Solyaris (Andrei Tarkovsky, 1972)

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A vida constitui um ciclo contínuo de renovação, reinvenção e readaptação. Sobre os belos cântaros repousados nas pedras do conhecimento, respingam gotículas de um fluido de densidade peculiar, desconhecida, incompreensível. Líquido que brota preguiçosamente do fruto cultivado por uma entidade de caráter ambíguo cujo saber divino dispensa julgamentos humanos. Um encadeamento soturno, na qual um fenômeno liga ao outro, de origem igualmente inexplicável. Quando os tolos acham que perseveraram diante de uma pequena descoberta, a dinâmica muda e obedece a outras regras. A ignorância prevalece, pois eles julgam conhecer os parâmetros que definem completamente a existência e a vida, em última instância, sem se dar conta de que se trata de uma substância disforme, que se adapta, de cinza metálico se converte em vermelho pulsante. Não passam de tolos, pois são racionais, simplistas e (claro) estúpidos.

Solyaris é mais um episódio do mais temido confronto do homem, como habitualmente Tarkovksy explora em suas obras magníficas: o com seu interior. Suas metáforas poéticas, ambientadas em cenários simbólicos e extraordinários, adquirem vida contemplativa, respirando, ofegando, sussurrando, contando e participando da estória e dos momentos epifânicos ao lado do público. Tudo, absolutamente tudo, vive.

A estória conta a aventura de um cientista de meia idade que é enviado a um local no espaço onde uma nave e seus tripulantes desapareceram misteriosamente. Este local é Solyaris, um planeta completamente fluido, que possui, inexplicavelmente, certa atividade similar a cerebral que influencia os humanos que dele se aproximam. No entanto, o conflito de perspectivas e funções de naturezas tão distintas causa um profundo embate psicológico de proporções catastróficas, que alterará para sempre o comportamento dos indivíduos que vivem a experiência e do próprio planeta, que se alimenta e se transforma diante do que aprende com seus visitantes.

Ao contrário das criaturas monstruosas do espaço sideral concebidas por Ridley Scott em Alien, ou dos apavorantes extraterrestres que desejam o domínio de nosso planeta em Independence Day, Tarkovsky prefere converter os confins do universo ameaçador na delicadeza de uma folha úmida, na melodia soprada pelos ventos, nas lágrimas intermitentes do céu, no rosto de feições tenras de uma mulher apaixonada (e não existe nada mais assustador do que aquilo que já conhecemos se tornar algo que não conhecemos com um comportamento que não justifique quaisquer atitudes de defesa). Solyaris, portanto, cria um conflito sobre nossa percepção do mundo.

E a Terra é exibida em toda sua exuberância. Tons de verde naturais, águas límpidas em movimentos regulares e o bailar das folículas em lagoas são substrato perfeito para a absorção de conhecimento do planeta alienígena (e para o deleite do público que assiste, pelas imagens estonteantes e em perfeita harmonia).  Mas os mistérios do cérebro, sua consciência e o binômio racionalidade/irracionalidade, que compõem conjuntamente a complexidade humana, como evidente, também correspondem a dificuldades de aprendizado para Solyaris.

Enquanto os homens utilizam a tecnologia sofisticada de raios x poderosos para observar as reações químicas e magnéticas do oceano, o planeta, simultaneamente, utiliza uma mecânica distinta, os sonhos dos terráqueos para reconstruir concretamente figuras que com eles interagem utilizando sua própria linguagem, em um processo contínuo de evolução e compreensão. Mas o inconsciente humano é distorcido, não explicado, gera figuras imperfeitas, confusas e fragmentadas que diferem em muito das originais. Tais elementos construtivos (e destrutivos), entretanto, fortemente ligados à memória do conceptor, apresentam um comportamento igualmente inesperado, de características próprias e conscientes de suas diferenças.

Solyaris é uma experiência única. Não é possível em palavras descrever a beleza e a linguagem cinematográfica do texto (ângulos belíssimos, cortes emocionantes e ritmo impecável) e das imagens. O uso das cores acinzentadas, a riqueza da paleta de cores emocional desenvolvida pelo diretor e os personagens riquíssimos que desfilam na tela são atrativos impressionantes. Lento, provocativo, artístico e com um final interessantíssimo, o filme russo é, sem dúvida, uma das melhores produções cinematográficas de todos os tempos.

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~ por mrscofield em 14/10/2013.

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