Holy Motors (Leos Carax, 2012)

Holy Motors, de Léos Carax

9.0/10

A composição de um quadro onde residirá uma preciosa pintura normalmente se inicia em um pensamento corriqueiro e em sua importância secundária, e adquire vida na manipulação livre e no preenchimento do espaço vazio da tela com símbolos influenciados e criados pelo conceptor. Às vezes a ideia é criada a partir de um fato real, cuja distorção permite recriações infinitas, reinterpretadas e conexas com as vontades do público que observa o resultado concreto.

Neste contexto, é fundamental que se compreenda que a arte é criada a partir de uma tela em branco. Seu preenchimento pertence à esfera do imaginário, seus componentes  podem adquirir feições radicalmente distintas do papel que desempenham na vida real, são símbolos.  Entender sua dinâmica é compor um espaço diegético de cunho compartilhado com o autor, mas predominantemente pessoal, identificando a lógica dos acontecimentos e desvendando um emaranhado de linhas tortuosas que podem se complementar quando provenientes de matéria de boa qualidade. Assim, até mesmo a ausência de lógica pode ser um padrão interessante de análise.

Usamos muitas máscaras diariamente. Apesar de muitas vezes haver uma série de atitudes comuns, não há dúvida de que nossa personalidade se molda de acordo com o grupo de convívio, pelo menos nos aspectos que não agridem nossos conceitos fundamentais. Por outro lado, convivemos com o temeroso extremo oposto: a rotina. As ações são limitadas a um número de tarefas, atividades e pessoas. Muitas vezes, esta segunda definição prevalece em nossas ideias e achamos tudo repetitivo e entendiante. Aí adicionamos novos elementos (o que chamamos mudança) e voltamos a uma nova rotina em pouco tempo, até nos cansarmos e recomeçar…de novo.  Esta simultaneidade aparentemente absurda e contraditória (rotina x máscaras) possibilita pensar na realidade complexificada, onde a racionalidade não dita as regras e nem fatores opostos são absolutamente excludentes.

Mas não falamos em Holy Motors de realidade.  Falamos de um esboço livre. A liberdade do tecido cru, insípido, onde se constróem os paradigmas pertinentes ao universo do filme confronta nossos saberes básicos, mas apresenta coerência interna, mesmo que compreensível apenas no nível onírico. Imagine se fôssemos capazes de quebrar radicalmente a suposta rotina e pudéssemos adotar durante o dia os rostos de diversos personagens diferentes (e não só as personalidades). Imagine se pudéssemos elevar este conceito à potência máxima e virtualmente vivêssemos as mais absurdas aventuras com as habilidades mais distintas possíveis, desenvolvendo inúmeras potencialidades? Imagine se pudéssemos mesmo retornar às nossas origens evolutivas e fundir essa realidade no espaço tempo com a estrutura de vida desejada atualmente (família, filhos, riqueza)? E imagine, por fim, que a realidade funcionasse de modo a suportar todos os ritos possíveis envolvidos nessa confusa transformação?

O protagonista de Holy Motors não se submete às nossas limitações na maior parte da estória. Ele parece ao mesmo tempo um receptáculo vazio (capaz de assumir diversas identidades críveis como distintas no filme), um humano (no intervalo entre uma tarefa e outra seu caráter humanizado é evidenciado) e uma divindade (ele parece transitar livremente em suas tarefas e corpos, imune à morte, à emoção e à sensibilidade DEPOIS de sua missão cumprida). Em todos, entretanto, é genial o diálogo com a porção criativa da evolução de um filme, em especial com o papel do ator. O ator apresenta a habilidade de interpretar inúmeros papéis sem revelar sua verdadeira personalidade. Mas, por vezes é muito difícil imaginar, pela precisão das atuações, como ele consegue voltar a ser ele mesmo depois de uma cena. Não no filme de Carax.

Assim, um bom comentário do filme pode começar com um: “E SE” ao invés do “por quê” tão tradicional. A narrativa cíclica não emudece o espectador pelas histórias paralelas, mas pela beleza intrínseca ao processo construtivo e destrutivo dos caracteres e ambientes.  Tais como Oscar, os nomes e personalidades se intercambiam em um mosaico em que o que importa é o contexto geral e não o papel desempenhado em específico pelas pessoas. Aí adentram belíssimos universos fantasiosos reprodutores da tecnologia, do drama, da ficção, do terror, da loucura, do policial e da comédia…e da música.  Esta última providencia um dos momentos mais lindos do cinema, quando Oscar incorpora um sanfoneiro e é seguido por um magnífico grupo de artistas cuja emoção salta aos olhos.

Holy Motors, sem dúvida, não é um filme fácil, mas se trata de um espetáculo que ao menos chama a atenção do mais fiel cinéfilo. As brilhantes interpretações de Lavant chegam a ser impressionantes, merecedoras de Oscar. E há ótimas aparições de Eva Mendes e até da cantora pop Kylie Minogue.  Para mim, um filmaço original, personalíssimo e espetacular de Carax, com um final bacana. Um convite espetacular para conhecer a obra desse inteligente diretor.

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~ por mrscofield em 17/12/2012.

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