criando uma espiral de loops temporais na qual o tempo deixa a linearidade e parece dobrar sobre si mesmo.

As referências a The Shining estão presentes em diversos enfoques: na constituição da loucura da protagonista,  nos longos corredores do navio (idênticos aos do hotel), na construção da porção da personalidade má de Jess (que, em certo ponto, parece autônoma, mas diluída nos diversos loops), nos escritos do espelho, na atmosfera soturna e principalmente, na inevitabilidade dos acontecimentos.

Triangle é extremamente minucioso, pensado em cada frame, objeto, cenário e passos dos personagens e, ao mesmo tempo, é um filme de horror legítimo, surreal (os elementos dialogam com o espectador o tempo todo dotados de inúmeras referências cruzadas), permanecendo sob uma superfície ríspida e simbólica mas inigualavelmente perturbadora. Bem vindo ao melhor filme de 2009/2010 e ao inferno/purgatório concebido por Smith.

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~ por mrscofield em 20/09/2010.

5 Respostas to “Triangle (Triângulo do Medo, 2009, Christopher Smith)”

  1. Em primeiro lugar, parabéns pelo blog, extremamente bem escrito e muito autoral!
    Vim aqui apenas para retribuir uma visita ao meu, e desde já te digo que fiquei fã. Inclusive, já esotu colocando ele nos favoritos do meu.
    Quanto a este filme, vejo que dentro do enfoque profundo e psicológico que tu gosta de abordar, ele traz bastante elementos que subjetivam a sua avaliação e te forneceram um prato cheio. Já eu, achei nele um filme menor, com roteiro inverossímel, péssimo ritmo, atuações comprometedoras e um dos “finais surpreendentes” mais óbvios dos últimos tempos. Um bom filme, mas bem aquém do potencial que a premissa proporcionava.
    Porém, após te ler, fiquei com vontade de rever ele, o que é mérito teu. Parabéns pelo blog, fica firmada aqui a parceria!
    Grande abraço;

  2. Brigadão, Aparício. Autoral e interessantíssimo é o imdbnerdproject (da qual também virei fã). Quem nunca teve vontade de assistir a todos os filmes do top do imdb? : )
    Olha, eu concordo quanto ao ritmo inverossímil, mas não acho que ele objetive ser verossímil, por isso não vejo problema (xi, não sei se deu pra entender, haha). Acho que tive uma visão um pouco diferente de ti quanto ao final, pois não esperava uma grande surpresa, mas uma conclusão que premiasse de forma coerente uma estória que tinha achado tão bizarra. Também vale dizer que sou fã desesperado de filmes de viagens no tempo e tudo o que subverte essa variável. Estou ansiosíssimo para vocês analisarem lá no blog meu filme preferido, Donnie Darko. Confesso, entretanto, que o melhor filme sobre a temática das distorções temporais é, sem dúvida, o complicadíssimo e fascinante Primer. Apareça sempre e obrigado, fiquei orgulhoso de ter sua presença por aqui. : D

  3. É um daqueles filmes em que as pessoas só acabam se atentando às cenas de sangue e passam batido quanto ao (inusitado) formato. Mas merecia ser (re)descoberto.

  4. Não tenha dúvidas, VG. Acho a cena inicial uma OP, quando revelada no final. A edição, que utilizad de cortes precisos para dar uma conotação diferente da cena em relação ao que, de fato, está acontecendo, é qualquer coisa de extraordinário. Atualmente é minha cena preferida do cinema.

  5. Oieee! olha, assisti esse filme hj por tanta insistencia da minha chefe, pq ela assistiu e naum entendeu bulufas, rsrs! mais de tanto pensar e ver comentarios sobre o filme, cheguei numa conclusaum: aquele “dejavu” dela era uma tentativa de cada vez q ela voltar, tentar salvar a vida do filho dela, e olha q ela tentou bastante, da pra ver isso naquela cena do navio lotado de corpos dakela mulher, e tbm por akele monte de pombos mortos! Eh tipo um remorso por ter maltrato tanto o filho dela, acho q eh isso! Soh naum entendi uma parte: ja que ela ta morta, como que o pessoal do barco consegue ver e falar com ela? sera q ali foi uma coisa q ela imaginou? ou sera q td mundo tava morto tbm? aiii que duvida! e akela outra q sumiu na hora q o barco virou? achei desnecessario akela personagem!

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