Il Deserto Rosso (O Deserto Vermelho, Antonioni, 1964)

8.4/10

As engrenagens das poderosas máquinas continuam furiosamente a desempenhar seu papel. Edifícios sem vida se erguem sobre ruas estreitas. A fumaça se dispersa preenchendo os espaços vazios, acinzentando o céu. A grande indústria capitaliza, reproduz e distribui a riqueza entre homens privilegiados. A sensação de torpor, pequenez e impotência se propaga composta por cores desfocadas, sem perspectiva. Não se sabe ao certo o que se contempla ou mesmo “se” se contempla algo que não sejam máquinas que permanecem ávidas pelas atividades rotineiras. A desorientação humana diante do caos burguês/capitalista/oligopolista/”whatever “prevalece.

Dizem que os parágrafos iniciais remetem à ideia central de um comentário. Constantemente essa ideia é ampliada nos parágrafos seguintes e congregadas para uma conclusão posterior. Em síntese, o primeiro parágrafo aqui tenta dizer algo sobre O Deserto Vermelho. Não é à toa que não citamos um personagem humano para descrevermos essa intenção inicial, muito embora a estória contenha alguns ótimos. Curiosamente há um duplo objetivo para justificar esta pequenina análise: o primeiro, obviamente, é evidenciar que a estrutura narrativa do filme de Antonioni é acêntrica, atípica. Os cenários falam, expõem, elucidam o enredo, muitas vezes sem que os personagens se refiram a ele. São gigantescas paisagens enegrecidas, com fumaça densa ou, quando no interior de recintos, muitas vezes há uma inversão de perspectiva e tudo se torna claustrofóbico, de cores sufocantes, compostos de elementos que frisam o vazio do enclausuramento. O segundo objetivo é tentar mostrar o quanto um cenário pode ser diegético, com personagens ocupando espaços “estranhos” no plano (especialmente na primeira parte do filme, é constante a não-centralização dos seres humanos, algumas vezes até mesmo renegados ao lado esquerdo da tela ou se centralizando no decorrer da ação) e focalizando que eles são apenas peças de um plano psicológico mais complexo, composto por sons, cores e ambientação física.

Giulianna (interpretada pela belíssima Monica Vitti) é uma mulher delicada, mãe de um lindo garotinho , que seduz o público com seus olhares perdidos devastados pela desorientação. Após tentar o suicídio em uma situação jamais bem explicada no filme, não se recupera por completo e se sente constantemente acuada diante do mundo que a cerca. Mesmo diante do caráter muito compreensivo de Corrado (apaixonado por ela, mesmo sendo uma mulher casada), todas as pessoas que se relacionam com a moça em um ponto ou outro do filme parecem influenciá-la de forma a aprofundar seu desejo de fuga.  Há uma cena extraordinária em que, apesar de cercada por vários amigos posicionados em um arco durante uma crise psicológica, eles vão sendo sugados pela neblina um a um, desaparecendo por completo e depois reaparecendo lentamente, como se Giuliana percebesse por um momento que eles não poderiam ajudá-la porque estão completamente integrados àquele mundo dispersivo.

Antonioni, portanto, não se contenta em apresentar ao expectador o universo repressor vivido pela garota, mas propõe envolvê-lo abraçando seus sentidos e distorcendo sua percepção. Constantemente os sons possuem um efeito perturbador. Funcionam como efeitos ratificadores da tensão, reforçando o tom dramático e regendo o ritmo psicológico de uma mulher que se sente completamente perdida e irritada mas demonstra um estado mental aparentemente sereno que não se manifesta como potencialmente destrutivo a não ser em situações específicas da estória.

Remetem-nos a enquadramentos nervosos e perturbadores as cenas onde Giuliana demonstra sua afetividade. Diante de comportamentos ambíguos e confusos dos personagens desenvolvidos na estória, há uma certa dúvida se tudo acontece de acordo com o que é mostrado ou a visão da moça delineia a seu belprazer as atitudes exibidas. Nunca saberemos, mas a delicada paixão que a garota é capaz de compartilhar em cenas com o filho ou o ardor sexual intenso (mas excêntrico) de sua relação com Corrado, por exemplo, amplia a curiosidade de se conhecer o que de fato se passa na mente da jovem italiana.

As conclusões são várias e sujeitas às metáforas das mais diversas, quase todas relacionadas à expansão desenfreada do capitalismo e a atrofia das relações humanas, uma relação de difícil formalização, mas cuja correlação não implica dúvidas. De qualquer forma, a obra prima de Antonioni é mais um dos presentes magníficos que o cinema nos concedeu.

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~ por mrscofield em 18/09/2012.

2 Respostas to “Il Deserto Rosso (O Deserto Vermelho, Antonioni, 1964)”

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