Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010)

8,0/10

A sociedade se organiza em diversos níveis de compreensão, envolvendo inúmeros valores centrais que permitem-na perpetuar e expandir-se ao longo dos anos, criando sua própria história. A proximidade e a interação de seus componentes ocorre por diversas variáveis em comum (religiosidade, gostos, proximidade espacial, dentre muitos outros) mas as vicissitudes promovem intensas modificações mesmo nas esferas de identificação entre os indivíduos no decorrer de seu desenvolvimento. Por vezes evolui no sentido da morigeração (causa definida pelo próprio anseio social), por vezes pela auto-destruição proporcionada pela adoção de princípios contraditórios quanto ao real comportamento em relação às normas por ela desenvolvidas.

Advêm dessas normas pré-estabelecidas todas as bases da dinâmica funcional. Estudemos dois exemplos: se predominantemente religiosa, o conjunto de regras para o complexo desempenho desejado em geral, é o de seguimento dos princípios do livro base ou dos ensinamentos do mentor, em seus ideais de liberdade, construtividade e amor (frequentemente de comportamento contraditório ao efetivamente implantado).

Se capitalista (e aqui nos atemos mais tempo por ser a mais difundida mundialmente), baseada em valores materiais, de máxima exploração dos desejos por ela impostos e nas características psicológicas básicas instituídas com o objetivo de nutrir a sustentabilidade e apreço pelo sistema. E tudo isto, muito embora os próprios participantes nem percebam muitas vezes este paralelo. Mas então, se não percebem, porque o sustentam sem protesto?

A resposta é simples: porque a sociedade capitalista é moldada pelo domínio de classes sobre outras. É parte de suas próprias leis que um grupamento de indivíduos imponha psicologicamente suas vontades. A melhor arma para tal é perceber que a não criação de oposição significativa passa por pequenas concessões desprezíveis para os reais condutores de suas ideias. Suficientes para que os indivíduos criem graus de satisfação menores em cada esfera imediatamente inferior, queiram contribuir e temam pela instabilidade do sistema.

Há aqui sempre alguém inferior e um anseio “palpável” (ao menos a nível onírico) de crescimento e migração para a classe superior, o que não é difícil, dadas as inúmeras subdivisões. Contraditório e de dinâmica altamente adaptável a mudanças relativas, este parece-nos de todos, o sistema que agrega, no momento, o maior número de elementos da psiquê humana, não eliminando o caráter não desejado de nossa natureza mesquinha e egoísta, mas agregando valores altruístas a sua complexidade.

Poderíamos passar muitas e muitas horas, falando de outras possibilidades: a socialista, a anarquista, a laica, a radicalista, a neoliberalista (inserida dentro da capitalista), etc. Ocorre que elas nem sempre são isoladas, se interpenetrando e se complementando, mas mantendo como fundamentos harmonias distintas, de predomínio de uma ideia sobre a outra. Optamos por contextualizar a religiosa e capitalista por considerarmos como imperiosas suas representatividades no Brasil, país palco do filme de José Padilha.

Nesta percepção não podemos deixar de compreender que tendemos a partir sempre de um referencial que abrange o todo, jamais compartimentalizado, apesar de reconhecermos a importância do nível micro. Assim, são pequenos acontecimentos a morte de 25 indivíduos que defendem uma causa contrária, pois não são representativos em um espaço real de 185.000.000 de pessoas, se a causa tem perspectiva nacional. Esta aparente crueldade se explica por dois motivos: a dimensão explicativa a qual normalmente queremos atingir (seria demasiado difícil analisar sobre qualquer prisma tais eventos isoladamente) e a mudança significativa que de fato proporcionam (a morte dos 25 em uma favela em Belo Horizonte não muda em nada a percepção do espaço, ele continua violento e definido como tal). A análise, portanto, é curta (é fácil definir as favelas como perigosas ou violentas). No entanto, há de se dizer, para quem vive neste microcosmo, a impressão deixa de ser um fato isolado…e passa a representar o mundo inteiro.

E o conjunto desses microambientes influencia finalmente no sistema, pois acarreta uma enorme gama de situações que também se interpenetram (!), mas de dificílimo combate, mesmo que autodestrutivas no geral, justamente por serem incrivelmente articuladas isoladamente e, principalmente, numerosas demais.

Tropa de Elite 2, como o primeiro, concentra sua ação no Rio de Janeiro (e é natural que adquira facilmente dimensões globais), onde o anti-herói Nascimento, agora em um cargo mais elevado, se depara com sua própria ingenuidade em subestimar a sustentabilidade do que ele mesmo tentara combater. O paradigma criado (contra a qual acreditava ter desenvolvido uma poderosa máquina de batalha) se desfazia diante de seus olhos, enquanto a agregação de elementos desconhecidos por ele à princípio, brotavam em chamas como de vital importância na concepção e proliferação do dito sistema e permaneciam até então intocados.

