Rise of the Zombie (**, Luke Kenn/Devaki Singh, 2013)

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2.8/10

Às vezes imagino a natureza como um ser concreto, dotado de feições humanas e coberto com um manto de folhas jovens, a observar triste a decadência de seus filhos humanos. Penso no quão egoísta é esta imagem (por que a natureza se materializaria em um animal tão imperfeito e com poder tão destrutivo como o nosso?) e afasto a ideia, constrangido por um pensamento surreal como este.

Não há dúvida de que nos afastamos da fonte que nos originou de forma consciente, seja qual o nome que adotemos (Deus, natureza, fluxo energético, etc).  Há em comum em todos eles que o fator de origem se aproxima mais da perfeição que os indivíduos que gerou. Não que seja ruim criarmos uma individualidade, com características próprias e peculiares, mas é interessante notar que no ímpeto de “corrigir” ou “civilizar” as supostas falhas dos meios que desenvolvemos para viver, acabamos por perverter ainda mais as alternativas, criando muletas discursivas lógicas para sustentar atrocidades. Assim, em um exemplo extremo, você não mata instintivamente como no mundo dos animais selvagens, mas a consciência confere-lhe um motivo, cuja submissão a uma lei precária que lhe garanta aprisionamento temporário determina suas ações e escolhas entre praticar o ato ou não.  A precariedade está no complexo poder de alterar as implicações psicológicas do fato através de argumentos, provas e bons advogados. No final o resultado é o mesmo: você matou o indivíduo em um momento de fúria (ou ideal para resolver seus problemas financeiros com a herança ou seguro) mas há um grande cunho ritualístico na análise das circunstâncias em que o fenômeno ocorreu.

Exemplos extremos são sempre bons para impactar e observar situações intermediárias. O ato de tirar algo de alguém, de levar vantagem sobre o outro, de fazer o mundo à sua visão, de implantar sua justiça…todos esses elementos envolvidos (e vários outros) parece-nos mais palpáveis e, quando os atos são efetivamente concretizados, sempre estão camuflados por palavras, emoções e, principalmente, pelo raciocínio lógico que os justifica. Mas efetivamente, também não são lá muito dignos.

O homem promove, portanto, um distanciamento de sua origem por ser dotado de consciência e raciocínio apurado. Mas em suma, continua sendo um animal selvagem bem articulado, o que lhe confere um potencial destrutivo imensamente superior a qualquer outra espécie.

Rise of the Zombie contempla uma inversão apavorante desta hipótese. Um homem que se insere em um grave processo de desumanização, devido a desilusões, dificuldades de lidar com problemas e afastamento da realidade. Sua proximidade com a natureza constitui uma fuga para um ambiente solitário, de dinâmica própria e espetacular. O confronto com um mundo que lhe traz seguidas tristezas conduz ao processo oposto em que a falta de necessidade de se justificar se torna cada vez mais atraente, na medida em que seu raciocínio se torna comprometido.

Entretanto, em uma de suas expedições, o rapaz é infectado por uma doença degenerativa cerebral inexplicável, que o tornará um zumbi. Sim, exatamente nesse ponto, a estória começa a desabar. O inevitável choque entre seus sentimentos humanos (desgastados) e o curso natural da infecção desenvolve um distanciamento progressivo da civilização e a desvinculação de sua natureza mais rápido que o normal, criando um ser violento e incontrolável.

O problema gravíssimo de Rise of the Zombie é exatamente o que parece. A estória tem uma ideia muito boa, mas que só remete a um pano de fundo inteligente para um lugar comum.  No fim não faz a menor diferença o personagem ter qualquer histórico, já que se tornaria um zumbi de qualquer jeito. Para completar o desastre completo, o início do filme já prenuncia o que parece ser um grande videoclipe de 1:40 de duração. Por vezes o filme soa como uma propaganda de músicas comerciais e o inglês parece completamente inconveniente como língua falada pelos protagonistas.

Produção quase amadora com péssimas atuações e efeitos especiais constrangedores, o filme de Kehn e Singh nos parece algo para evitar, especialmente pelo terço final, incrivelmente incoerente e bobo para a proposta do filme. A suposta epidemia e o anúncio de uma continuação completam o circo de horrores desse pavoroso filme produzido em Bollywood. Se esse é o primeiro filme de zumbis produzido lá que continue sendo o único por muito tempo.

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~ por mrscofield em 02/09/2013.

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