The Future (2011, Miranda July)

6.5/10

Existe uma certa mágica no espetáculo da vida. Delimitada por marcos temporais insuperáveis de início e fim, compete-lhe um papel de se desenovelar por entre esses dois pontos de forma imprevisível. Vida permeada por conceitos individuais, cujo sucesso e felicidade dependem de um emaranhado de eventos que determinam personalidades e conferem subjetividade às percepções do cotidiano.

Provavelmente decorrem daí as infinitas linguagens possíveis de lidar objetivando dialogar e filosofar sobre seus fundamentos. Sim, porque independente do fator subjetivo existe uma série de fatores que, em critérios dos mais gerais possíveis, é possível denominar como comuns e identificáveis em todos os seres humanos. É como se o início e o fim fossem ligados por uma linha sempre feita de um mesmo material específico, mas cujas combinações a partir de então fossem tão numerosas e variáveis que seria impossível construir uma tese que engloba tudo. Assim, só de pensarmos em quantos fios compõem a linha ou qual a organização deles ou qual a cor ou tonalidade ou se eles apresentam ou não pequenas formas repetitivas na composição ou ainda que formas são essas; permaneceríamos um tempo infinito elencando as possibilidades. Mas uma coisa não podemos perder de vista: efetivamente todo mundo POSSUI uma linha.

A identificação desse fator em comum, quando aplicado nas diversas circunstâncias, é entretanto, muito mais fácil quando partimos do fator comum. Infelizmente, normalmente isso não é possível. Como perceber tal elemento quando ele perscruta pelos arredores íntimos de questões complexas? É ousado dizer que ele sempre existe, por mais que permaneça oculto?

A percepção do “fator comum” poderia bem ser uma teoria. Ela podia ser usada para explicar um monte de eventos a partir de um referencial humano, conjugando tanto fatores emocionais quanto racionais e lógicos. Testando essa ideia, poderíamos testar inúmeros “exercícios” psicológicos.

Designado como experimental, The Future, de Miranda July bem que poderia ser um desses exercícios. Apresentados a um casal totalmente não convencional ou simpático, a qual a matéria bruta é composta de melancolia, estaticidade e obsessão pelo tempo, tentamos encontrar algo com o qual nos identificamos ali. Eles contemporizam a adoção de um gato doente, Paw Paw, a qual poderiam buscar após 30 dias depois do qual poderia ser sacrificado se não encontrasse um lar. Naturalmente a adoção promoveria uma responsabilidade pela vida do bichano e ensejaria um contexto de mudanças radicais para o casal. A situação cria um limite de tempo para o “fazer algo diferente”. Enquanto a moça tenta adquirir popularidade criando uma sequência temporal de dança e compartilhando no youtube, o rapaz percebe que deveria se destinar a questões mais amplas, de cunho importante, que lhe confiram um papel na sociedade. Os dois abandonam seus empregos anteriores e passam a viver em torno de suas causas, sem perceber que as alterações proporcionadas por suas escolhas os levarão a um caminho totalmente distinto decorrente de suas frágeis decisões.

Há o tempo todo a sensação de algo errado com os dois. Uma tristeza ímpar, a falta de lugar no mundo, algo que encontra canal na simbólica espera do gato e seus pensamentos existencialistas.

The Future é um filme difícil, muito pesado e artístico, que conta com uma excelente atuação da própria Miranda July no papel principal e gera um desconforto absoluto no espectador. Vale uma visitada pela originalidade e reflexão, muito embora a lentidão e a falta de empatia dos protagonistas cause uma enorme distância entre o filme e quem aprecia a obra.

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~ por mrscofield em 01/01/2012.

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