Mama (Andrés Muschietti, 2013)

Mama6.1/10

Alguns elementos da linguagem cinematográfica são simbólicos e nem sempre estão presentes nos filmes. Um dos mais interessantes é o denominado “motif”. Motifs são objetos, situações ou características recorrentes, que aparecem muitas vezes no mesmo filme com significados que se entrelaçam, evoluem ou evidenciam fatos não muito claros da estória. Talvez o exemplo mais estudado  seja o de Sergei Eisenstein no magnífico Bronenosets Potyomkin (Encouraçado Potemkin, 1925) onde a roda e a água gradativamente parecem se transformar de coadjuvantes em protagonistas das ações do filme. Além de aparecerem várias vezes em contextos diferentes, eles contam uma estória particular, secundária e paralela, como se partissem de elementos cotidianos para centrais na concepção e atuação na revolução da qual o filme trata. Os motifs atuam ativamente de modo psicológico no público mas nem sempre é fundamental compreender sua importância na trama, por muitas vezes serem apenas fatores reforçadores ou instrumentais da ação, secundários por natureza.

O filme de Muschietti é tão bom para compreender a simbologia envolvida na criação de motifs que se torna impossível não dizer uma palavra a respeito. Isso porque sua identificação é simples, mas sua significação é complexa. Naturalmente, falamos aqui dos óculos da personagem da garota mais velha. A estória não só gira em torno deles, como as implicações psicológicas de sua existência determinam a ação de personagens centrais.

Mama trata da estória de duas meninas que perdem os pais de forma trágica e vivem durante cinco anos em uma cabana abandonada em companhia de uma entidade sobrenatural que parece nutrir um grande interesse nelas. Quando encontradas pelo tio durante uma investigação policial, um confronto entre realidades distintas ocorrerá com consequências inesperadas.

Primordialmente retornemos às raízes do filme em si. Onde estamos pisando, de fato? Mama pode ser lido como uma estória de horror situada em um mundo feérico em intercâmbio constante com a realidade palpável. Não é à toa que crianças são utilizadas como canalizadoras do questionamento. É nessa fase da vida que formamos nossa personalidade, aprendemos com as sensações e reações da sociedade, percebendo um mundo onde vivemos melhor quando nossas escolhas determinam atitudes favoráveis, receptivas dos vários indivíduos que nos cercam…na verdade, um mundo idealizado e impossível de concretização. É por isso que Mama apresenta tantos conflitos internos dos personagens (e não externos a eles como um assassino que simplesmente mata, como em muitos filmes de terror, com motivações inerentes somente a ele – comuns nos slashers movies).

Muito embora a vida adulta seja por si só conflituosa (Annabel é um bom exemplo), o mundo infantil é ainda mais confuso.  Sabe-se que a dinâmica real das relações humanas depende sempre do ambiente. Mas, devido às regras sociais nas quais estamos acorrentados, os pais efetivamente são os tutores da vida dos filhos, especialmente quando crianças, somos “hereditariamente” simples reprodutores de regras que indivíduos com mais experiência perceberam ser mais vantajosas definiram. Nessa fase da vida, a autoridade do outro é institucionalizada. Mas…o que acontece quando essas regras não existem?

A única forma de observar isso é adentrar o mundo onde tal autoridade não existe. Muito embora a influência adulta seja gritante, observar o comportamento de crianças sem a presença de um adulto mostra que elas convivem sob regras completamente diferentes. Dependendo da ação podemos ver como inconsequente, danosa ou mesmo mais ampla e proveitosa. Os conceitos de crueldade, felicidade e convivência são muito diferentes…mas reações a fatos prejudiciais costumam ser mais introspectivas que em fases mais maduras. Mas não é esse o objeto do filme aqui.

A figura de Mama é o obscuro, o desconhecido, imune a julgamentos concretos. Um mundo que Victoria (a filha mais velha) só consegue ver SEM óculos. Os óculos são um vínculo com o mundo construído. Produzidos pelo Homem, sistematizado e estudado por ele, algo conhecido. Um lugar onde a realidade é distorcida por um sistema de causas e consequências minucioso e sustentado pela máxima “eu quero ensinar para que ela (minha criança) sobreviva e viva melhor porque eu a amo”, também imune a julgamentos pelo poder da palavra AMOR, expressão máxima da bondade. A pergunta é: o que DE FATO Victoria vê quando está sem óculos? Melhor, o que a CÂMERA (nós) vê quando Mama aparece? Ela vê um recurso que torna a percepção da realidade subjetiva. Ela vê as elipses que Muschietti constrói.

Elipses são, cinematograficamente falando, elementos que promovem uma interatividade central com o espectador. Elipses fazem pensar, inferir ou até mesmo ultrapassar interpretações situacionais. Não VEMOS o que acontece, por exemplo, quando Mama brinca com as meninas, mas vemos suas reações, elas podem ser inferidas, preenchemos o vazio com imaginação. Nos parece que existe amor, felicidade, alegria mas nossos “óculos” rotulados também tentam distorcer. Um dos artifícios é a imagem de Mama que parece monstruosa (por isso os óculos como motifs. Tirá-los é privar-nos de tal imagem, ver o que ela é). Outro são as mortes provocadas por ela e a evolução materna por parte de Annabel. Queremos, quase precisamos odiar Mama.

A partir daí muito se desenvolve na estória, há muito que se discutir. A personagem sobrenatural molda as crianças, criando um mundo paralelo que planifica as possibilidades de interação das meninas, partindo de um cenário altamente restrito para um mais aberto e complexo que os dos seres humanos “comuns” e influencia tudo no filme.

Certamente uma obra com ideias interessantíssimas…até o terço final que possui problemas excessivamente graves. E é impressionante a capacidade de destruição. Como o filme vai para um lugar comum, como se perde em uma necessidade intransponível de corporificar um filme de terror e suas regras, como tudo soa incrivelmente estúpido e como os personagens se tornam unidimensionais e excessivamente simples com atitudes totalmente desconexas, como se não tivessem passado por quase nada que o filme brilhantemente mostrou (os dilemas, as ambiguidades psicológicas e o senso de justiça). A conclusão em si não é incoerente, mas a forma que ocorre proporciona momentos de constrangimento, tamanha a ingenuidade, a ponto de por tudo a perder. Nem parece o mesmo filme. Uma GRANDE pena. A impressão final é de uma brilhante ideia muito bem executada (uma direção claramente diferenciada repleta de elipses, cenários mórbidos, escuridão atenuada por objetos artificiais – e, que, portanto, causa uma insegurança constante ao espectador – e personagens centrais complexos)…até um terço final morbidamente ruim tão potente que prejudica em demasiado qualquer possibilidade de elogio.

OBS: Escolhi essa imagem da foto porque representa exatamente o que o filme é, um conflito radical de percepções. Positivas e negativas. Simultaneamente.

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~ por mrscofield em 13/07/2013.

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