Lucy (Luc Besson, 2014)


unnamed7.1/10

Se analisarmos o poder inerente às  frases escritas, nos depararemos com um mistério envolvendo aspas, vírgulas, exclamações, pontos finais, pontos e vírgulas, travessões e outras tantas marcações textuais que compõem os tons da imagem mental que formamos de tudo que pensamos. Não que mereçam simultaneamente menos importância associações que sequer percebemos evocar rapidamente como metáforas ou paralelismos, mas a evidência dos fragmentos puntuais da escrita parecem conferir força gigantesca a um texto, especialmente quando há a carência do jogo gestual imagético.

De fato, a linguagem escrita característica do ser humano não seria compreensível se não fosse capaz de compartilhar qualquer tipo de emoção, expressa através de traços evidentes e, o texto acabaria não servindo para nada. Criadas para atribuir coerência, coesão e emoção ao discurso, principalmente, as pontuações, isoladamente, possuiriam uma existência fajuta, sem função. Reticências, por exemplo, são como criaturas carentes de um relevo pantanoso de ideias a serem completadas, que requerem a participação do leitor. Mas sozinhas em meio a um espaço branco seriam inúteis, sem significado.

Se um contexto é capaz de representar o habitat da escrita – locus por excelência das reticências e de todas as marcas, onde palavras, significâncias e significados perpetuam sua existência – não parece mais tarefa árdua compreender que o papel de partes em um “todo” pode se complexificar demasiadamente mediante a densificação da estrutura que compõe essas frações. Fica claro que tal configuração apresentará um dinamismo mais complicado e que a soma dos fragmentos provavelmente não será similar ao todo acima referido. Assim, o  conjunto das pontuações, palavras e locus integrará um texto tão mais complexo quanto for a riqueza de suas combinações.

Em Lucy, somos apresentados a uma protagonista que rapidamente se vê às voltas com uma perigosa organização criminosa que utiliza pessoas para transportar uma poderosa droga de efeitos químicos surpreendentes. Devido às circunstâncias peculiares de sua captura, o invólucro que contém o tóxico se rompe e espalha por seu organismo, causando um efeito dúbio para a moça, mas altamente perverso para seus agressores.

O filme de Luc Besson versa sobre a posição do homem no espaço/biosfera/natureza e a conscientização de que seu comprometimento com o funcionamento do espaço como uma grande estrutura em transformação possui uma função que deveria ir além de seu conhecimento científico/racional. Como as reticências e os acentos no texto, o homem consiste em um componente de um espaço em atividade, no qual a estrutura viva e operante (como o de inúmeros outros elementos que o compõem) dita mecanismos de compreensão que excedem o aparato técnico-cientificista à disposição hoje, proporcionando um meio de incomparável riqueza.  Daí, diante da melhoria progressiva do desempenho cerebral da protagonista e dos processos mentais intensos aos quais é submetida, ela nos parece cada vez mais distante do papel “adaptado” refletido no conjunto de regras morais e sociais aos quais encontramos familiaridade.

Lucy adentra um mecanismo de imersão em um conceito mais abrangente do homem como espécie,  na qual reconhece o domínio da esfera temporal sobre a existência e que a transmissão de informação para as futuras gerações constitui uma das armas fundamentais na sobrevivência. Embora aparentemente menos emotiva, Lucy na verdade parece buscar respostas para as frequentes questões cuja dicotomia indivíduo/espécie cria dilemas. Assim os personagens que orbitam ao redor de seu universo, operam como instrumentos de apoio para tornar sua tarefa de transpor os obstáculos e transmitir conhecimento coletivo para a perpetuação do mundo mais factível.  Há portanto, uma ideia diametralmente oposta ao “organismo centrado em interesses individuais” que parece mover as ações atuais em todo e qualquer lugar.

Por fim, o “contexto” no qual Lucy vive e nós, por similaridade, nos inserimos, analogamente ao “texto”, se prolonga com uma fluidez impressionante, envolvendo todo o conteúdo histórico e o aprendizado de gerações, incorporando a riqueza genética, da atmosfera, da natureza, da vida e do tempo. Naturalmente, a preciosidade de tais elementos costuma se perder diante da ignorância e da progressiva desconstrução do tesouro do saber em detrimento da emergência de impérios de dominação construídos e administrados pela raça humana.

Embora com uma ideia superior à execução e produzido como um blockbuster, Lucy agrada pelas alternativas com as quais lida para a humanidade. Conferir poderes a uma personagem que não parecem em tese tão impossíveis (bastaria, para tanto, o uso do cérebro em um nível superior) não deixa de acrescentar uma pitada de sarcasmo óbvia ao subtexto, a despeito das discussões “científicas” – e inverossímeis – sobre os domínios da mente da protagonista.

Scarlett Johansson é o destaque da história, como não poderia deixar de ser, e não decepciona, mas sua atuação lembra por vezes a atuação fria (e muito mais densa) no ótimo Under the Skin, com certo perfil robótico. Alguns ângulos de filmagem também despertam interesse porque a protagonista raramente  aparece de fato encurralada pela câmera (mesmo durante as cenas de sua captura há, na maior parte do tempo, mais elementos na tela). A presença de largas janelas ou movimentos e cortes rápidos particularizam a moça, conferindo destaque a seu alto poder destrutivo e o aumento da tensão.

Em suma, Lucy é divertido, com personagens auxiliares descartáveis, uma discussão científica rasa (mas válida) e um final coerente com o que seria uma visão futurística a partir de uma perspectiva atual. Uma espécie de  “popcorn with brains” que jamais se torna sério demais para suscitar grandes questões nem bobo demais para deixá-las completamente de lado.

Anúncios

~ por mrscofield em 30/09/2014.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: