Looper (Looper: Assassinos do Futuro, Rian Johnson, 2012)

7.5/10

Dizem os sábios que não é possível imaginar algo inteiramente novo. Em qualquer forma original é possível estabelecer traços óbvios de elementos com os quais tivemos contato em nossas experiências passadas. Como consequência dessa curiosa constatação surgem teorias mórbidas como a do Deus Maligno, cujo profundo desprezo pelo ser humano se traduziu em uma criação dotada de um monstro interior eternamente sedento do domínio de tudo que existe no universo (através do batizado “conhecimento”) mas corrompido por algo que chamou de racionalidade e método científico (que corresponde a um limite pífio do alcançável, mas que o homem imagina ser infinito e ilimitado). Esse voluptuoso ser que flerta com o poder sobre as outras criaturas e os mesmos de sua espécie seria conduzido por um sentimento devastador concretizado em um desejo poderoso chamado “valor”, que por ironia da implacável “divindade” se materializa em um instrumento construído sobre uma estupidez ímpar: o papel/moeda (assim mesmo separado para melhor percepção do inculto).

Deixando de lado o mérito (ou demérito) dessa aterradora visão, sabemos da dificuldade de protegermo-nos de vícios criativos.  Vivemos enclausurados em uma gaiola de três dimensões espaciais e uma temporal. Prendamos nossa atenção nessa última. Quão difícil e distante de nosso mundo é imaginar a inexistência ou subversão deste fator? Não é necessário mais que um minuto (!) para percebemos as bizarras incoerências entre passado e presente se fosse possível a alteração de algum deles. As viagens no tempo envolvem paradoxos interessantíssimos que brincam com nossa habilidade de manipulação do imanipulável e sanam momentaneamente nosso desejo de dominar uma esfera superior a de nosso alcance, alterando fatos e construindo um futuro a nosso favor.

O cinema, como berço de exposição de ideias imaginárias, possui um gigantesco histórico de assimilação deste anseio. Incomum, entretanto, é lidar com as probabilidades mais “concretas” imaginadas pela física, sem perverter vários dos conceitos a fim de criar uma atmosfera mais palatável ao espectador. Daí surgem filmes “simplificados” (e que normalmente carecem de um eixo significativo de coerência) como Efeito Borboleta, por exemplo. Obras primas e complexas raríssimas como Primer, de Shane Carruth, atendem a um público bem mais restrito por não poupar ninguém e possuir personagens só para desempenhar papel coadjuvante na estória. Mas esse é assunto para outro comentário.

O filme de Rian Johnson (Looper) é um dos primeiros casos. Você consegue imaginar Johnson pensando a princípio na criação de uma trama onde Bruce Willis chuta bundas e Gordon Levitt, como ótimo ator que é, desempenha papel central no contexto. A partir daí a criatividade concebeu um filme sobre viagens no tempo.

A estória gira em torno de assassinos chamados Loopers, especializados em matar alvos gerados no futuro por criminosos. Com o avanço exorbitante da tecnologia e a dificuldade de sumir com corpos de suas vítimas, bandidos poderosos utilizam a viagem ao passado para que os loopers liquidem seus inimigos em troca de generosas quantias de metais preciosos. Naturalmente a estória tem um protagonista que enfrenta problemas graves ao não conseguir eliminar seu próprio “eu” proveniente dessa nova época.

Repleto de furos enormes e a completa falta de estrutura lógico-científica, Looper não é prejudicado em nenhum momento no fator “diversão” por devaneios filosóficos, até por não perder muito tempo com eles (quando perde é desastroso). A estória é desenvolvida de forma simples em uma ambientação muito interessante e ótimas doses de ação e suspense. Para assistir ao filme de RJ é necessário perceber que não é foco uma grande discussão sobre o tema e muito menos satisfazer o público com respostas imediatas e coesas. Apesar de um final, de certa forma, previsível para quem acompanha esse tipo de narrativa com frequência, o entretenimento é gigantesco e, especialmente a segunda parte do filme, é muito agradável. Portanto, desligue o botão da “necessidade do conhecimento” como brincamos no início desse post e se delicie com um ótimo blockbuster bem acima da média dos comuns. Deixe a discussão da subversão temporal para os enormes esquemas de explicação de Primer, se estiver disposto a um desafio.

Destaque para o excelente trabalho de maquiagem em Levitt para parecer Willis mais jovem.

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~ por mrscofield em 13/11/2012.

8 Respostas to “Looper (Looper: Assassinos do Futuro, Rian Johnson, 2012)”

  1. Vou assistir. Excelente postagem. Parabéns pelo blog, amei.

  2. Ai, que vergonha, a Cris lendo meus posts, hahahah. Brigado e seja muito bem vinda. 😀

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  8. Acabei de ver o filme, Sacofa e minha nota bate com a sua. Diverte bastante, sem explicar.

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