Rise of the Zombie (**, Luke Kenn/Devaki Singh, 2013)

•02/09/2013 • Deixe um comentário

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2.8/10

Às vezes imagino a natureza como um ser concreto, dotado de feições humanas e coberto com um manto de folhas jovens, a observar triste a decadência de seus filhos humanos. Penso no quão egoísta é esta imagem (por que a natureza se materializaria em um animal tão imperfeito e com poder tão destrutivo como o nosso?) e afasto a ideia, constrangido por um pensamento surreal como este.

Não há dúvida de que nos afastamos da fonte que nos originou de forma consciente, seja qual o nome que adotemos (Deus, natureza, fluxo energético, etc).  Há em comum em todos eles que o fator de origem se aproxima mais da perfeição que os indivíduos que gerou. Não que seja ruim criarmos uma individualidade, com características próprias e peculiares, mas é interessante notar que no ímpeto de “corrigir” ou “civilizar” as supostas falhas dos meios que desenvolvemos para viver, acabamos por perverter ainda mais as alternativas, criando muletas discursivas lógicas para sustentar atrocidades. Assim, em um exemplo extremo, você não mata instintivamente como no mundo dos animais selvagens, mas a consciência confere-lhe um motivo, cuja submissão a uma lei precária que lhe garanta aprisionamento temporário determina suas ações e escolhas entre praticar o ato ou não.  A precariedade está no complexo poder de alterar as implicações psicológicas do fato através de argumentos, provas e bons advogados. No final o resultado é o mesmo: você matou o indivíduo em um momento de fúria (ou ideal para resolver seus problemas financeiros com a herança ou seguro) mas há um grande cunho ritualístico na análise das circunstâncias em que o fenômeno ocorreu.

Exemplos extremos são sempre bons para impactar e observar situações intermediárias. O ato de tirar algo de alguém, de levar vantagem sobre o outro, de fazer o mundo à sua visão, de implantar sua justiça…todos esses elementos envolvidos (e vários outros) parece-nos mais palpáveis e, quando os atos são efetivamente concretizados, sempre estão camuflados por palavras, emoções e, principalmente, pelo raciocínio lógico que os justifica. Mas efetivamente, também não são lá muito dignos.

O homem promove, portanto, um distanciamento de sua origem por ser dotado de consciência e raciocínio apurado. Mas em suma, continua sendo um animal selvagem bem articulado, o que lhe confere um potencial destrutivo imensamente superior a qualquer outra espécie.

Rise of the Zombie contempla uma inversão apavorante desta hipótese. Um homem que se insere em um grave processo de desumanização, devido a desilusões, dificuldades de lidar com problemas e afastamento da realidade. Sua proximidade com a natureza constitui uma fuga para um ambiente solitário, de dinâmica própria e espetacular. O confronto com um mundo que lhe traz seguidas tristezas conduz ao processo oposto em que a falta de necessidade de se justificar se torna cada vez mais atraente, na medida em que seu raciocínio se torna comprometido.

Entretanto, em uma de suas expedições, o rapaz é infectado por uma doença degenerativa cerebral inexplicável, que o tornará um zumbi. Sim, exatamente nesse ponto, a estória começa a desabar. O inevitável choque entre seus sentimentos humanos (desgastados) e o curso natural da infecção desenvolve um distanciamento progressivo da civilização e a desvinculação de sua natureza mais rápido que o normal, criando um ser violento e incontrolável.

O problema gravíssimo de Rise of the Zombie é exatamente o que parece. A estória tem uma ideia muito boa, mas que só remete a um pano de fundo inteligente para um lugar comum.  No fim não faz a menor diferença o personagem ter qualquer histórico, já que se tornaria um zumbi de qualquer jeito. Para completar o desastre completo, o início do filme já prenuncia o que parece ser um grande videoclipe de 1:40 de duração. Por vezes o filme soa como uma propaganda de músicas comerciais e o inglês parece completamente inconveniente como língua falada pelos protagonistas.

Produção quase amadora com péssimas atuações e efeitos especiais constrangedores, o filme de Kehn e Singh nos parece algo para evitar, especialmente pelo terço final, incrivelmente incoerente e bobo para a proposta do filme. A suposta epidemia e o anúncio de uma continuação completam o circo de horrores desse pavoroso filme produzido em Bollywood. Se esse é o primeiro filme de zumbis produzido lá que continue sendo o único por muito tempo.

