Después de Lucia (Depois de Lúcia, Michel Franco, 2012)

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8.4/10

Transitamos erraticamente flertando, por vezes, com os confins do caos. Não parece haver forma de explicar por que estamos tão sozinhos como indivíduos mesmo gozando de um mundo progressivamente mais sensorial, informativo, cibernético e facilitador em relação há décadas.

O desenvolvimento tecnológico e a imperatividade cronológica jamais almejaram acompanhar a evolução da compreensão da biologia do homem como máquina auto-sustentável, o que acarretaria o domínio científico dos fundamentos de sua composição funcionalmente ativa como organismo vivo (sangue, respiração, batimento cardíaco e outros) mas também parcialmente “erradicada” da natureza dos outros animais pela esfera da consciência psicológica.

É exatamente na última esfera citada que reside as respostas para a provocação inicial. Ocorre que, apesar das teorias relativas à evolução da sociedade, há que se perceber que, a despeito das novas criações e possibilidades (que propiciam novas escolhas), muitas delas contemplam a aceitação de comportamentos que já são inerentes à esfera humana há muito. Entenda-se que a evolução social não contém a evolução humana, apesar da correlação imediata entre os dois termos. O social envolve acordos, regras e aceitação; o humano acontece, independente de princípios morais pré-estabelecidos. Exemplos de tal perspectiva são inúmeros. Servem sentimentos de inveja, ciúmes, desdém, egoísmo, etc…todos indesejáveis, mas que partem da natureza irracional do homem, não dependem de nenhum fator externo para permitir sua existência e a sociedade só pode interferir em sua manifestação. Para complicar, muitas vezes a esfera social sequer admite a existência do problema. Aqui está precisamente do que se trata o que estamos chamando de evolução social: a conscientização do problema, a verificação se é mesmo um problema (muitas vezes não é, é apenas um ângulo viesado de visão), a proposta de alternativas para sua solução e a implementação.

Depois de Lúcia não trata de julgamentos sociais. É câmera testemunha de comportamentos gerados por uma conjunção inadequada entre sentimentos negativos típicos da natureza humana e conjuntura social. Comportamentos fortalecidos pela rejeição social em depurá-los, mudá-los e transformá-los…quase animados pela consciência de sua origem embebida em um quadro social complexo envolvido em uma mistura de sentimentos irracionais, desejos egoísticos e necessidades de imposição tipicamente produzidos por inúmeros processos a que somos submetidos na vida e que envolvem nossos pais, filhos, amigos, meios de comunicação, regimes políticos, econômicos e paradigmáticos.  Em muitas partes isoladas do filme a câmera permanece intacta, imóvel, como se o público participasse de um júri popular ou estivesse morto e impotente desafiado a zelar pela saúde psicológica e física dos personagens. É o olho que tudo vê, que consegue acesso à realidade sem firulas, seca e livre como é, sem filtros sociais mas, de modo fictício, detentora de todos os eventos básicos para conhecer uma situação real.

Embora o “olho que tudo vê” não seja realístico, a impressão transmitida no filme é de uma estória completamente factível. Distante dos mecanismos de vingança do mundo fantástico de Stephen King em Carrie (onde a sobrenaturalidade impõe justiça, uma vez que a vítima é portadora de poderes fantásticos que lhe geram uma vantagem considerável), Depois de Lúcia é mais humano, fundamental,  obrigatório para quem gosta de cinema, mesmo que não goste do filme no final de tudo.

Produção simples e impecável, o filme trata da estória de pai e filha, que convivem em um período difícil com a morte da suposta mãe da garota Alejandra. Depois da mudança para outra cidade, a menina se depara com problemas de adaptação na escola, bullying (gradativamente mais grave) e com um pai que adentra um processo depressivo intenso com um quadro de evolução difícil, promovendo o natural afastamento dos dois (até como consequência da doença).

O filme utiliza de meios ambíguos de distanciamento entre as pessoas (a internet pode aproximar ou afastar; a câmera imortaliza momentos e suas consequências, mas não pessoas e seu dinamismo psicológico) para aprofundar a crise dos personagens e usa a mesma câmera para causar impacto visual no espectador. As atitudes dos personagens em concepção não sofrem desvios – mesmo que involuntários – por sua presença onisciente. A sensação é que você está em coma sem poder se movimentar (mesmo mexer os olhos, por vezes) vendo coisas horríveis acontecerem, mas não consegue falar ou agir. Como a moça. Como o pai. Como um personagem do filme, atado pelo universo não tão irreal da estória.

Talvez o filme se tornasse mais universal, entretanto, se não fosse tão longe, mas ainda assim é muito factível, embora algumas opções o tornem mais restrito. Mas sem dúvida uma obra para refletir por muito tempo.

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~ por mrscofield em 14/07/2013.

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