I Girasoli (Os Girassóis da Rússia, De Sica, 1970)

7.2/10

Parece difícil no século XXI, caracterizado por uma poderosa revolução proporcionada pela internet, imaginar as lacunas psicológicas motivadas pela distância entre as pessoas. Há quem defenda que o mundo de hoje é frio, polarizado pelas artérias da artificialidade conectadas por aparelhos sugadores de energia compostos de uma caixa preta sem vida e de um monitor colorido que só exibe o que se deseja. Tal argumento espelha a extensa gama de ofertas de todos os gêneros e de acesso universalizado (ao menos em porção significativa da sociedade em relação a outrora). Pessoas, objetos, animais, sentimentos: todos se tornaram um produto cuja divulgação não encontra barreiras em uma rede de interação de cunho invasivo, mas permitida pelas benesses advindas de sua criação.

Talvez essas pessoas tenham razão, não sei. Mas há sim um lado sombrio em meio a essa situação quando confrontamos com um passado não tão longíquo…será que nós como seres humanos mudamos tanto assim? Será que no fundo de nossos corações não sentimos falta das interações diretas com amigos distantes, de ser obrigado a um esforço ao procurar a residência de um familiar? De buscar um tipo de contato mais íntimo, emocional e sincero? Seria o número de opções gigantesco suficiente para abrandar a carência da esfera física?

Certamente, Vittorio De Sica não previa tais questionamentos depois de um punhado de décadas. Mas aqui há um exemplo de como uma obra pode adquirir diversos significados em contextos e épocas diferentes, permanecendo atual. Muito mais reflexivo que os girassóis esbeltos substituindo os inúmeros soldados mortos no confronto da Guerra na Rússia (distantes, aparentemente, de uma população italiana envolvida pelo culto ao fascismo de Mussolini) contrapondo-se ao melodrama da felicidade decadente da protagonista vivida por Sophia Loren. Sua procura pelo marido desaparecido durante a guerra envolve o deslocamento, a tortura da separação e, principalmente, a ausência da comunicação, mas dotada de uma esperança sólida e determinada. Antò desaparece como que por encanto, sugado pela neve devastadora dos gélidos domínios russos. Sem identidade, sem notícias emitidas pelas autoridades militares. Um girassol que não se enraizara na terra, mas cujo paradeiro ninguém sabe. Ou não deveria saber. Giovanna (Loren) tenta mudar os rumos de um destino aparentemente concretizado e imutável.

Polêmico por sua brilhante obra Ladri di Bicicletti (Ladrões de Bicicleta, 1948), que retrata um país feio, devastado pela guerra e pela pobreza, com suas poderosas instituições destroçadas e um elenco desconhecido, típicas características do neorealismo, Vitorio trata aqui de uma estória mais comercial, de amor convicto e trágico. Mas, apesar dos magníficos Mastroianni e Loren nos papéis principais, também resta uma atmosfera que causa amargura, como a do neorealismo clássico. A Itália e a Rússia parecem indistintas em seus cenários acinzentados e tristonhos, pulsando a tentativa desesperada de reestruturação por parte dos dois países. As únicas imagens coloridas e agradáveis refletem a melancolia do movimento dos girassóis ao vento e também agregam sua parcela de angústia.

Criticado pelos supostos absurdos dos acontecimentos mas embalado pela incrível trilha sonora criada por Henry Mancini, Os Girassóis da Rússia reflete de certa forma o afastamento entre as pessoas, expandindo para os campos de violência da batalha e ecoando por incontáveis outros cenários onde há vida. Em uma leitura atual, se perpetua, inclusive, onde não há conflito armado.

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~ por mrscofield em 28/10/2012.

Uma resposta to “I Girasoli (Os Girassóis da Rússia, De Sica, 1970)”

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