Acompanhar sua coragem de combater o que vier, seu ponto de vista distorcido (nem sempre apreciável) e de aprendizado, sua degradação psicológica, superação e opiniões (importantíssimo falar da narração de Nascimento e do que isso implica nos posicionamentos e exposições selecionadas no filme) exige disposição para participar de uma jornada desgastante, cruel e esperançosa ao mesmo tempo. Tudo sob um olhar de um homem duro e objetivo mas humano, cuja personalidade se desenvolveu no caos.

As ótimas atuações de Wagner Moura, André Ramiro e Sandro Rocha, proporcionam uma experiência imersiva e estonteante, de deixar você com o estômago “embrulhado” e tenso. Devo dizer que incomodam bastante as propagandas inadequadas e completamente desnecessárias (afinal, o filme é da Globo) e o início do filme que mais parece um videoclipe da música tema. De resto, um filme pesado, violento e psicologicamente riquíssimo. Direção muito competente de Padilha, ainda que bem inferior à obra prima Cidade de Deus, de Meirelles (um tratado de violência que se fecha em si – filme que melhor explora a temática).

A melhor das conclusões do filme é propor um olhar mais aberto (atingindo não só a “ponta” do iceberg – a efetiva violência – mas as classes políticas, a corrupção das autoridades policiais e a contemplação do dinheiro e seus prazeres), contando com um perfil crítico apurado, a fim de estabelecer ao menos uma ideia do que seria uma possível equação, ainda frágil em sua constituição e de solução desconhecida, mas mais abrangente do que habitualmente tendemos a observar. Mas decai no risco de nos deixar completamente desesperançosos e impotentes diante dos excessos. A crítica é ácida (talvez demais) e chocante. Mas deixa evidente: a tecnologia já nos fornece óculos com lentes mais potentes. Mas será que queremos mesmo enxergar através delas?

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~ por mrscofield em 10/10/2010.

9 Respostas to “Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010)”

  1. Pretendo ver essa semana! Todo mundo está elogiando, vamos ver se é tão bom quanto o primeiro. O pessoal que usa drogas torceu o nariz para o Tropa 1, está menos incomodado com esse. Como eu culpo os usuários por 50% da violência, então achei o primeiro muito lógico.

  2. Pois é, Rodrigo. Ainda acho o primeiro superior, mas esse tem um estudo psicológico bem mais intenso. O filme evoluiu, não ficou no rastro do primeiro, não há chavões nem excessos. Vale a pena assistir. : )

  3. Vi nesse fim de semana. Estou sonhando com o filme há duas noites. Talvez seja meu filme nacional favorito em todos os tempos.

  4. Alguém no grupo reclamou do excesso de sotaque carioca? hahaha… Lembro que um bairrista qualquer escreveu isso no grupo em relação à dublagem de “UP”. Como se toda dublagem tivesse que ser paulista, sotaque que soa muito mal para todo N – NE do Brasil, além de RJ e ES pelo menos.

  5. Excesso de sotaque carioca? Putz. A ação se passa no Rio de Janeiro…o sotaque deveria ser de gentlemen ingleses?
    O filme é muito bom mesmo, muito embora tenha lido muitas críticas que confundem a opinião do Nascimento e a narração dele com a opinião do Padilha. Aí é foda, né? Nascimento é bastante instável e tem uma visão por vezes extremamente pessimista, outras esperançosa.
    Quanto ao filme nacional preferido, LavourArcaica é imbatível, Rodrigão, hahah.

  6. Não tive inteligência suficiente para gostar de Lavoura Arcaica. Achei chato ! Nasci com o DNA estragado. Ou talvez tenha emburrecido irremediavelmente depois de tanta TV nos anos 80.

  7. LavourArcaica para mim é uma obra prima desesperadora porque é um estudo profundo de personagens, tradições, psicologia e raízes e o melhor é que está intrincado na cultura brasileira. O filme é bastante complexo mesmo, mas não consigo ver algo que não se limita à nossa racionalidade não ser assim se for mais longe.
    E não tem nada a ver com DNA estragado, Rodrigão, hahah.É questão de gosto mesmo. E acho que nem isso, pode ser que uma pessoa gosta de filmes assim e deste em específico não gostou. Enfim, não há padrões para gostar de obras, graças a Deus!!! : )

  8. Vou rever só por sua causa.

  9. E o povo do cinema Fantástico? As pessoas gostaram do Tropa 2?

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