The Ides of March (Tudo pelo Poder, 2011, George Clooney)

6.3/10

Não podemos confundir governo com governabilidade. O governo é uma entidade que, supostamente, corresponde a um provedor de serviços e bens que não podem ser fornecidos pelo sistema de mercado competitivo. Portanto, constituiria a configuração mais estável e benéfica para a sociedade a fim de atender suas demandas. Naturalmente, tal conceito sofreu várias mudanças com o tempo, desde a incorporação de um representante divino na Terra, que guiaria a população contra a barbárie até a atual noção de “inevitabilidade” de existência, devido a seus papeis de estabilizador da economia, alocador de recursos e distribuidor de riquezas.

Como administrador dos recursos públicos a fim de prover tais benefícios, desencadeia-se um aparato burocrático e organizado, contando com uma complexa trama de indivíduos, leis que regem seu funcionamento e controle de gastos através de planejamento orçamentário a fim de evitar sucessivos déficits e o fim da governabilidade.

Há muito, entretanto, sabe-se da dificuldade de administrar um país ou mesmo chegar ao poder. Parte-se do princípio de que não é possível governar sem estabelecer alianças entre as inúmeras classes sociais e econômicas e estabelecer um pacto que efetivamente permita-se tomar atitudes de melhoria das condições de vida para todos os indivíduos da sociedade. E, apesar da teoria distributiva ser muito bela, ela despreza a diferença de influência das diversas classes, que não é equitativo e encontra resistência até mesmo de seus defensores, uma vez que normalmente eles ficam surpresos quando percebem que para distribuir renda ELES terão que abrir mão de parte de seus benefícios, pois pressupõe-se que é necessário que haja uma fonte de recursos (possivelmente através de aumentos de impostos sobre a renda ou bens supérfluos, que promoveria uma tributação menos regressiva). E, não se iluda, a resolução dos problemas de corrupção e má administração da máquina são muito importantes (fundamentais), mas não seriam suficientes (aliás, nem perto disso) para gerar recursos para atender as gigantescas demandas.

Lidando, portanto, com a carência de recursos, é necessário fazer escolhas. E para fazê-las é fundamental compreender que há resistência. Ninguém quer ter sua renda diminuída e deseja continuar em crescimento financeiro a fim de obter mais bens e serviços privados. A luta pelo poder é natural, portanto, nas diversas populações e países. E, infelizmente, na dinâmica do jogo político, o que se vê é que a cessão às pressões de grupos privilegiados (alguns, inclusive estrangeiros) é requisito para governar. Nojento.

Enquanto não se encontra uma resolução definitiva para essa deturpação, lidamos com um jogo sujo e revoltante. The Ides of March, filme do inteligentíssimo George Clooney, se envereda pelos bastidores das prévias do partido democrata (naturalmente como metáfora de um conturbado cenário que poderia se localizar em qualquer lugar do mundo), utilizando de um dos principais ícones da campanha de um dos candidatos, o diretor Stephen Myers, vivido por Ryan Gossling para ilustrar as dificuldades e a manipulação selvagem das formas de comunicação, que são moldadas a belprazer dos interesses predominantes ou dos mais espertos.

As reviravoltas da trama são relativamente inocentes para ilustrar o quão distorcida pode ser uma informação a fim de atingir um objetivo específico. O roteiro é muito bom e o elenco é estelar, com ótimas atuações de Giamati, Phyllip Seymour Hoffman, o próprio George Clooney no papel do governador Morris, Evan Rachel Wood, dentre outros.

Repleto de traições, jogadas por debaixo dos panos e questões ligadas a lealdade e influência, The Ides of March confronta o jogo perigoso das urnas com o discurso inflamado e apelativo dos candidatos (por vezes irritante) diante de uma plateia insandecida e receptiva que não parece fazer ideia do que de fato acontece.

O filme peca pela previsibilidade, comparações óbvias com a candidatura de Obama e a não inovação. Falta fermento, ousadia. Simplesmente não há nada que você não saiba que exista e muito menos a surpresa que deveria ocorrer diante das revelações. Também não acho que Ryan Gossling seja suficientemente carismático para interpretar o papel de condutor da estória, mesmo que várias pessoas o considerem candidato às indicações ao Oscar (sic). Incomoda também algumas passagens serem excessivamente americanas, perdendo um pouco do tom universal que acredito ser a ideia central.

Mesmo distante da sutileza e do roteiro belíssimo de Good Night and Good Luck, do mesmo diretor, o filme não faz feio e não será uma surpresa se conquistar uma ou outra indicação de fato. Recomendado, mas não é dos meus preferidos do ano passado.

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~ por mrscofield em 01/01/2012.

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