Dead Man’s Shoes (Shane Meadows, 2004)

6.3/10

Atenção: este texto pode conter spoilers:

Em um tempo onde as demandas sociais recebem cada vez mais atenção por parte das autoridades e da própria população, uma vez que o fluxo de informação atual permite a disseminação rápida de ideias, discursos de cunho moral assumem cada vez mais uma identidade massiva.

Dizem que a sociedade é dinâmica pelos conflitos e eles são incrivelmente importantes para sua evolução natural. Na verdade, se todos fôssemos atendidos com as regras impostas atualmente, dificilmente haveria conflitos distributivos ou de geração de alternâncias conceituais. Ora, suponhamos um indivíduo que se sente inserido em um determinado grupo hegemônico. Seu nível de renda é satisfatório, seus atributos intelectuais e seus padrões de comportamento e físicos também. Dificilmente ele lutaria para conquistar algo (dadas algumas exceções, por exemplo, direitos de pessoas próximas de si ou um espirito naturalmente solidário, etc).

Não parece ser absurdo considerar que grupos que apresentam certa identidade mas não são reconhecidos na sociedade em geral tendem a se organizar para buscar reconhecimento. E é justamente aí que a sociedade se move. Bem, ao menos é um dos elementos primordiais para que a evolução ocorra. A busca e a luta por ideais e as vitórias de grupos minoritários em alguma característica, dependendo do poder de organização e resistência, transformam e ampliam conceitos.

Partir de problemáticas reais e imprimir soluções bizarras a fim de ilustrar a latência de demandas reprimidas é uma das mais interessantes temáticas abordadas pela sétima arte. Uma estratégia árdua, pesarosa e de efeito imprevisível no contemplador. Em Dead Man’s Shoes, é introduzida uma situação problema que ilustra uma estrutura tradicional.

O filme trata da estória de Richard, um soldado que retorna à sua cidade natal obcecado com o objetivo de destruir um grupo de mau caráteres que violentaram seu irmão com retardo mental, de nome Anthony. Ele busca a redenção buscando eliminar um a um dos agressores do pobre rapaz.

Não há muito mais que acrescentar ao plot da estória. Não é um filme de atuações, roteiro inteligente ou frases brilhantes. Aqui define-se uma vítima, potenciais vilões/agressores e um guardião da “justiça”, cujos métodos de atuação exigem uma discussão apurada pela sociedade das consequências, objetivamente catastróficas em diversos níveis, mas que combinam a indignação do espectador com o apelo emocional da ética. Durante a jornada, os elementos são lançados a fim de flertar com os limites da “selvageria” aceita pelo expectador. Diante do dilema, é muito fácil perceber que suscita-se a questão da insatisfação com o conceito de justiça atual, aquele institucionalizado e considerado ideal e que respeita o homem, indiscutivelmente como ser e estabelece punições de cunho repressor (aqui de forma psicológica, mas jamais física – os indivíduos não são presos) e não vingativo. É como se Shane apontasse o dedo para você na tela e falasse: e a sua justiça, aquela que você acredita, não fez nada pelo indefeso Anthony. Deixe Richard fazer, eles merecem…ou não. Mas não deixe de ver o que aconteceria se você deixasse.

Apesar da ideia simples e de certa forma, até pretensiosa, Dead Man’s Shoes peca pela previsibilidade e por não transformar a situação em um dilema real para quem assiste, uma vez que os personagens não são ricos (é insuficiente e enfraquece o dilema fazer com que os personagens pareçam aceitar seus destinos) e soam mais como peças com uma função específica em um tabuleiro de xadrez que seres humanos complexos. Parece-me a contemplação de uma tragédia, não há a sensação de que havia uma escolha ali, uma armadilha do destino e da “justiça”. Apesar do insucesso nesse aspecto, sem dúvida, ao menos toca em um assunto que devia ser encarado com mais seriedade pela sociedade insatisfeita com tamanha impunidade difundida hoje. Não há como discutir, entretanto, se não pensarmos em contemplar todas as hipóteses, inclusive as que ferem as ideias que defendemos. Quem sabe, diante de uma profunda análise imparcial, um grupo pode fazer a sociedade se mover em torno de mais um passo “evolutivo”?

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~ por mrscofield em 03/01/2012.

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