Janghwa, Hungreyon (A Tale of Two Sisters – Kim-Jee Woon, 2003)

TS05

9.5/10

Contém spoilers

Não é possível atravessar a trajetória de uma vida comum sem traumas. Pensamento aterrador por se confrontar com a realidade dos anos 2000, que institucionalizaram o culto à felicidade suprema, caracterizada por uma fantasia mórbida onde o turbilhão de situações e sentimentos enfrentados frequentemente pelos seres humanos se tornaram entiquetáveis em elementos de difícil categorização.  Os “negativos” devem ser obrigatoriamente desprezados sob a pena de causar intenso sofrimento ao portador por ser considerado fraco ou inabilitado para a vida em sociedade, enquanto os “positivos” tampouco trazem tantos sorrisos, mas possuem uma supervalorização absoluta e extrema.

Eis que ganham espaço as fórmulas da alegria instantânea: um sem número de fármacos ou fitoterápicos utilizados como muletas para lidar com problemas internos sem nunca atingi-los de fato. Uma equiparação equivocada com a verdadeira doença depressiva/mental para os quais tais medicamentos foram concebidos, uma distorção reforçadora do consumismo moderno e de um estado de bem estar obrigatório, mas impraticável.

Esquecemo-nos que superar traumas ou ao menos conter seus efeitos faz parte da formação da personalidade humana, uma vez que são importantes na criação do senso de defesa e proteção que nos são peculiares. Não desprezamos aqui o fato de que, apesar de indesejáveis, quanto mais poderosos, maior a reatividade caracterizadora de nossas interações com o mundo. Essa tipificação do homem moderno, portanto, soa um tanto ampla, englobando tanto situações comuns quanto o verdadeiro nicho de preocupação: os traumas reais, capazes de conferir uma vida de grande sofrimento se não tratados, independentemente dos estereótipos definidos pela sociedade.

A Tale of Two Sisters explora os meandros da consciência, concepção e poder destrutivo de um trauma real em uma protagonista de complexidade ímpar, em todos os níveis de sua consciência. O filme denota os perigos da minimização de problemas graves, em uma comparação com uma realidade quase caótica como a que vivemos, sem valores atribuídos adequadamente. O trauma afeta as interações da personagem com o mundo, sua forma de vivenciar experiências e de enxergar tudo à sua volta, como um enorme parasita que suga qualquer tentativa de uma vida melhor e mais feliz.

Na história original e popularesca na Coréia, a qual o filme faz referências sutis, duas irmãs gêmeas nascem de uma mãe que tivera um sonho com um anjo que lhe entregara uma bela flor. Não por acaso, seus nomes a referenciam (Janghwa e Hongreyon são rosa e lótus vermelha, respectivamente). A vida das duas se tornaria um desastre posterior quando, diante da morte da mãe, o pai se casa de novo com uma madrasta muito cruel.

Há uma ideia de certo ponto de vista similar, mas bem mais trágica em A Tale of Two Sisters. Embora construída como um grande quebra cabeças estruturalmente, a história é relativamente simples e trata do trauma insuperável de uma menina chamada Soon-Mi que se julga culpada pela morte da irmã mais jovem, Soon-Yeon. O suicídio da mãe diante da traição do pai das duas meninas leva a acontecimentos aterrorizantes que também vitimizam Soon-Yeon. Sozinha em um mundo inóspito, Soon-Mi recria um universo paralelo ao sair de um hospital psiquiátrico para morar com o pai, o que a faz reproduzir suas experiências de vida, desejos, anseios e medos através de um loop em espiral descendente que se superpõe ao concreto.

É assim que desde o início do filme, o universo a que contemplamos jamais soa real, é repleto de mensagens simbólicas e subconscientes de Soon-Mi, cuja perspectiva é distorcida e doentia. O que vemos é uma linguagem cinematográfica soberba, que utiliza artifícios interessantíssimos para demonstrar como uma adolescente com personalidade ainda em formação pode ser afetada em um nível de consciência profundo por uma culpa insuperável sem nunca abandonar a coerência com o poder de interpretação das situações por alguém de sua idade, em transição para a fase adulta, abandonando a fase infantil. Movimentos de câmera incríveis, composição de cenários e iluminação, uso das cores e das flores nas frames, estrutura psicológica em diversos níveis dos personagens, tudo torna A Tale of Two Sisters uma obra impressionante.

No mundo de Soon-Mi há várias recriações físicas, dentre as quais se destacam a de um ambiente completamente insuportável e claustrofóbico (é incoerente uma casa linda por dentro parecer um inferno, dado o quanto é sombria, escura e com luzes opacas), as figuras idealizadas de sua irmã (com características de um anjo) e da madrasta (com traços de personalidade demoníacos), bem como o fantasma de sua mãe.

A forma de como essas entidades se conectam em passado, presente e futuro abrangem praticamente todo o tempo de tela da moça, que busca criar situações para salvar a irmã para diminuir sua culpa infinita, a despeito de sua convivência com o pai (único vínculo com o real e que representa a conexão do espectador e o personagem chave para as pistas dos mistérios do roteiro).

Os vínculos são fixos. A madrasta e a irmã possuem concepção quase maniqueísta e Soon-Mi precisa para sobreviver criar situações cada vez mais graves para proteger a irmã da terrível madrasta, uma vez que o trauma a atinge em todos os níveis e possui efeitos cada vez mais aterradores. O nível de insanidade se aprofunda desde a companhia com a irmã na primeira menstruação (Soon-yeon jamais chegou a esse nível de maturidade sexual, já que faleceu antes) à violência e agressividade direta e desgastante passando por diversos níveis de personificação e exteriorização da intensa crise mental.

Psicológica e aterrorizante, de direção extraordinária, essa brilhante obra prima de Kim-Jee Woon é um dos melhores estudos da mente humana apresentados no cinema, respeitando a natureza de seus personagens, a cultura das relações sociais de seu país e os efeitos e objetivos de seu roteiro. Uma aula de como contar uma história com a câmera e o movimento.

 

 

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~ por mrscofield em 12/03/2016.

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