Vertigo (Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock, 1958)

Vertigo9.0/10

Em um mundo onde proliferam lentes de câmeras fotográficas profissionais de alta resolução, ou evoluem aparelhos celulares de elevada capacidade de transmissão e recebimento de dados e processamento de imagens e fotos, mais do que nunca, é procedente a questão da necessidade de reprodução da realidade instantânea. Sim, porque o que vemos hoje com a massificação da internet e dos meios de comunicação em geral é exatamente a completa deturpação da qualidade da informação em virtude da rapidez. A língua, a construção e a mensagem em si pouco importam diante da efemeridade. A divulgação deve ser feita no mesmo minuto (no máximo no quinto minuto seguinte), inadiável, urgente, quase vital sob pena de extinção do espaço onde é veiculada ou demissão do agente por ela responsável. Ou quando não provém de um grande portal ou empresa, resulta em intensa frustração do detentor do blog ou site (hoje qualquer um pode propagar a informação que quiser no instante que quiser). E então tudo é válido. Se corrige depois. Qualquer coisa os leitores reclamam. A gente chama de “participação” ou “espaço democrático” e ainda alavanca o número de acessos.

Pois bem, parece haver consenso atualmente (mas historicamente nem sempre houve) que ao utilizar um instrumento que particulariza um fragmento do ambiente, imediatamente o último se torna manipulável, por existirem objetos fora de foco que ele não mostra. Por outro lado, uma vez que a máquina exige a presença humana para o posicionamento adequado ou captação da imagem, ao menos no instante inicial, obviamente, representa um ponto de vista: o de seu manipulador. E não interessa se ele está captando imagens da natureza ou um cenário produzido em estúdio, se é um fato ou ficção, é algo inerente ao processo. E daí cabe a discussão sobre a qualidade do que está sendo reproduzido. Ou, em muitos casos, a ausência dela.

Do mundo da notícia para o cinema, em específico, vale dizer que um diretor realiza inúmeras escolhas que produzem uma certa manipulação no público a fim de criar um universo fílmico, cuja dinâmica depende de processos internos às condições de montagem, sequências, ambientação, comportamento dos personagens, enquadramentos, posicionamentos, etc. Esta linguagem cinematográfica serve ao propósito de entreter e, por vezes convencer o espectador a manter o interesse no filme de modo a criar uma coerência interna.  O suspense recorre a doses minúsculas de uma espécie fictícia de droga atuante no sistema nervoso central, administrada aos poucos, mas de caráter cumulativo, cujo efeito final consiste no corte da respiração da “vítima”.

Mas algumas vezes essa coerência é simplesmente soberba. Em Vertigo, uma estória aterrorizante de suspense  adaptada de um livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac (D’Entre Les Morts), James Stewart é o protagonista de uma série de eventos estranhos cuja trama o conduz a um estado de profundo estresse mental. Seu personagem, John Ferguson, é um detetive aposentado devido a um incidente traumático na qual desenvolveu acrofobia.  No entanto, um amigo de faculdade, hoje um magnata ativo na indústria naval, o intriga solicitando que vigiasse sua esposa, que vinha apresentando um comportamento estranho com fases de transe na qual agia como uma mulher que suicidara-se há muitos anos atrás mas não se lembrava de tais momentos. Na medida em que John “Scottie” se envolve na investigação, progressivamente vai se envolvendo em uma complexa relação amorosa com uma mulher extremamente perturbada, com personalidade atormentada e repleta de mistérios.

O filme de Hitchcock espanta pela beleza da utilização da técnica cinematográfica para criar um clima denso e psicológico. Os enquadramentos amplos esbanjam objetos em tela, cores harmônicas e lindos contrastes quando convenientes, com movimentos de câmera que enfatizam os papéis desempenhados por cada personagem na estória (especialmente na primeira e segunda partes do filme, quando ainda estão sendo apresentados). Os olhares e interpretações de Stewart, Kim Novac e Barbara Bel Geddes são extraordinários e reforçam ainda mais os papéis (todos complexos) desenvolvidos por Hitchcock. O ritmo cadenciado e a trilha sonora recriam a movimentação sugerida pela imagem, conferindo ênfase à atmosfera de suspense e possuindo um papel pronunciado próximo a conclusão, onde a atmosfera se torna mais sombria e os cenários menos coloridos e mais escuros. Destaque para a iluminação por vezes “febril” e pesada relatando a obsessão de Stewart com suas atitudes frequentemente irracionais no terço final.

Vertigo versa sobre problemas de memória, distúrbios emocionais, traumas psicológicos, insanidade e obsessão, intercalados com um perigoso romance. Todos esses temas estão ligados à mente humana e o eixo escolhido por Hitchcock para conectá-los é através da linguagem. O que impressiona os sentidos dos protagonistas e desenvolve as disfunções supracitadas é a linguagem visual. Não é à toa que os “motifs” como as frases que são repetidas em contextos diferentes ou o coque em flor do cabelo/cor loira/morena/colar da moça, roupas e outros são representativos e reforçadores no texto. Mas a estética é mais inteligente para o público que espia. Ele, além de ver o que os personagens não vêem, pelo seu campo visual ampliado e pela noção de conjunto muito maior, ainda tem o auxílio da trilha (auditivo) e do contexto “recortado”. Perfeito para perceber elementos que os personagens não percebem, tentar ajudá-los…mas não ter a quem recorrer.

Considerado por muitos como o melhor filme de Hitchcock, só teve sua qualidade reconhecida bem depois. Ao meu ver, irretocável. Cinema onde toda a linguagem atua no sentido de compor a estória,  a atmosfera e levar ao desfecho inusitado. Uma das raras ocasiões em que a sétima arte atinge o auge das possibilidades de um roteiro. Obra prima do mestre do suspense.

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~ por mrscofield em 11/01/2014.

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