A Erva do Rato (Júlio Bressane, 2008)

6.2/10

Este texto contém spoilers e uma possível leitura “esquizofrênica” sobre o filme – não arbitra sobre suas qualidades ou defeitos, mas reflete sobre suas ideias

Se perguntássemos ao criador (se hipoteticamente ele existe) do que somos compostos simplificadamente, provavelmente ele bebicaria sua semipreenchida xícara de café, franziria o sobrolho, suavizaria sua expressão com um leve sorriso de canto de lábio e concederia a resposta em um átimo com olhar de desdém: “ossos, sangue e carne”, ele diria.

Sabe-se, entretanto, que estes elementos combinados em uma infindável variação de possibilidades confeririam uma amplitude incrível de “movimentos” complexos. Andar, ver, ouvir ou desenvolver algumas atividades de alta complexidade (como as batidas cardíacas, a respiração ou o fluxo de adrenalina conferido pelos sustos, etc) exigem uma coordenação inacreditável de associações improváveis entre nervos, músculos e transporte de substâncias específicas.

No entanto, o mais importante dos princípios humanos não está na coordenação refinada de tais “movimentos”, mas na concepção, elaboração e concretização dos sentimentos. A consciência nos confere perspectiva no interior do obscuro universo da racionalidade (e até mesmo em um pouco da irracionalidade). O sentir não basta apenas, é necessário compreender e mesmo dominar o que se sente.  Ah, mas tarefa difícil esta…o inimigo é interno. Basta um inevitável piscar de olhos e um mundo totalmente adverso ao real é imediatamente originado. E que mundo é esse que mesmo sendo fictício é capaz de promover tanto dano/dor ou alegria/felicidade?

A Erva do Rato não é um filme fácil (como todo filme que tem como pano de fundo o universo irracional). Logo de início, percebemos que a atmosfera recriada, embora constituída de elementos concretos, não reflete o real como vemos. Estamos diante de uma releitura de eventos que poderiam ser reais, mas talvez não o sejam da forma que percebemos.

Selton Mello representa um protagonista frio, sombrio e de ar doentio. Ao conhecer uma mulher em um cemitério (vivida por Alessandra Negrini), desenvolve uma relação atípica, a convida para morar consigo em circunstâncias estranhas e logo passam a dividir o mesmo espaço. Notadamente, porém, ele jamais desenvolve com a moça uma relação sexualizada, é como se o rapaz se tornasse uma espécie de pai ou curador da garota. Citando textos em voz alta enquanto ela realiza anotações, parecem estabelecer uma excessiva distância, mesmo dividindo a mesma cama e a mesma mesa de café da manhã.

E então, volvemos ao princípio. Já mencionamos a sede do domínio. Agora contemplemos o lado sórdido, a razão do sorriso do criador. Imaginemos, a princípio, uma folha de papel.  Matematicamente podemos dividi-la em inúmeros pontos interiores e chamarmos tal região de região interna. Vamos ainda imaginar cada um desses pontos como o símbolo de um fenômeno natural.  Agora tomemos um círculo desenhando seus limites com um lápis comum de uma região qualquer dentro da folha. Cada vez que alguém domina um elemento dentro do círculo (ou compreende o “segredo” de um fenômeno natural), o ponto correspondente se acende.

Para tornar mais complexo, imagine que cada vez que nos afastamos do centro do círculo mais difícil é acender os outros adjacentes. Tomando a representatividade desse círculo no espaço, é razoável supor que pelo menos 5% das luzes no interior do círculo estão acesas. Os pontos acesos, como é de se esperar, representam todo o conhecimento humano acumulado nos séculos de pesquisa e desenvolvimento. Mas o que nos interessa são os limites do círculo. Tais limites (que provavelmente jamais serão alcançados) são a porção do universo que podemos conseguir decifrar com nossa racionalidade. E isso utilizando cada ponto do cérebro em prol desse interesse.

E o restante da folha externa ao círculo, você me pergunta (a gargalhada do criador).  O restante da folha não é atingível por nossa capacidade. Não é explicável por nossas limitações. Você pode ser o homem mais inteligente do mundo de todos os tempos e de todas as épocas, jamais conseguirá compreender. E torturará-se eternamente nas trevas do desconhecimento.

Esta ruína é a ruína do personagem de Selton Mello, neste ponto de vista. A relação que apresenta o domínio de sua natureza, do jeito que considera correto, sofre uma grande dilaceração com a compra de uma máquina fotográfica. Este elemento de desagregação funciona como um instrumento punitivo e obsessivo do rapaz. Aos poucos, ele consegue convencer a moça a posar cada vez mais despida de seus pudores. Aproveitando-se do tormento sexual da garota, ele se aproveita dos lábios voluptuosos da vítima, da sedução de seu corpo entregue aos desejos de sua mente incorruptível que somente ganham vazão nos closes tortuosos e estáticos da lente da câmera. Ela sim, perscruta, percorre, venera e destila o corpo feminino, sua identidade e segredos íntimos.

O domínio seria completo. Diante da mente cada vez mais corrompida e desesperada da moça, as fotos se tornavam mais sensuais e eróticas, entretanto contidas, imersas em respeito jamais abalado. Ela era o objeto perfeito de devoção. Mas…

O desejo sexual afeta também o masculino. O homem não pode fugir de seus fatores instintivos. A carne dantes de odor agradável e singelo se transforma em podridão submersa em hormônios químicos. A genitália em flor feminina torna-se a pulsação do desejo masculino. A putrefação da moral dá a luz a um animal voraz, que deteriora rapidamente os pensamentos coordenados. Como um rato. Um rato que percorre silenciosamente as vertentes do incorruptível.

Ora, é o rato quem delineia as curvas sutis do corpo da mulher. É o rato que a faz gemer de prazer diante da consumação do sexo. É o rato quem representa a porção incompreensível da natureza. É o rato quem vence. E o criador gargalha de novo. Porque o homem nem consegue encará-lo. Porque ele proveio das entranhas do homem sem nome. O homem é o rato. Desnudo e desprovido de seu pífio domínio. Renegado e restrito aos esgotos repletos de vômitos, fezes e urina.

Não há dúvidas. O rato precisa morrer. E a metáfora de sua morte deve bastar para voltar a enxergar a mulher como o objeto. Desprovido de sensualidade. Que não tenta ou desperta o rato, pois ele está morto. Novamente se volta a ossos. Um esqueleto sem sangue ou músculos, sem vida. Ossos que não incomodam o lado ruim, que resignam o esgoto ao esgoto. A podridão ao abismo. De novo. Para sempre. Ou até a próxima vez.

Anúncios

~ por mrscofield em 09/03/2011.

2 Respostas to “A Erva do Rato (Júlio Bressane, 2008)”

  1. Fala Silvio! Q massa o blog, tô dando uma olhada em várias coisas..hehe..
    Vou baixar esse pra dá uma olhada, depois q assistir volto aqui pra ler seu texto!
    Abs! Diego!

  2. Que legal ver tu por aqui, Diegão!!! Este não é muito bom, é esquisitão, mas vale a pena conferir. Gosto sempre de prestigiar o cinema nacional, coisa que não fazia antes com frequência, haha.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: