In Film Nist (Isto Não é um Filme, Mojtaba Mirtahmasb/Jafar Panahi, 2011)

     

8.0/10

A literatura apropria-se de alguns recursos estilísticos notáveis. Napoleão Mendes de Almeida confere à literatura em si o significado de expressar o Belo mediante a palavra (Belo assim mesmo de forma maiúscula e destacada), falada ou escrita, o que envolve sua natureza de integridade, harmonia e claridade. A arte literária, em última instância, é, no ponto de vista de quem vos escreve, a arte da comunicação isenta das formalidades intrínsecas à linguagem excessivamente formal, mas fundamentada na forma de expressão.

Quando ocorre um diálogo entre as diversas formas de arte, no caso em que uma empresta à outra alguns de seus princípios, somos premiados com uma riqueza sem precedentes. Em In Film Nist, o belíssimo filme iraniano em que um cineasta interpreta, contracena com outro cineasta, descreve a encenação de um roteiro e compartilha seus dramas pessoais, há um discurso metalinguístico tão intenso que o próprio Panahi questiona já no título se sua obra pode ser definida como cinematográfica.

Não há dúvidas, entretanto, de um papel infinitamente mais importante do filme que meras descrições simplificadoras que o encaixem neste ou naquele conceito. Basicamente, não há história aqui. Há História. Panahi foi condenado a 20 anos de prisão por suas filmagens anteriores diante de seu apoio declarado a um partido de esquerda durante as eleições conturbadas no país em 2009. Aguardando o julgamento do Tribunal de Apelação, que poderá definir seu futuro na vida real, o diretor compartilha não só a vida corriqueira e dramática da espera nos inquietantes 75 minutos de duração, mas também os contatos com sua advogada, cuja postura reflete o clima de insatisfação e a dificuldade de frustrar os interesses das classes dominantes ou combater o regime ditatorial, cujas decisões são 100% políticas e o senso de justiça é completamente secundarizado (quando existe). Sua esperança consiste em conseguir mobilizar, através de pressões internas e externas, especialmente de outros cineastas, uma oposição forte o suficiente para promover a mudança que considera justa (e francamente, qualquer um que observa os absurdos implicados na adoção de um regime de exclusão).

Como personagem, há uma deliciosa “confusão” entre os papeis. O diretor é dirigido e ao mesmo tempo, em alguns trechos, inverte a perspectiva voltando a dirigir através de uma câmera de Iphone. Há a captação de uma parcela da realidade mórbida de um país onde a censura se torna arma. Pulsa durante a projeção a tensão externa mesmo sem nunca mostrar efetivamente o caos no qual o país se encontra mergulhado. As ruas tomadas por pessoas, grupos radicais reagindo, fogos de artifício e o pânico estão subentendidos em uma estranha comunhão retratadas através de manchetes de jornais e telefonemas. E tudo que não se vê, ironicamente (pois é essa a estratégia de quem impede) se teme mais. Isso ocorre porque você perde a real consciência dos limites do terror e é fadado à imaginação, crudelíssima em um cenário de tensão latente. Noticiar um fato ou estimular a percepção pode denunciar as fraquezas do “texto” que impera e acrescentar ingredientes indesejáveis a quem procura se manter dominando.

Panahi então mistura elementos de direção com o próprio filme, conscientizando o público de que há algo, de fato, desempenhando uma função nas cenas. Em determinado ponto, há uma cena extremamente interessante onde ele procura em um dos filmes de sua cinemateca, uma cena onde uma garota corre por um largo corredor e ele mesmo interpreta a cena utilizando os parâmetros da atmosfera que associam-se a uma intensificação dos sentimentos da moça. Nesse contexto, as linhas verticais da tela, quando em movimento reforçam a ansiedade. O largo corredor, cenário imenso, com o objeto centralizado em plena corrida denuncia de certa forma a improbabilidade independente do esforço para atingir os objetivos, é a sensação de impotência, que abala profundamente o espectador. E é justamente o que ocorre em grande parte de seu próprio filme, os aspectos ambientais contribuindo para a percepção do espaço diegético. E a imaginação e criatividade de quem ouve sobre o roteiro da obra que narra (pela impossibilidade de filmá-la) promovem uma construção coletiva da qual nós como espectadores, participamos ativamente do processo.

Particularmente valiosas são as cenas onde notamos a fragilidade emocional e a contribuição do personagem Panahi para o filme. Ele também discursa explicitamente sobre como um diretor, diante de um ator amador, perde o controle das ações fílmicas e acaba sendo dirigido por ele. Aqui, como protagonista, constitui exemplo vivo e excepcional do que relata.

Terminamos selecionando uma das lindas frases que ele mesmo declara, de forma passional no site inglês de In Film Nist, aqui adaptada:  “Me privaram de ver o mundo por 20 anos.  Espero que quando libertado, seja capaz de conhecer um mundo onde não importam a geografia, as etnias e as barreiras ideológicas. Eles não podem me impedir de sonhar que os 20 anos de intimidações sejam substituídos pela liberdade de pensamento e pela liberdade por si mesma.”

Anúncios

~ por mrscofield em 18/11/2012.

Uma resposta to “In Film Nist (Isto Não é um Filme, Mojtaba Mirtahmasb/Jafar Panahi, 2011)”

  1. how long does it take you to finish a good article like this one?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: