Non si Deve Profanare Il Sono dei Morti (Zumbi 3, Let Sleeping Corpses Lie, Jorge Grau, 1974)

Let Sleeping Corpses Lie [1974].4

7.5/10

A desnaturalização de um personagem serve a uma ordem destrutiva. O pessimismo dialoga com a gênese de figuras macabras, de humanidade inacabada e perversa. Ao conceber uma monstruosidade, os autores nos lançam em um torpor onde a lógica e a sensibilidade podem fascinar, horrorificar ou torturar. De certo, entretanto, a capacidade de abalar nossos sentidos com as pretensões de um universo não objetivo.

Figuras terríveis nascem como possíveis cânceres sociais, provenientes da matéria do núcleo da vida, onde adormecem aprisionados e esquecidos onde ninguém ousa intervir, por medo e constrangimento de seus comportamentos imprevisíveis. Delatá-los, corporificá-los faz parte de uma cerimônia catártica, induzida pela arte quase que forçosamente a quem se propõe a admirar as experiências proporcionadas por seus limites desvencilhados da realidade .

Desta forma, parece impossível não incorporar uma relação de caráter espiritual diante dessas aberrações. Como Deus permite que tais horrores perscrutem nossos domínios? São seres demonizados, fugitivos de um inferno desvinculado da nossa esfera de vida? Mas não. A agressividade e ousadia de construção de indivíduos estéreis à socialização ou estereótipos desejáveis delata o verdadeiro câncer porque nasce, cresce e se desenvolve em nossas entranhas.

O filme de Jorge Grau se dedica a um dos monstros mais temidos do universo fantástico, os chamados zumbis. Sua imagem e semelhança com os humanos cria um vínculo indissolúvel com nossa natureza. A excentricidade comportamental destas criações ocorre perante a simbologia tipica da alienação. Ecos do mundo moderno, onde a similaridade da perda das funções cognitivas e sensoriais dos mortos-vivos constitui simplesmente um módulo exagerado de nosso comportamento disruptivo em relação a análises e atitudes (principalmente) críticas e individuais, uma vez que sorvemos quase que indistintamente tudo que nos é atirado pela mídia ou pelas regras psicológicas de convívio social. A consequência desse último caso é que nosso cérebro é devorado pela imensa dinâmica social a que estamos expostos, onde participam nossos familiares, amigos, colegas e mídia (curiosamente sem perceberem e especialmente na fase mais vulnerável de nossa vida: a infância). Daí a assustadora metáfora do canibalismo dos zumbis apossando de homens e mulheres conhecidos após a morte. Seria intenção aqui um despertar para um mundo onde não há para onde fugir?

Grau, entretanto, fornece, em caráter semi-original, uma preocupação latente com o meio ambiente e a tecnologia, deixando as implicações sobre o consumismo, meios de produção e mídia com Romero no brilhante Night of the Living Dead, filme de caráter apocalíptico mimetizado indefinidamente em obras posteriores.

A intensa relação com as paisagens naturais, exibidas em uma fotografia com planos gerais belíssimos e cortes significativos detalhados em momentos de paz contrasta com as cenas claustrofóbicas e escuras dos conflitos. Mas o caráter local e limitado da trama é uma surpresa ainda mais notável e funciona como um instigante presságio que nunca eclode de que ocorresse uma epidemia e ainda que irromperia em um fenômeno mundial a qualquer momento.

O filme conta a estória de um casal forasteiro formado circunstancialmente que se envolve em uma estranha trama de assassinatos relacionados pela polícia a típicos de psicóticos. A fluidez da trama ocorre diante de uma série de fatores coincidentes que reforçam as suspeitas policiais por mais que o casal tente sustentar os eventos sobrenaturais reais das quais o povoado é alvo. A explicação reside em meio ao estado caótico proporcionado por pragas agrícolas e novos métodos aplicados no solo pelos residentes, a qual através de ondas eletromagnéticas emitidas por um aparelho experimental fazem com que indivíduos de sistemas neurológicos pouco desenvolvidos (como insetos) se ataquem e se matem. Não previam que em uma pequena fração de tempo, seres humanos mortos também fossem atingidos, antes de findar suas funções orgânicas definitivamente.

Zumbi 3 seria uma obra prima do gênero se não tivesse um final burocrático e moralista, além de um desenvolvimento um pouco lento demais para suas pretensões, mas surpreendentemente consegue ser bem próximo disso até os últimos dois minutos de filme, o que indica que as surpresas continuarão até o último minuto (mesmo não sendo boas). Imperdível para os amantes de terror.

PS: repare na sensação de pequenez do carro diante dos cenários maravilhosos naturais da foto do início do comentário.

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~ por mrscofield em 31/12/2012.

2 Respostas to “Non si Deve Profanare Il Sono dei Morti (Zumbi 3, Let Sleeping Corpses Lie, Jorge Grau, 1974)”

  1. Uma pequena correção – há uma mistura de italiano e espanhol no subtítulo, o que dificulta encontrar o filme. O correto seria “non si deve profanare il sonno dei morti”. Abração.

  2. Obrigado pela correção, Jack. Já corrigido. Acredita que não tinha visto esse até hoje?

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