Inside Job (Trabalho Interno, Charles Ferguson, 2010)

9,1/10

A dinâmica do capitalismo envolve renovação. O sistema sobrevive ainda em tempos atuais devido a sua excessiva capacidade de metamorfose e adaptação à situações problemáticas. A ideia é responder de forma rápida e prática a processos deteriorativos de modo a sustentar os lucros de suas alimentadoras, hoje as grandes instituições financeiras. Para tal, uma complexa estrutura que envolve a manipulação dos formadores de opinião, a exploração psicológica dos desejos consumistas do cidadão comum (expansíveis ilimitadamente porque são praticamente impostos por eles mesmos) e a liderança política, influente nos principais países do mundo foi construída e elaborada minuciosamente, atingindo um nível tão elevado de inteligência, que alguns fatores cruciais para sua perpetuação ocorrem como consequências diretas de outros, criando uma cadeia de eventos estável e praticamente impossível de ser violada…mas somente para seus conceptores, naturalmente.

A globalização, o fluxo de informações e a tecnologia elevaram exponencialmente em conjunto as possibilidades do estabelecimento de mercados de lucratividade inimaginável, com infinitas alternativas de consolidação e alto risco. E todos os recursos são empregados hoje em dia para sua manutenção, que envolve, como citamos, desde o objetivo do grande afluxo de recursos para as grandes corporações, passando por seu “substrato” (o cidadão comum sentir a necessidade de ser incorporado ao processo consumista – através de uma poderosíssima influência psicológica que atinge o indivíduo desde seu nascimento até a morte) e atingindo a última barreira – a legitimação (com sua influência política, efetivamente não há punição se algo der errado e os prejuízos são distribuídos somente pelas camadas menos importantes economicamente, já que o risco é terceirizado).

Vamos nos deter a princípio, antes de adentrar na excepcional abordagem de Ferguson em Inside Job, ao fator mais desgastante do processo: a esfera psicológica do indivíduo que a sustenta. Desgastante porque os fatores que influenciam são, simultaneamente, determinantes para a sequência mas não proporcionam benefícios diretos tão importantes que justifiquem posturas que lhe causem tantos prejuízos se algo der errado…a não ser que ele não perceba (ou não queira perceber) por viver, de certa forma, uma ilusão. O risco do do insucesso parece então menor que a possibilidade de sucesso, mesmo que não seja. É o mercado manipulativo, o mais nojento de todos. Mas, mesmo com sua existência conhecida, ele aperfeiçoou seus métodos de forma acelerada nos últimos 20 anos. Mas…como funciona?

1) A internet – a internet proporcionou uma verdadeira revolução na divulgação das informações. Pontos de vista individuais são compartilhados, lidos, dissecados e disseminados pelo globo terrestre sem seus mentores saírem de casa ou sequer serem identificados.  Naturalmente as sofisticadas tecnologias a ela aliadas também possuem um lado obscuro. Se as notícias e pensamentos refletem conjecturas de pessoas, que apresentam um espectro infindável de opiniões…não é absurdo dizer que não possuem caráter positivo ou negativo a priori. E podem, obviamente, ser utilizadas para a proliferação de ideias “plantadas”.  Mesmo com o acesso ainda limitado que a internet possui, sua expansão crescente proporciona uma arma incrível de defesa de um consumismo desenfreado.

2) A credibilidade – aliado à internet, há um mecanismo complexo de validação de informações. Como as pessoas buscam desesperadamente um pilar para se apoiarem no caso de decisões difíceis, o sistema praticamente impõe os órgãos e pessoas que devem ser ouvidas.  Se trata, entretanto de algo sustentado, na verdade, por pessoas que não têm a menor responsabilidade real em propagar informações idôneas, o que funciona como uma proteção em caso de acusações.

3) O emprego de expressões técnicas em textos informativos – além da revolução tecnológica, ocorreu nos últimos anos, uma gigantesca revolução no mercado.  Os novos rumos dos investimentos favorecem o capital especulativo e introduzem termos de difícil compreensão ao público leigo como: mercado de derivativos, de futuros, a termo, swaps, hedges, etc.  Preciosas formas de lucro e aplicações (que implicam em alta rentabilidade e elevado risco)  acabam se tornando formas de exclusão da maior parte das pessoas e priorizando um grupo de intelectuais (ou daqueles que podem pagar por eles).

Enfim, poderíamos continuar por muito tempo fundamentando a análise com muitos fatores adicionais (até mesmo no meio acadêmico, na formação do economista como profissional há ramos e bifurcações do mecanismo) sem esgotá-la, mesmo sem entrarmos  no mérito dos significados e implicações. O importante é percebermos como os fatores são interdependentes e funcionam em um mecanismo de retroalimentação positiva, reforçando efeitos.

Inside Job é um trabalho investigativo soberbo produzido por Charles Ferguson sobre a crise imobiliária de efeitos devastadores, originada nos Estados Unidos em 2008 e que são sentidos até hoje pelo mundo afora, mas não é de fácil deglutição. Os termos principais são exaustivamente explicados, contextualizados e servem para expor os atores da crise (protagonistas reais) e suas intenções, promovendo um convite desafiador ao espectador. Basicamente, ver os detentores do poder reproduzirem suas estratégias em vários períodos diferentes com o aval das maiores autoridades  do planeta é um soco no estômago, especialmente quando percebemos que a substituição de qualquer um deles ocasiona a ascenção de indivíduo de índole semelhante.

O esforço envolvido  na compreensão dos eventos pelo expectador se torna um elemento crucial na construção do enfoque provocativo que refrata em várias direções, levando a uma conclusão aterradora: estamos envolvidos definitivamente no processo. Há uma interessantíssima viagem no interior de um universo particular cuja lógica é ditada por CDO’s, Efeito Ponzi, fraudes bancárias e outros elementos nas quais não vale explicar aqui pois o filme é excepcional em expô-los.  Seríamos capazes de quebrar sua lógica cruel? Na nossa opinião e na de Ferguson vale a pena tentar. Narrado por Matt Damon.

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~ por mrscofield em 26/11/2012.

Uma resposta to “Inside Job (Trabalho Interno, Charles Ferguson, 2010)”

  1. this blog is so good i would come here every day.

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