Prometheus (Ridley Scott, 2012)

5.8/10

Não é à toa que frequentemente temos comparado alguns filmes aqui discutidos com a sede do homem em alcançar respostas para questões “insolúveis” utilizando como argumento o arcabouço científico já desenvolvido até a presente data. A ideia é atender a seus anseios de reverter/simplificar/amenizar a relação de poder detido pela natureza que o “escraviza” em seus domínios. Os cenários de ficção científica em filmes são terrenos propícios para análises do gênero, pois seus personagens podem se submeter a situações e comportamentos que não são observáveis no mundo real.

Prometheus sofre fortes influências de uma impecável obra de um escritor alemão conhecida mundialmente. Se trata de “Eram os Deuses Astronautas?”. O livro impressiona por ser desenvolvido a partir de uma premissa aparentemente absurda: a de que a vida terrestre se originou de seres alienígenas provenientes de civilizações mais desenvolvidas e detentoras de tecnologias superiores. A evidência que sustenta a tese é de que é possível elaborar uma hipótese interessante de existência de uma memória histórica impressa na civilização humana e da falta de interesse por parte da comunidade científica por conhecer seus laços e limites.

Naturalmente não se trata do julgamento do material avaliado por suas intenções (você pode concordar ou não com Däniken) mas do tratamento da informação. O escritor, consciente dos inúmeros protestos da qual sua obra seria alvo (ele pretende efetivamente SER OUVIDO, há um cunho de seriedade em sua narrativa), prevê que para sustentar sua tese inicial seria necessária uma argumentação concisa, de estrutura lógica e desenvolvida a partir de um encadeamento de ideias correlacionadas.

Ocorre que Däniken utiliza de seu vasto conhecimento em várias áreas e previsões factíveis sobre a civilização futura para defender um argumento muito difícil, que trata de existencialismo e ceticismo. Se não obtém sucesso, ao menos enseja uma reflexão considerável (mesmo que como obra de ficção ou especulação) e fornece algumas ótimas informações para uso na explicação de outras hipóteses ou aperfeiçoamento da sua.

Prometheus emerge do retorno ao universo de Alien, o excelente filme de Ridley Scott que aterroriza gerações de pessoas desde a época de seu lançamento em 79 até hoje. A tagline “No espaço ninguém vai ouvir você gritar” é uma das mais adequadas da história do cinema. O diretor acerta na ideia de modificar o espaço no necessário mas manter um diálogo permanente entre sua obra mais famosa e o novo filme recriando a tensão marcante e perturbadora característica da estória.

Dotado de uma fotografia extraordinária, Prometheus se inicia com a intrigante cena da Criação (divindades?). É possível estabelecer o intertexto com a figura mitológica que dá título ao filme (que confronta o maior dos deuses em busca do conhecimento), cujo intento é reproduzido por outros personagens da estória. Cria-se uma expectativa por uma estória complexa mas arriscada, por abarcar a temática existencial como sustentáculo. No desenrolar da estória, entretanto, o caráter do “progenitor” é questionado, exatamente como em “Eram os Deuses Astronautas?”

E então visitamos uma nave espacial repleta de similaridades temporais e espaciais típicas do mundo de Alien, mas de caráter deliciosamente sutil. A conjunção de uma estória fundada em tal universo e tudo que orbita a seu redor (tensão, obscuridade, luta pela sobrevivência e confrontos com o desconhecido) com a ousadia de aliar ao tema questões profundas sem respostas no mundo real e que ultrapassam a racionalidade, tendem a criar uma produção com larga vantagem inicial, mas de concepção aventureira.

Justamente nesse ponto essencial Prometheus não me agrada nem um pouco. Os cenários gigantescos caríssimos, a fotografia estonteante e as boas atuações de Fassbinder e Rapace simplesmente não são suficientes para algo que se propôs tão…imenso. O roteiro esconde, através da violência típica de uma ficção/terror (que devaria ser fator contributivo, não de único interesse) sua superficialidade e inaptidão para lidar com um tema complexo. Diante de um ótimo início, que retrata muito bem a ideia da memória histórica da origem das civilizações como fator de motivação para a formação da expedição, o filme se perde em questões sem resposta visivelmente impregnadas do desejo comercial de uma sequência e, especialmente de não possuir um contraponto ideal entre a questão séria envolvida e o microambiente relativo aos personagens (em determinado ponto, você percebe que a habilidade de Scott de lidar com a tensão interna à equipe e as ações ligadas aos seres desconhecidos em um confronto físico supera muito os objetivos “intelectuais” da estória). O contraste é tão grande que não é incomum relatos de pessoas que sofreram um “anticlímax” psicológico nas últimas cenas.

Prometheus é, por fim, um filme que tinha tudo para dar certo e não deu. Seria melhor que Ridley Scott se dedicasse à atmosfera genial que é capaz de criar sem muitas firulas (e mostra em lampejos) ao invés de conferir uma capa muito ambiciosa (e que é pessimamente desenvolvida ao meu ver) que soa como justificativa para o que realmente valeria o filme no final: as batalhas cheias de efeitos especiais e o surgimento dos Aliens (e isso não é elogio depois de tanto trabalho).

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~ por mrscofield em 24/11/2012.

4 Respostas to “Prometheus (Ridley Scott, 2012)”

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