Rio (Carlos Saldanha, 2011)

6.1/10

Não é muito fácil tentar compreender processos construtivos.  A concepção é demasiado complexa para abranger estruturas lógicas simples e coesas. Já ouvimos dizer que alguns filmes de Lynch provêm de pesadelos ou que alguns artistas delimitam obras sem significado para testar a criatividade do público. No entanto, curiosos como cinéfilos tradicionais (e, refletindo a curiosidade natural que permeia o humano em tudo que tem interesse específico), não nos abstemos de tentar saber as raízes da criação de um personagem, de um ambiente, de uma estória. Em casos de maior “insanidade fílmica” – mal de todo cinéfilo – bom entretenimento é ultrapassar as correntes que prendem a produção na tela e passar um tempo refletindo e conectando as razões para sentirmos emocionados ou decepcionados com um filme qualquer.

Rio é um filme bastante diferente, neste contexto. Não é comum assistirmos a uma animação ambientada em nosso país. E, muito embora, só isto seja já suficiente para nos promover uma análise infinitamente mais crítica (mesmo que inconsciente), neste caso, Rio ainda aposta em elementos estéticos e ambientais para construir sua sustentação, uma vez que os personagens são clichês e pouco atraentes psicologicamente, não diferindo em nada de outros exaustivamente retratados em outros filmes anteriormente produzidos, de maior qualidade, inclusive.

Em geral, tenho a impressão de que os brasileiros são extremamente xenófobos. Muitos detestam os norte-americanos como se cada um deles fosse responsável por uma parcela do imperialismo estrangeiro, a ponto de qualquer pequeno contratempo criar uma gigantesca bomba relógio (vide comentários horrendos no imdb quando da realização do péssimo Turistas, que é péssimo por ser péssimo e não por retratar a nação tupiniquim de forma inadequada). O pior é que a xenofobia parece inversamente relacionada com a falta de conhecimento (e não diretamente como creio que deveria ser).  Com as artes, a situação não se diferencia muito. Especialmente porque, contextualmente, trata de expressão concreta de ideias, mecanismos perceptivos da sociedade ou mensagens adaptadas à uma realidade recriada. Há a impressão de que um filme transparece uma ideia, um objetivo, um princípio suficientemente forte para que seja exposto por alguém.

Mas o interessante de Rio é exatamente o contrário. A retratação é de um brasileiro, muito embora em um contexto gigantemente internacional. E ele cria uma imagem desagradavelmente romântica. Um desfile de cores, luzes, um verdadeiro painel de estereótipos – o carnaval, o futebol, a natureza, as praias limpas – tudo está ali, concebido de forma alegre demais, bonita demais, vistosa DEMAIS. Tão vistosa que tenta apagar a falta de criatividade da estória através de tanta pompa. A estética magnífica passa do segundo para o primeiro plano e se torna centro da estória por ser o que tem de melhor (e os produtores tanto sabem disso que o nome do filme já reflete a importância do local). Com os holofotes acesos e voltados à seus detalhes (que não decepcionam em nenhum momento visualmente), os estereótipos realmente se contrapõem com o perfil multi-étnico do brasileiro, os contrastes da capital carioca e o mundo paradisíaco.

Não que fosse necessária a criação de uma ambientação pesada ou violenta, uma vez que o público alvo do filme é infantil (muito embora haja um certo desuso na criação de um filme para este público específico e se pense atualmente em agradar aos pais que levam os filmes ou os apaixonados por cinema) mas tampouco o anverso, que se torna exagerado e desnecessário.  Chega a ser tão forçado que parece ser colocado para agregar os saudosistas do Rio dos anos 70 e turistas de olho em visitas à cidade maravilhosa. A questão é que, na verdade deve ser tão difícil ocultar os contrastes quanto deixá-los transparecer.  Então porque se preocupar tão avidamente em fazê-lo e reforçar os estereótipos já criados – não é essa criatividade (difícil de ser reproduzida em um filme infantil) – que faz de alguns roteiristas e outros não? Ou as crianças precisam ter uma visão excessivamente romântica de tudo? O filme parece uma propaganda da Riotur promovendo a cidade. E tudo em excesso chateia.

Mas como não se emocionar com as belíssimas cores, desenhos e movimentos das aves do filme? Como não esperar pelo próximo personagem aparecer?  A técnica de captação dos “maneirismos” das aves é estupenda e Blu é absolutamente maravilhoso. Mas quando ele abre o bico ou qualquer outro personagem é como se a frase pudesse ser falada por qualquer um das centenas de protagonistas de outras animações anteriores. É realmente uma pena que só com beleza não se faz uma grande obra.

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~ por mrscofield em 14/04/2011.

3 Respostas to “Rio (Carlos Saldanha, 2011)”

  1. Ainda não vi, deve ser mais ou menos isso mesmo. Mas só comentando: viu os golfinhos nandando no RJ, numa água verde caribe? Essa cidade tem momentos, ângulos, instantes que realmente parecem de cinema.

    Abraço!

  2. Sim, o Rio de Janeiro é absolutamente maravilhoso. Considero o estado mais bonito dentre todos os que conheci. Mas o maior problema de Rio, Rodrigão, é mesmo os clichês mal encaixados. O filme é um emaranhado de clichês que não funcionam bem.

  3. Não é sempre não, mas tem uns instantes de muita beleza. Sobre o filme, imagino que seja algo exageradamente colorido, limpo, humorado. Retrata com bons olhos uma cidade q tem pelo menos uma desgraça por dia. Mas animação meio infantil é assim mesmo…. Abraço!

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