127 Hours (127 Horas, Danny Boyle, 2010)

6.7/10

Existe uma vertente atual que emprega a necessidade de estarmos sempre em companhia de alguém para que possamos ser plenamente felizes. Presente em diversos campos de abrangência, constitui livros, belas lições de filmes, estudos filosóficos, músicas, artes em geral, enfim, diversas ideias incorporadas aos incontáveis tipos de fluxos informacionais. Entende-se aqui por fluxo toda espécie de comunicação a qual a interrupção não se limita a padrões temporais comuns, mas a desvinculação emocional, que por vezes ultrapassa muito o contato concreto com a ideia (e algumas vezes sequer ocorre).

Seja em uma conversa esporádica entre amigos (normalmente reprodutora de situações anteriores dispostas em um filtro psicológico personalizado), seja na composição de um programa novo de computador sofisticado e técnico, as relações interpessoais (ou virtuais – no caso do computador/humano fala-se em interface “amigável”) são extremamente valiosas e estimulantes. Sem dúvida um importante fator na busca incessante da felicidade.

Naturalmente existe uma face cinérea, por outro lado. A associação entre o respeito, a busca do ideal comum e  o estabelecimento de vínculos fortes gera uma intensa conexão entre indivíduos, o que é benéfico, mas com possibilidades de distorções perigosas quando mal empregadas (quanto mais poderoso um conceito, mais danosa sua deturpação). Falamos, é claro, de manipulação. Constantemente entramos em contato com campanhas de marketing irritantes (o banco x é seu companheiro, está sempre com você) que exploram um belo conceito e decaem em uma tentativa de estabelecer um paralelo duvidoso tornando mais próximo o capital e o explorado por ele. Uma relação falsa, injusta e predatória.

Por isso a ideia de 127 Horas parece tão sedutora ao meu ver. Mais do que vários de seus predecessores (e esta estória e suas variantes são bastante batidas). Em sua premissa não há um homem desesperado para voltar a ter contato com uma família para a qual nunca ligou. Nem revoltado fazendo uma viagem inconsequente. Nem perdido por adentrar um caminho incorreto na trilha errada por não ter estudado direito o roteiro. O protagonista só quer tirar um tempo para si, se aventurar um pouco e promover um mergulho na natureza, captando lindas imagens, aventurando-se em acasos agradáveis e inofensivos e talvez refletindo sobre si mesmo. Enfim, estando feliz durante alguns dias sozinho. Sim, é possível estar feliz, ser feliz estando bem com os amigos, familiares e outros, mas também reservando um minuto para si mesmo.

Esta pequena parte da qual se esquecem frequentemente os anúncios de jornais mas convenientemente recebe ênfase especial quando interessa às ambições capitalistas é particularmente importantíssima aqui (uma mansão é cara por ser um bem escasso. Se fosse comum muitas pessoas abastadas financeiramente buscariam outras formas de exibir seu sucesso ou individualidade). Na verdade, esta porção é tão fundamental que se torna o foco do filme.

O curioso é que Danny Boyle explora um personagem extremamente inteligente e preparado, precavido, feliz, ciente de seus desejos, aspirações e objetivo no planejamento de sua viagem. Não há problemas. Ralston é um cara comum em suas relações. De nível intelectual acima de um cidadão médio e dramas de vida comuns. Explora um cenário perigoso, mas previamente estudado, em plenas condições, preparo, alimentação adequados para enfrentar as situações ambientais.

Só que acontece uma fatalidade. E realmente eu não dou muito crédito às objeções dela só ter se sustentado por que ele não contou para ninguém onde iria, porque a decorrência disto dificilmente teria, ao meu ver, os encadeamentos necessários para um salvamento heroico. Mas não nos prendamos a possibilidades, o filme não é tão reducionista para nos ater a tais detalhes.

E então começa a jornada de auto-superação, de desejo pela vida, do contar dos minutos e segundos em direção a um futuro desconhecido. Mas ele está só. O tempo todo só. E se não houvesse felicidade em viver em sua plenitude (incluindo seu individualismo), ele jamais teria lutado por tanto tempo.

Infelizmente as boas surpresas terminam por aí. Boas ideias não necessariamente resultam em grandes filmes e este é um bom exemplo. E o filme não funciona mesmo diante dos quadros divididos na tela ishpertos contrapondo a solidão de Ralston e sua fuga da urbanidade e as correntezas de pessoas nas ruas (oooooooooh), a suposta perda de sanidade gradativa “engraçadinha” do protagonista – e aqui ressalto a falta incrível de habilidade e criatividade de Boyle a lidar com a parte psicológica abalada do personagem. Parece que ele aposta no ridículo tentando um alívio cômico para uma estória que não precisa disso pela própria natureza de Aron. Bastava um descontrole emocional palpável, sem firulas ou um show Lynchiano, algo francamente menos…besta.

A trilha é interessante em vários momentos, mas irritante em outros. E Franco leva bem o personagem (não acho digno de uma indicação ao Oscar) e confere confiança no que ele parecer ser. O que é muito bom, pois demonstra o sucesso de sua interpretação. Mas não há muito que se dizer de um filme que conceitualmente é bem construído, mas falha em sua execução que é balizada na criação de tensão e suspense para um clímax dramático. Não funcionou. Infelizmente.

Por último recomendo aos amigos que apreciaram o filme de Boyle assistir a Gerry, do Van Sant, de temática parecida mas infinitamente superior e com algumas tomadas que são uma preciosidade.

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~ por mrscofield em 22/02/2011.

6 Respostas to “127 Hours (127 Horas, Danny Boyle, 2010)”

  1. Não tenho coragem de ver esse filme… Deve ser desesperador!

  2. Hahaha, nem é tanto, Rodrigão. Se você vir o filme que falei, Gerry vai passar mal então. O personagem é bem alegre, só no final é que a coisa começa a ficar feia, mas acredite, já vi bem tensos e fortes.

  3. Interessante no filme é a perspectiva individual/coletiva, solidão/multidão. O ser humano é ou não um ser social?
    Aliás, precisamos mesmo trilhar sempre os mesmos e seguros caminhos que nossos pais? Mas é evidente que precisamos ouví-los… Mas qual o limite do que é “seguro” e qual a estrada que devemos seguir sozinhos e conhecermos, cada um a seu modo, seus perigos e superar suas mazelas?

    O filme é interessante porque levanta estas e outras questões.

  4. Eu concordo. Vi algumas críticas justamente em relação a esse aspecto, Movio, que acho ao contrário deles, bastante positivo. Mas acho esse filme até mais complexo, porque o cara vai além. Nem parece haver nada de errado com ele, ele prevê tudo mas acontece uma fatalidade. Este detalhe de não ter avisado a ninguém, ao meu modo de ver, é tão comum, razoável. às vezes queremos ficar sozinhos, sumir, desaparecer do mundo. Acho que foi só a fatalidade da hora e momento errado.

  5. Achei bem interessante esse, prende a atenção do começo fim, precisamente depois q o cara fica com o braço preso, muito bom o trabalho do Boyle. nota 7.5!
    Esse “Gerry” eu vi uns tempos atráz e ñ gostei nenhum pouco..
    Abs! Diego!

  6. Poxa, eu gosto pra caramba de Gerry, Diegão. A cena dos dois caminhando e se degradando com o tempo passando (e a iluminação mudando no decorrer do dia junto com o desgaste físico dos personagens) é qualquer coisa de extraordinário.

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