Under the Skin (Sob a Pele, Jonathan Glazer, 2013)

Under-The-Skin-Movie7.9/10

Atenção: O texto a seguir contém alguns spoilers

O cinema contribui há mais de um século com o conteúdo das artes através da implantação de uma linguagem cada vez mais peculiar, particular, própria conferindo uma riqueza inesgotável às formas de expressão. Suas linhas de conexão de ideias proporcionam vazão à criatividade de seus diretores (e suas equipes de trabalho), que inventam e reinventam mecanismos de reprodução de fluxos emocionais complexos de personagens, sejam eles participantes da história ou “entidades” que transcendem o espaço-tempo aos quais os objetos do universo fílmico estão aprisionados. O olho do espectador é representado por uma câmera que, mesmo limitada a uma fração espacial e guiada por situações que permeiem o interesse e a lógica do enredo, ainda, por vezes, permite um sem número de visões e interpretações diferentes sobre o que está acontecendo.

Mas o quão distante podemos ir a partir de perspectivas? Existe um território onde as bases de todas as análises convergem de modo a permitir a existência de assertivas objetivas sobre quaisquer assuntos, mesmo que a nível elementar?

A obra de Jonathan Glazer, após um prólogo provocativo, acompanha uma mulher de comportamento estranho e atípico em uma cidade escocesa que observa as pessoas dentro de uma van (seu espaço seguro a princípio, a qual servirá mais a frente como símbolo de seu distanciamento do foco inicial de seus atos), procurando homens com as quais estabelece contato, cujo desenrolar se torna sexual, mas com consequências inesperadas para o parceiro. Seus objetivos misteriosos possuem caráter complexo sob uma noção aparentemente simples exposta gradativamente no filme, mas o modo de exposição dialoga com o público sugerindo uma discussão que ultrapassa em muito a imagem.

A comunicação é uma variável constante no filme, tratada com ênfase tanto nos diálogos na oralidade (parece haver uma pluralidade de sotaques interessantíssima e proposital na escolha do cenário), quanto na discrepância de tratamento da mesma situação pelos personagens em tela (todos parecem desarticulados, como se não vivessem no mesmo mundo) bem como a tentativa posterior da protagonista de se aproximar da realidade humana (e no afastamento definitivo decorrente devido ao fracasso)

Under the Skin perverte basicamente nossa noção de perspectiva, e ao mesmo tempo a instiga, forçando-nos a reconstruir parâmetros de compreensão. Ao contrário de Solyaris, de Andrei Tarkovsky, em que um ponto de vista alheio ao senso comum é confrontado diretamente enquanto acompanha um protagonista de comportamento trivial (o planeta parece uma inteligência que funciona com características distintas da humana), aqui a personagem central rege a cadência lógica do filme de modo não convencional e se expressa quase sempre corporalmente, expondo muito pouco de como lida com o mundo à sua volta. É você, portanto, que precisa compreendê-la…se for capaz.

Mas para nosso deleite, um filme não se compõe só de personagens. Fitamos com curiosidade um desfile de eventos ritmados cuidadosamente com trilhas que nos absorvem completamente, imagens refletindo gigantescos vazios ou uma fotografia contemplativa que remete aos planos mais densos e lentos de 2001: A Space Odissey.  Uma sugestão de análise dura, permeada por tons obscuros, quase sempre pesados e intensos de cinza, branco e vermelho de um mundo onde aos poucos percebemos a intensidade elevada de elementos de solidão, carência sexual, emocional, afetiva e a deterioração/decadência de valores. Mas jamais de modo comum (observar, por exemplo, os homens sucumbindo como se caminhassem cegos em um oceano líquido diante de um fundo negro em que somente suas roupas permanecem à mostra é uma cena ao mesmo tempo aterrorizante e reflexiva) e nem sempre tão séria, com algumas doses de humor implícito.

Existe alguma polêmica sobre Under the Skin com respeito ao forte erotismo como elemento de composição da personagem de Scarlett Johansson, mas a contextualização é excelente, natural e aprofunda tanto a relação do espectador com o filme que se torna fundamental para conferir densidade psicológica ainda maior à atmosfera.

Um ótimo filme, cujos momentos de felicidade são raros. A soberba atuação de Scarlett e a proposta muito bem desenvolvida repleta de possibilidades devido à ausência do didatismo comum aos filmes hollywoodianos, deixa bastante à imaginação do público e foge do lugar comum. Complexo e reflexivo, certamente Under the Skin estará entre os melhores filmes do ano.

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~ por mrscofield em 17/05/2014.

2 Respostas to “Under the Skin (Sob a Pele, Jonathan Glazer, 2013)”

  1. Fiquei interessado!

  2. Dá uma olhada nesse, Rodrigo, estreou na quinta. É muito boa a atuação da Scarlett e há uma cinematografia pouco trivial cheia de truques sutis e uma personagem que definitivamente não enxerga as coisas de modo convencional que você é instigado a acompanhar.

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