Después de Lucia (Depois de Lúcia, Michel Franco, 2012)

•14/07/2013 • Deixe um comentário

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8.4/10

Transitamos erraticamente flertando, por vezes, com os confins do caos. Não parece haver forma de explicar por que estamos tão sozinhos como indivíduos mesmo gozando de um mundo progressivamente mais sensorial, informativo, cibernético e facilitador em relação há décadas.

O desenvolvimento tecnológico e a imperatividade cronológica jamais almejaram acompanhar a evolução da compreensão da biologia do homem como máquina auto-sustentável, o que acarretaria o domínio científico dos fundamentos de sua composição funcionalmente ativa como organismo vivo (sangue, respiração, batimento cardíaco e outros) mas também parcialmente “erradicada” da natureza dos outros animais pela esfera da consciência psicológica.

É exatamente na última esfera citada que reside as respostas para a provocação inicial. Ocorre que, apesar das teorias relativas à evolução da sociedade, há que se perceber que, a despeito das novas criações e possibilidades (que propiciam novas escolhas), muitas delas contemplam a aceitação de comportamentos que já são inerentes à esfera humana há muito. Entenda-se que a evolução social não contém a evolução humana, apesar da correlação imediata entre os dois termos. O social envolve acordos, regras e aceitação; o humano acontece, independente de princípios morais pré-estabelecidos. Exemplos de tal perspectiva são inúmeros. Servem sentimentos de inveja, ciúmes, desdém, egoísmo, etc…todos indesejáveis, mas que partem da natureza irracional do homem, não dependem de nenhum fator externo para permitir sua existência e a sociedade só pode interferir em sua manifestação. Para complicar, muitas vezes a esfera social sequer admite a existência do problema. Aqui está precisamente do que se trata o que estamos chamando de evolução social: a conscientização do problema, a verificação se é mesmo um problema (muitas vezes não é, é apenas um ângulo viesado de visão), a proposta de alternativas para sua solução e a implementação.

Depois de Lúcia não trata de julgamentos sociais. É câmera testemunha de comportamentos gerados por uma conjunção inadequada entre sentimentos negativos típicos da natureza humana e conjuntura social. Comportamentos fortalecidos pela rejeição social em depurá-los, mudá-los e transformá-los…quase animados pela consciência de sua origem embebida em um quadro social complexo envolvido em uma mistura de sentimentos irracionais, desejos egoísticos e necessidades de imposição tipicamente produzidos por inúmeros processos a que somos submetidos na vida e que envolvem nossos pais, filhos, amigos, meios de comunicação, regimes políticos, econômicos e paradigmáticos.  Em muitas partes isoladas do filme a câmera permanece intacta, imóvel, como se o público participasse de um júri popular ou estivesse morto e impotente desafiado a zelar pela saúde psicológica e física dos personagens. É o olho que tudo vê, que consegue acesso à realidade sem firulas, seca e livre como é, sem filtros sociais mas, de modo fictício, detentora de todos os eventos básicos para conhecer uma situação real.

Embora o “olho que tudo vê” não seja realístico, a impressão transmitida no filme é de uma estória completamente factível. Distante dos mecanismos de vingança do mundo fantástico de Stephen King em Carrie (onde a sobrenaturalidade impõe justiça, uma vez que a vítima é portadora de poderes fantásticos que lhe geram uma vantagem considerável), Depois de Lúcia é mais humano, fundamental,  obrigatório para quem gosta de cinema, mesmo que não goste do filme no final de tudo.

Produção simples e impecável, o filme trata da estória de pai e filha, que convivem em um período difícil com a morte da suposta mãe da garota Alejandra. Depois da mudança para outra cidade, a menina se depara com problemas de adaptação na escola, bullying (gradativamente mais grave) e com um pai que adentra um processo depressivo intenso com um quadro de evolução difícil, promovendo o natural afastamento dos dois (até como consequência da doença).

O filme utiliza de meios ambíguos de distanciamento entre as pessoas (a internet pode aproximar ou afastar; a câmera imortaliza momentos e suas consequências, mas não pessoas e seu dinamismo psicológico) para aprofundar a crise dos personagens e usa a mesma câmera para causar impacto visual no espectador. As atitudes dos personagens em concepção não sofrem desvios – mesmo que involuntários – por sua presença onisciente. A sensação é que você está em coma sem poder se movimentar (mesmo mexer os olhos, por vezes) vendo coisas horríveis acontecerem, mas não consegue falar ou agir. Como a moça. Como o pai. Como um personagem do filme, atado pelo universo não tão irreal da estória.

Talvez o filme se tornasse mais universal, entretanto, se não fosse tão longe, mas ainda assim é muito factível, embora algumas opções o tornem mais restrito. Mas sem dúvida uma obra para refletir por muito tempo.

Mama (Andrés Muschietti, 2013)

•13/07/2013 • Deixe um comentário

Mama6.1/10

Alguns elementos da linguagem cinematográfica são simbólicos e nem sempre estão presentes nos filmes. Um dos mais interessantes é o denominado “motif”. Motifs são objetos, situações ou características recorrentes, que aparecem muitas vezes no mesmo filme com significados que se entrelaçam, evoluem ou evidenciam fatos não muito claros da estória. Talvez o exemplo mais estudado  seja o de Sergei Eisenstein no magnífico Bronenosets Potyomkin (Encouraçado Potemkin, 1925) onde a roda e a água gradativamente parecem se transformar de coadjuvantes em protagonistas das ações do filme. Além de aparecerem várias vezes em contextos diferentes, eles contam uma estória particular, secundária e paralela, como se partissem de elementos cotidianos para centrais na concepção e atuação na revolução da qual o filme trata. Os motifs atuam ativamente de modo psicológico no público mas nem sempre é fundamental compreender sua importância na trama, por muitas vezes serem apenas fatores reforçadores ou instrumentais da ação, secundários por natureza.

O filme de Muschietti é tão bom para compreender a simbologia envolvida na criação de motifs que se torna impossível não dizer uma palavra a respeito. Isso porque sua identificação é simples, mas sua significação é complexa. Naturalmente, falamos aqui dos óculos da personagem da garota mais velha. A estória não só gira em torno deles, como as implicações psicológicas de sua existência determinam a ação de personagens centrais.

Mama trata da estória de duas meninas que perdem os pais de forma trágica e vivem durante cinco anos em uma cabana abandonada em companhia de uma entidade sobrenatural que parece nutrir um grande interesse nelas. Quando encontradas pelo tio durante uma investigação policial, um confronto entre realidades distintas ocorrerá com consequências inesperadas.

Primordialmente retornemos às raízes do filme em si. Onde estamos pisando, de fato? Mama pode ser lido como uma estória de horror situada em um mundo feérico em intercâmbio constante com a realidade palpável. Não é à toa que crianças são utilizadas como canalizadoras do questionamento. É nessa fase da vida que formamos nossa personalidade, aprendemos com as sensações e reações da sociedade, percebendo um mundo onde vivemos melhor quando nossas escolhas determinam atitudes favoráveis, receptivas dos vários indivíduos que nos cercam…na verdade, um mundo idealizado e impossível de concretização. É por isso que Mama apresenta tantos conflitos internos dos personagens (e não externos a eles como um assassino que simplesmente mata, como em muitos filmes de terror, com motivações inerentes somente a ele – comuns nos slashers movies).

Muito embora a vida adulta seja por si só conflituosa (Annabel é um bom exemplo), o mundo infantil é ainda mais confuso.  Sabe-se que a dinâmica real das relações humanas depende sempre do ambiente. Mas, devido às regras sociais nas quais estamos acorrentados, os pais efetivamente são os tutores da vida dos filhos, especialmente quando crianças, somos “hereditariamente” simples reprodutores de regras que indivíduos com mais experiência perceberam ser mais vantajosas definiram. Nessa fase da vida, a autoridade do outro é institucionalizada. Mas…o que acontece quando essas regras não existem?

A única forma de observar isso é adentrar o mundo onde tal autoridade não existe. Muito embora a influência adulta seja gritante, observar o comportamento de crianças sem a presença de um adulto mostra que elas convivem sob regras completamente diferentes. Dependendo da ação podemos ver como inconsequente, danosa ou mesmo mais ampla e proveitosa. Os conceitos de crueldade, felicidade e convivência são muito diferentes…mas reações a fatos prejudiciais costumam ser mais introspectivas que em fases mais maduras. Mas não é esse o objeto do filme aqui.

A figura de Mama é o obscuro, o desconhecido, imune a julgamentos concretos. Um mundo que Victoria (a filha mais velha) só consegue ver SEM óculos. Os óculos são um vínculo com o mundo construído. