Chronicle (Poder Sem Limites, Josh Trank, 2012)

7.4/10

Uma síntese implica na capacidade de processar detalhes principais e essenciais promovendo reflexões sobre um material bruto. É como se, em última instância, nos dispuséssemos a decifrar um código composto de uma simbologia desorganizada (para nós, obviamente) e fruto de um intenso fluxo mental disposto em palavras, construído por outro indivíduo. Fornecer, portanto, cunho pessoal e demonstrar a aplicabilidade de um texto específico, elaborado por outra pessoa em nossas experiências individuais.  Chamaremos esse fenômeno aqui de  multiplicação de ideias, indicando que vai sendo continuamente processado, reinterpretado e perpetuado para cada um que aprecia o material,  independente de aspectos lógicos e coerentes (pois pode assumir caráter adverso ao inicialmente proposto). Somos capazes de elaborar paráfrases, ironias, subversões de significados, sátiras e diversos recursos de forma inconsciente.

Como dissemos no texto sobre “Sinister”, o homem frequentemente tenta desenvolver ferramentas para compreender comportamentos.  Campo fértil da psicologia, delimitar e prever situações decorrentes de fatos em comum compartilhados por várias pessoas pode auxiliar  na resolução de problemas. Para lidar com o número excessivo de variáveis determinantes, podemos tentar eliminar elementos não-essenciais, ou quando essenciais descrevê-los em categorias de acordo com o tipo de influência que detêm (traumática, positiva, marcante, etc). Tal ideia, combinada com uma perspectiva do funcionamento químico ou fisiológico, permite agrupar os indivíduos também em categorias e facilitar diagnósticos.

O conceito de heroísmo não é mais que a concretização de um número de características desejáveis e extremadas em um indivíduo como resposta a graves adversidades (algumas vezes intransponíveis) . O herói é uma figura simplificadora e resumitiva de um suposto ser “ideal”, proveniente de uma esfera onírica, que esconde correlações muito complexas da natureza humana. Normalmente não se nega o caráter subjulgado do beneficiário antes de ser agraciado com um gigantesco poder, o que promove uma relação marcante com o espectador (alguém que sai de uma condição péssima para, de forma súbita, reverter tudo e se transformar, ao acaso, a alguém que pode inferiorizar praticamente todos os que um dia foram melhores, como se houvesse na natureza um senso de justiça tortuoso). Mas há também o lado sombrio…não são apenas os perversos,  há um domínio sobre as armas mais potentes do planeta e os mais influentes líderes, sanando o desejo de poder infinito e de admiração, que permanece nas profundezas do conflituoso ego humano.

O interessante de Chronicle é que, apesar de possuir todos os elementos supracitados, não há aqui um filme tradicional de super-heróis, com as mesmas temáticas. É um filme dramático que prima pelo questionamento de bastar ou não a presença desses elementos para a concretização da personalidade de um herói.  Apesar de ser inferiorizado e sofrer bullying, Andrew adquire poderes telecinéticos que o consomem aos poucos e corróem os fundamentos básicos determinantes de seu comportamento anterior. Em nenhum momento do filme de Josh Trank parece que Andrew é um caracter simbólico e metafórico, representante de uma categoria de indivíduos. Parece mais a estória de um garoto triste e problemático, psicologicamente instável, incapaz de resolver suas próprias deficiências, infeliz com as circunstâncias que a vida lhe proporcionou e que encontra um pequeno alento em uma câmera de filmagem, que o acompanha em momentos intimistas.  Um universo estranho se constrói, quando percebemos que a câmera  se transforma efetivamente nos olhos de Andrew, captando parte de sua personalidade. Uma forma estática e incapaz de sentir dor, mesmo diante de qualquer situação desfavorável, um instrumento perigoso de fuga psicológica.

Um personagem tão complexo resulta em um carisma impressionante interpretado na tela, raramente presente em um filme do gênero. Os coadjuvantes, fundamentais na trama, também são plausíveis por suas reações trivialmente imagináveis quando diante da aquisição de poderes paranormais por adolescentes. A alegria, o humor e a curiosidade são ingredientes empregados de forma racional no filme, sem prejudicar ou interromper as partes de alta carga emocional.  Se um herói faz o bem e um vilão faz o mal, o que acontece quando construímos um universo onde seres tridimensionais interagem, com um arsenal de problemas que justificam condutas paradoxais e inesperadas?

Os excelentes efeitos especiais e a câmera subjetiva funcionam muito bem em Chronicle, aprofundando a temática e humanizando o protagonista de forma incrível. Destaque para a degradação psicológica de Andrew em um timing notável, sem concessões e mudanças de perspectiva (a vida continua seguindo um ciclo que não o favorece, independente dos poderes adquiridos). O rapaz clama por ajuda mesmo sem a consciência de como lidar com ela. Chronicle é um filme que relaciona a solidão à percepção, onde você, por vezes, está só mesmo cercado de pessoas. Bizarro, muito bem concebido e executado.

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~ por mrscofield em 22/11/2012.

Uma resposta to “Chronicle (Poder Sem Limites, Josh Trank, 2012)”

  1. thanks to you i have learned something new today, thanks a lot.

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