Sinister (A Entidade, Scott Derrickson, 2012)

        8.4/10

No reino animal frequentemente consideramos a existência de relações ecológicas como se o comportamento fosse governado por um “instinto” (palavra que parece desencadear uma imediata fagulha explicativa de tudo, muito embora em uma análise mais aprofundada reconheçamos que não sabemos nada do mesmo jeito). Predatismo, Mutualismo, Inquilinismo e outros nomes de natureza científica parecem reduzir, simplificar as ações praticadas pelos indivíduos, como se fosse possível construir uma pequenina teia na qual tenhamos o domínio de todas as possibilidades desde quando o filhote nasce. Comportamentos que fogem ao padrão são tidos como erráticos ou não significativos, desprezíveis perante o comum.

O que distingue o homem, de fato, desses seres é a consciência. O comportamento humano apresenta possibilidades diferentes dos animais porque podemos pensar em um nível infinitamente mais complexo. Naturalmente, toda a dinâmica da teia muda e ela se torna muito mais difícil de compreender. Sentimos amor incondicional por nossa prole, construímos residências imunes a alguns desastres naturais (ou pelo menos somos capazes de), desenvolvemos um complexo mecanismo de valores econômicos, morais, éticos e religiosos, conseguimos lidar de forma consciente com a obtenção de medicamentos que barram a ação natural de agentes patogênicos e vivemos mais e melhor que as limitações que nos seriam impostas.

Mas o principal motor do conhecimento envolve domínio. Domínio envolve manipulação. Manipulação envolve poder sobre quem não possui esse dom. O “dom” envolve finalmente o capital e a detenção dos meios necessários para desenvolver o conhecimento. Embora, em geral, de formalização muito mais difícil, há um gigantesco número de pequenos ciclos que são responsáveis pelas ações humanas, que nos parecem tão confusas às vezes pela conjunção de fatores incontáveis que produziram um dado efeito final. E a sede em conhecer não podia ser diferente em relação a nosso próprio comportamento. E  nesse ínterim, nos confinamos igualmente, sem perceber, às mesmas celas animalescas.

Temos consciência de que esses pequenos ciclos existem mesmo de forma inconsciente. Analisemos um filme de horror como Sexta Feira 13. O universo obedece a uma ordem, caracterizada por ciclos que envolvem as atitudes dos personagens e os elementos de ambientação da estória. Quem não se divertiu ao ver Jason eliminar jovens cujo comportamento imoral promove um motivo cabal para o assassino fazer seu trabalho? Quem não prevê que a luz vai acabar, que uma das vítimas vai cair no chão quando estiver fugindo (e, depois de se levantar e um breve período de alívio ao não ver o monstro será decapitada ao som de um volume estridente ou de um heavy metal?), que os telefones não funcionarão, que o carro não vai ligar na fuga desesperada?

Tudo isso faz parte de um mecanismo. Aos poucos vamos construindo por repetição os elementos mentais que caracterizam a cultura na construção de um filme do gênero. Essas características mudam de acordo com a origem da película, o que torna um filme oriental menos previsível, por exemplo, já que vivemos no Ocidente.

Sinister é absolutamente genial em brincar com as limitações desses microuniversos e introduzir consequências originais e estranhas. É como se o filme de Derrickson pervertesse cuidadosamente e lentamente os clichês dos pequenos ciclos e: fundamental – não de imediato. Ele não se contenta em mudar a perspectiva: em alguns casos efetivamente acontece o que você espera, mas o efeito é totalmente inesperado ou é deixado subentendido ou torna algo extremamente importante em outros filmes completamente irrelevante para o contexto ou de sutileza ímpar. O que torna o filme excelente é a consciência da utilização desses ciclos. Parece que Derrickson desenhou uma larga pesquisa sobre o que se espera quando uma situação acontece e construiu um filme com tal base.

Dois exemplos SPOILER:

1) A entrevista na TV (a frase que volta): é comum em filmes hollywoodianos a típica frase que volta. Um indivíduo usa uma frase de efeito com o domínio de uma situação e futuramente há uma circunstância que reverte e a faz engolir normalmente por um personagem que deu a volta por cima. Nos casos mais clichezentos, o personagem, antes inferiorizado, pronuncia a frase com as mesmas palavras, enfatizando a obviedade. Em Sinister é a frase da TV, onde o personagem de Ethan Hawke diz que prefere ter as mãos cortadas que vender um livro por interesse comercial, ele pretende ajudar as vítimas. É óbvio que durante o filme torna-se notória sua subversão conceitual. Em determinado ponto fica óbvio que ele vai morrer em uma cena onde suas mãos serão cortadas. Aqui está o pulo do gato: elas SÃO. Só que devido ao enfoque da cena da morte não há nenhum destaque para este evento, o homem é, para todos os efeitos, esquartejado. Esta sutileza é muito interessante e ocorre em alguns momentos do filme.

2) O “não quero sair da casa” – é muitíssimo comum em filmes de casas assombradas os moradores não saírem mesmo diante da obviedade da alternativa. Quando o protagonista confronta a mulher com a verdade sobre a casa há um ponto fundamental: a atitude óbvia é que ela definitivamente saia da casa com as crianças. Só que ela não sai (ah, nem, mais um clichê?). O filme continua e logo na situação posterior eles VÃO embora. E ninguém impede. Só que aqui, além de proporcionar uma saída para essa alternativa (como em Paranormal Activity, onde não importa onde estejam os eventos acontecerão porque estão ligados aos personagens), em Sinister eles são contextualizados. Mais do que isso, fundamentais na trama e explicam o traço que envolve os assassinatos em lugares aparentemente sem relação.

Fim do SPOILER

Não há como falar sobre o filme sem dizer nada sobre a ambientação. Sinister é um exemplo de que não importa o que você está contando, mas COMO você está contando. A repetição de uma cena altamente perturbadora, o modo estranho de lidar com a câmera nas filmagens, com sucessivos cortes que prejudicam a percepção da cena como um todo, a escuridão e o carisma do protagonista afetam intensamente nossos sentidos. Saí do filme extremamente nervoso, perturbado, devastado psicologicamente. Há muito um filme não me esgotava tanto.  Mas as surpresas são muito boas (o filme frequentemente explora o “e se…?” ) e o final não decepciona em nada. Destaque para a soberba parte Hitchcockiana com as crianças correndo pela casa. Melhor filme de horror de 2012.

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~ por mrscofield em 17/11/2012.

2 Respostas to “Sinister (A Entidade, Scott Derrickson, 2012)”

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