Upstream Color (Shane Carruth, 2013)

upstream

8.5/10

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!

Em economia, frequentemente utiliza-se o termo neoclassicismo para categorizar indivíduos que acreditam, simplificadamente, em uma vertente específica na qual o Estado interfere nas transações econômicas de forma danosa. Há, segundo os que se enquadram nesse pensamento, uma autoregulação automática do mercado, proporcionada pela figura fictícia da mão invisível inferida por Adam Smith.  Essa “mão” é uma metáfora do mercado, constituído pela atuação de inúmeros agentes privados com interesses próprios e variados, mas cujas características somadas, materializadas em oferta e demanda de bens e serviços, promoveriam um valor nulo com pequenas alternâncias. As tendências expansionistas poderiam ocorrer devido a alguns fatores como o crescimento natural da procura pelo aumento populacional ou melhores condições de vida.

Importa aqui uma única palavra: interferência.  Parece-nos inevitável pensar que de fato existem características ignoradas na análise simplificada de qualquer fenômeno real. Ignoram-se as externalidades e a existência dos bens públicos, por exemplo, que, obviamente, inviabilizariam uma teoria concreta contando apenas com os fatores citados no parágrafo anterior. No final, há sempre uma interferência necessária ou não por parte do homem, mesmo em processos artificiais (criados) como o comércio ou a oferta de bens. A presença ou não do estado na economia não exclui o interesse de terceiros, independente do papel teórico do governo na sociedade.

Upstream Color discute, dentre outros aspectos, a interferência humana em processos naturais complexos e, aparentemente, imprevisíveis, sempre buscando tirar proveito de suas consequências.  Desenvolvemos um mecanismo de inteligência capaz de atingir níveis muito sofisticados de manipulação.  O benefício, logicamente, é restrito a quem idealizou o método. Egoístico e imperceptível a olhos pouco atentos, que, apesar de tudo, contribuem ativamente para seu sucesso. Mesmo com o prejuízo cabal advindo dessa manipulação.

Não é à toa que o espécime semelhante a um nematódeo (cujo ciclo de vida é praticamente inviável) da qual o filme trata sobrevive apesar das dificuldades absurdas para se tornar um indivíduo adulto. A natureza, preciosa e atenta, constrói metaforicamente, artifícios sedutores para a perpetuação do parasita que, curiosamente, descende da forma mais evoluída como hospedeiro (homem) para a menos evoluída (orquídea).

Em todas as etapas de evolução, entretanto, a interferência humana destrói a possibilidade de extinção dessa forma de vida. A forma que chamaremos aqui de nematódea produz no organismo humano infectado um torpor destrutivo, a completa alienação, a desvinculação do mundo psicológico, a submissão completa, a indiferença das ações. Enfim, a perfeita chave de manipulação por certos indivíduos.

O segundo estágio evolui em porcos. De transmissão difícil, portanto…a não ser que a vinculação do ser humano infectado com o porco traga algum benefício para alguém.
Algo como a propriedade de promover o acesso através do toque no animal à vida da vítima e seus anseios e medos. E criar uma sinfonia através dos sons percebidos de maior importância inconsciente que possa ser ouvida. Melhor, VENDIDA.

Por fim, o terceiro estágio, onde o animal é descartado e as orquídeas brancas se transformam em azuis nas delicadas águas dos rios onde as larvas penetram ativamente pelas entranhas da planta. Orquídeas lindas, formas de vida perfeitas, que, obviamente, são coletadas e vendidas a quem se interessa por extorquir vítimas quando os nematódeos brotam novamente de seus interiores e o ciclo se fecha.

Não é de se estranhar o diálogo com a sociedade real. Um mundo extremamente consumista que não poupa ninguém para adquirir benefícios próprios, que descarta pessoas por dinheiro, independente de causar a morte e o sofrimento, de verdadeiro torpor em prol de recursos financeiros para adquirir bens esdrúxulos e inúteis que nos vendem como imprescindíveis à vida.

Não é à toa também a vinculação sutil entre o comportamento da vítima e de uma forma de vida menos complexa como o porco. Como se descendêssemos a um nível básico, de intensa irracionalidade inexplicável ao cientificismo. E, logicamente, a destruição da previsibilidade do comportamento humano.

Um nó na garganta. Um tapa na cara. Uma perspectiva brutal e cruel de como seria concretamente o inferno, ao meu ver. O inferno seria passar alguns minutos como uma entidade que soubesse de tudo que se passa na cabeça das pessoas e como sempre as atitudes reforçam que o humano faz qualquer coisa para conseguir o que é de seu interesse. Independente dos melhores discursos moralistas ou ideológicos.  Fedemos. Somos podres por dentro.

Upstream Color é o que poderíamos esperar de um diretor com um filme extraordinário como Primer e escancara sua evolução na profissão. Diálogos excepcionais, fotografia excelente e uma estória completamente original. Carruth não se importa com didatismos e muito é deixado para o expectador refletir. Não é diretor para muitos, desgasta e esgota o cérebro do público, mas é fundamental como representante de um grupo de pessoas que não limitam a arte às linguagens universais, proporcionando experiências criativas únicas e com muito a dizer para quem quer pensar e ouvir. Obra prima do ano de 2013.

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~ por mrscofield em 02/06/2013.

3 Respostas to “Upstream Color (Shane Carruth, 2013)”

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