Black Swan (Cisne Negro, Darren Aronofsky, 2010)

7.9/10

Não somos perfeitos. Desde o nascimento agregamos experiências. O mundo nos “contamina” com seus conceitos e forma personalidades moldadas de acordo com o que considera apreciável em um ser humano. E entenda-se por mundo, o universo de contato das esferas individuais. Proliferadas através de armas poderosas e as faces reconfortantes dos pais a princípio, amigos e colegas de escola (posteriormente), as regras se impõem sobre a formação, solapam possibilidades e agridem impiedosamente seus transgressores, que sofrem pelas escolhas não convencionais em todo seu âmbito de convívio. Se o mundo não é perfeito, não somos perfeitos.

Não estamos sozinhos. E com isso, vivemos sempre em comunidade e submetidos ao interesse da maioria. Esta forma pessimista de avaliar a vida desconstrói pilares como bondade, perseverança e mesmo felicidade, uma vez que os torna referenciais e dependente de regras. O mundo parece, em conceitos fundamentais, adotar uma dicotomia maniqueísta. Uma forma de tornar as escolhas complexas fáceis de serem absorvidas por qualquer um sem interesse ou senso crítico para questioná-las. Deixemos para os grandes pensadores estudarem e darem respostas ou mesmo ignorá-las se for mais fácil. Ou, somente quando mais adultos e utilizadores do conhecimento adquirido e maturado, quando tanto, viemos a enfrentar a fortíssima sociedade com conceitos próprios. E há consequências.

A questão referencial se torna fundamental para confrontar ideias. Não podemos analisar os animais sagrados nas culturas orientais com a ótica ocidental. Jamais entenderíamos as bases que fundam os alicerces da crença ou os efeitos em cadeia proporcionados por tantos conceitos integrados em conjunto que levam à uma conclusão aparentemente simples de ser analisada.

Acredito, pois, que analisar psicologicamente alguém carece de uma diretriz específica e simplificadora pela quantidade de eventos conectados. Mas considero que, sob qualquer ótica, a perfeição humana não existe. Até pelo conceito que ela mesma constrói. E aspectos positivos como os anteriormente citados (bondade, altruísmo, etc) podem apenas prevalecer diante de outros que permanecem ocultos.

Conceitualmente considero interessantíssimo em um espetáculo a existência de uma canalização do mal para uma figura (assim como do bem). Claramente utópicos, estes seres não podem ser reproduzidos humanamente, eles são igualmente concebidos e “linkados”, dependentes e sujeitos a regras que os delimitam.

Assim, em Black Swan, a protagonista Nina jamais foi inocente ou ingênua. Pura ou incorrompível. Quando parece haver uma tendência natural a interpretação de sua porção alva, belíssima e grandiosa, esconde-se (e  não cria-se) um lado sombrio temível e incrivelmente acorrentado.  O balé passa a representar artisticamente o conflito de uma mulher prestes a aflorar em plenitude, tanto no sentido comportamental quanto sexual. No entanto, o tempo é altamente destrutivo. Quanto mais tempo se permanece sob o domínio da prisão interior, maior o efeito devastador de seu rompimento.

Aronofsky cria uma intensa problematização de um cenário reprodutor de uma psicologia confusa e perturbada. Os jogos de espelhos, a dualidade de cores (preto x branco), o “habitat” altamente competitivo – e aqui vale dizer que o triunfo de um bailarino em um ambiente hostil em que não há vagas para todos, ocorre sob o acompanhamento cruel da seleção, portanto, e não há espaço para altruísmos – e a transformação final da personagem e seu alter ego que se apossa de suas características mais mesquinhas e egoístas, potencializando-as e as materializando em Lily são retratos concretos da fragmentação da personalidade, da voracidade do processo degradante e da concretização da loucura, por fim.

Abusando de intensidade e da gradação em um timing espetacular, Aronofsky não cai na armadilha da dicotomia criando uma personagem tridimensional e constrói um espaço amplo que não se limita a uma reprodução artística de um espetáculo de balé, mas de todos os seus entrelaces incluindo a construção da sensibilidade (ele nos ENSINA a sentir o que a cena deve transmitir) e sua vinculação com cada um dos movimentos da bailarina, o que nos integra ao drama da atriz de forma soberba.

Natalie Portman está fantástica, mas um pouco teatral demais nas cenas em que não interpreta, o que, de certa forma, prejudica um pouco a interação, mas o filme detém planos belíssimos e construções próximas da perfeição. Talvez o excesso de zelo e cuidado seja o motivo de uma impressão de que o filme é certo, correto demais. Não há grandes deturpações, nosso coração não pulsa tanto quando Portman não está dançando. Não há de fato uma grande preocupação, ao menos de minha parte, com o que efetivamente acontecerá com a protagonista, mas com como ela interpretará o Cisne Negro na apresentação final. Muito embora haja uma correlação imediata entre as duas coisas, considero que quando um filme é focado em imagens tão próximas e uma dilaceração tão complexa em uma personagem e você se importa predominantemente com outra coisa, o sucesso não é pleno, apesar do esforço inegável de entregar aos cinemas algo memorável. Trata-se de um grande filme sim, mas não excepcional.

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~ por mrscofield em 20/02/2011.

Uma resposta to “Black Swan (Cisne Negro, Darren Aronofsky, 2010)”

  1. Ñ achei a obra primra q alguns acharam, mas muito bom esse filme q cresce do meio pro fim..nota 8.0!
    Abs! Diego!

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