Elysium (Neill Bloomkamp, 2013)

Elysium5,9/10

Em março de 1990, um homem de meia idade ajustava o colarinho de seu terno cuidadosamente confeccionado para uma gigantesca cerimônia, de um vulto na qual nunca havia sequer sonhado em participar anos antes – a posse do cargo de Presidente da República. As gotículas de suor no rosto simbolizavam, após uma exaustiva campanha – de marketing – sem precedentes na história do Brasil, o esforço dos militantes de Fernando Collor de Mello – político inexpressivo que caíra bombasticamente nas graças da população através de um partido igualmente inexpressivo – a ilusão da aniquilação das correntes conservadoras representadas por Leonel Brisola e outros políticos tradicionais. A votação expressiva pautou-se em estratégias que valorizavam sua juventude e um suposto potencial de mudança seduziu eleitores por todo o país, completamente atônitos pela proposta de participar de um processo que prometia extirpar a corrupção e a trajetória aparentemente insuperável de “estagflação” brasileira, cujos baixos índices de crescimento econômico, bem como a inflação de mais de 80% ao mês, haviam traçado as expectativas sombrias que pairavam sob o futuro até então.

Os meandros desafiadores da nascente redemocratização brasileira logo se delinearam, exibindo seus contornos acidentados e medonhos. Olhares mais atentos e pessimistas sobre a campanha bizarra de Collor, ganhavam rapidamente representatividade com seus questionamentos ácidos relacionados a pesquisas sobre o padrão dos votos e o despreparo completo da população em geral para desempenhar o ato máximo da democracia: a ida às urnas.

Vítima de um governo fracassado por sucessivos planos de estabilização econômica e assolada por inúmeras denúncias da corrupção que ousaram outrora dizer que seriam alvo de combate primordial da trajetória do recém-empossado, a sociedade brasileira se organizou e destituiu o presidente do cargo através de um impeachment, sustentado também pela mídia e por um Congresso Nacional que tentava aos trôpegos se reorganizar, encurralado pela reação do povo. O período traumático denunciou e fortaleceu um dos sentimentos mais comuns das camadas desfavorecidas no mundo inteiro (no Brasil, ainda mais poderoso pelas discrepantes desigualdades sociais)…a desesperança.

Não há nada pior para uma nação que tal sentimento, que se espalha rapidamente e se promove com garras cancerígenas e devastadoras. Quando implantado, quaisquer tentativas de melhorias, programas e ações governamentais serão vistas sempre como danosas e negativas, independente de quem as implante e suas intenções reais. Em uma expansão de cenário, não é nenhuma loucura dizer que a mente humana é capaz de perverter qualquer ato, atribuindo-lhe características negativas. Terreno, portanto, fértil para a proliferação dos mal intencionados, uma vez que, enquanto os cidadãos de caráter precisam provar que não merecem a alcunha de desonestos, não há esforço requerido para índole deles esperada.

O cinema, palco de profundas análises criativas, com suas ferramentas de potencial de criação ilimitado, algumas vezes utiliza de cenários fictícios para expressar “utopias negativas”. Ambientes perversos nas quais alguma tendência social de consequências graves, se mantida a trajetória evolutiva, e hoje presente de forma difusa ou que parece requerer cuidados vistos como secundários pelo governo no mundo real, é exacerbada e suas consequências prováveis expostas, normalmente retratadas com extrema crueldade e cenários aterrorizantes futuristas com o intuito de chocar e atentar para os rumos da sociedade atual. São as distopias, presentes em filmes como Blade Runner, The Purge, Brazil e inúmeros outros.

Em Elysium, os avanços científicos vinculados à polarização de recursos financeiros e conhecimento por poucos, bem como a legitimação do poder através da esfera política por essas classes, produz a completa desvinculação da diminuta porcentagem favorecida e a enorme massa populacional desprezada, gerando uma das consequências mais extremas possíveis: a separação no universo. Elysium, ambiente artificial projetado para abrigar e defender o território das elites, sequer se localiza na Terra.

Com o processo de favelização praticamente expandido no mundo e os recursos financeiros devidamente assegurados aos mais ricos, que gozam de segurança no espaço e se encontram alheios à violência, os terráqueos sonham com a cura de doenças, a eliminação da pobreza e a reprodução terrestre de Elysium pela pura vontade de governantes cujos interesses escusos são por eles desconhecidos (mas imaginados).

Os cenários terrestres são horrendos, de tons marrons que conferem uma sensação cadavérica ao planeta, reprodutora de um enorme teor de desesperança da população, bem como a expansão de um autoritarismo latente e inquestionável, mantido por robôs projetados para esse fim. Enquanto isso, em Elysium, os cenários vastos e coloridos, gigantescas piscinas artificiais e terrenos verdes e aconchegantes saltam aos olhos do espectador, mantidos duramente por personificações do egoísmo e preconceito, como a personagem interpretada por Jodie Foster.

Não há nada de errado em construir um cenário capaz de incitar tamanha reflexão. Mas, obviamente, é pouco. Um filme é um universo demasiado complexo onde desfilam personagens, estória, ambientação, som, dinâmica, montagem, edição e outros aspectos, contribuindo em conjunto para que a ideia dialogue com o público.

E é exatamente nesse ponto que Elysium falha miseravelmente. Repleto de elementos caricaturais e personagens unidimensionais, o desenvolvimento da estória evidencia um sem número de clichês, previsibilidade e falta de algo original, soando mais como um blockbuster conceitual, sem atrativos a não ser os dólares empregados na criação dos efeitos especiais e nos dantescos cenários.

Quanto às atuações, Matt Damon pouco pode fazer com um personagem tão simplório e previsível, cujo passado resumitivo é exaustivamente relatado em cenas distribuídas ao longo da projeção, que conseguem surpreendentemente moldar praticamente todos os elementos de sua personalidade. É como se ele houvesse sido concebido naquela cena exclusivamente e saltasse no tempo. Wagner Moura apresenta um papel relevante na estória, mas seu papel decepciona por parecer mais uma caricatura desequilibrada besta que um personagem relevante, dúbio, dotado de ironia e humor, que atua clandestinamente como representativo de um segmento revoltoso contra o sistema vigente. Jodie Foster parece a bruxa má pululada da novela global das oito horas. Outros seguem rigorosamente a mesma linha.

Com problemas de execução e criativos, Elysium, por fim, deixa uma mensagem piegas e boba, mas coerente com toda sua equivocada concepção. Serve de distração ocasional para assistir a um ator brasileiro com mais de uma fala em um filme de Hollywood ou um plot sem a necessidade de pensar muito para acompanhar as soluções de roteiro. Se basta para você e estiver em um clima de Sessão da Tarde, vale uma conferida. Se espera um pouco mais que isso, ignore sumariamente.

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~ por mrscofield em 22/09/2013.

2 Respostas to “Elysium (Neill Bloomkamp, 2013)”

  1. que crítica hater, meu deus 😛

  2. Para de ser hater das minhas reflexões e comentários hater, seu chato.

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