[REC] (Jaume Balagueró, 2007)

7,2/10

Qual a condição real do homem? No decorrer dos séculos, várias possibilidades ascendem gerando uma discussão calorosa ao qual contrapõe a fé nas crenças religiosas e a fé na racionalidade científica. Não há dúvida que as duas problemáticas, embora, de certa forma, se disponham a responder perguntas em comum como a enunciada no início deste parágrafo, também pertencem a esferas diferentes da percepção humana.

A racionalidade e a emoção são igualmente atributos especiais na espécie e compõem nosso ser de modo complementar, criando uma grande complexidade peculiar. Assim, não podem ser em teoria, imediatamente excludentes. Ao menos, quando não concebem respostas diferentes para a mesma questão.  Mas quando isto ocorre, o conflito se torna inevitável e atinge proporções absurdas, gerando expositores por vezes radicais de suas ideologias.

Se torna razoável o questionamento: os princípios de convivência social hoje adotados e na maioria das vezes, aceitos largamente em seus ambientes específicos (portanto, variando de espaço para espaço em análise), recebem influência dos conceitos religiosos perpetuados no nicho estudado, mesmo que de forma indireta?  E ainda: os avanços científicos desenvolvidos, que nos proporcionam uma vida a cada dia mais longa e de menor sofrimento seriam imagináveis sem os métodos e análises científicas?

Não é objeto deste texto estudar, compreender ou desenvolver uma ou outra postura. Mas, considerando a perspectiva religiosa, podemos analisar o universo fictício de REC de modo bastante inusitado e reflexivo, tendo em vista a ideia de compor uma percepção crítica e imaginativa da obra (literalmente brincarmos com as multisignificâncias de uma estória).

Neste ínterim, propomos algumas idéias que nos parecem razoáveis de acordo com o comentário (e que não visam ser a única interpretação da realidade): seríamos seres constantemente vigiados por Deus, que nos dita seus ensinamentos a fim de sermos contemplados com a felicidade plena e nos sintamos estimulados, naturalmente, em conseqüência, a contribuir para que outras pessoas sejam tão felizes quanto nós (a perpetuação do amor)? E simultaneamente, estaríamos sob a supervisão de um demônio latente, que cuidadosamente aguarda à espreita, pronto para nos atacar na medida em que nos distanciamos mais do primeiro? Ou seríamos simples indivíduos à mercê do caos imposto por duas entidades sobrenaturais que nos impõem suas características “preferidas” de acordo com nossas alternâncias psicológicas?

REC é um filme de horror, e como toda obra temática do gênero, propõe uma atmosfera de medo e autodestruição, corrompendo conceitos e construindo uma realidade abominável e limitante aos protagonistas. O envolvimento com o espectador desenvolve um sentimento de impotência e tensão crescente a ponto de cortar a respiração. No filme, a resposta para essas perguntas é única e assustadora: somos nós mesmos, dependendo do ponto de vista, a unificação das três perguntas apresentadas no parágrafo anterior.

Quando nos deparamos com a intensidade da cena onde avistamos as sombras tênues dos humanos por trás do isolamento do prédio onde todos os eventos importantes do filme ocorrem, a visão das roupas brancas dos trajes protetores nos remete a uma espécie incoerente de “Deus maligno”, aquele com poder de salvar, resgatar as almas, criaturas, mas que não se importa, não faz nada diante do abismo ao qual vivenciam aquelas pessoas em seu microcosmo, porque está externo ao ambiente.

E parece que, em determinado momento, os isolara conforme um deus antigo e temido, como se elas fossem o resultado de algo que deu terrivelmente errado, servindo de janela para os não afetados pelos erros e pecados. O prédio contém a soberania do caos, a ditadura do horror, o resultado dos erros cometidos dos outros. “Dê graças a Deus por você estar fora do prédio…eles morrerão para que “aquilo” não venha até você.”

Por outro lado, a face demoníaca do caos ataca livremente, em um mundo sem regras, onde pode demonstrar sua fúria sem restrições, sem obstáculos. Um vírus, uma ameaça biológica ou uma possessão direta e terrível. E toma tudo, um por um, destrói tudo que vive nesse inferno (que em determinado momento do filme parece o único universo existente, pela importância) a seu belprazer.

Mas seriam essas pessoas vítimas? Criaturas escolhidas para experimentar a ira de seres infinitamente mais poderosos servindo de espelho para outros seres em decadência fora de tal universo?

Na verdade, os humanos possuem todos estes atributos. São intrinsecamente vítimas, deuses e demônios, ao mesmo tempo. Balagueró e Plaza convidam você para participar desse banquete do caos, da materialização do inferno na Terra.

O cenário: Uma reportagem feita por uma tv local que objetiva fazer um documentário sobre o corpo de bombeiros, relatando suas atividades noturnas. Ao investigar um chamado ocorrido em um prédio sobre um acontecimento relacionado aos gritos de uma senhora em um dos apartamentos, eles jamais imaginariam que o mundo se restringiria a tal prédio, que os seres viventes se transformariam nessa partição do universo físico e que o terror assolaria e provocaria uma destruição tão grande.

Filmado em primeira pessoa (com um dos personagens portando uma câmera), [Rec] lembra bastante os recentes Cloverfield e Witch Blair Project, filmes cuja origem parecem advir do sucesso de um filme de 1980 (que possivelmente se inspirou em outro e assim por diante) chamado Cannibal Holocaust…mas isso é outra história.

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~ por mrscofield em 17/10/2010.

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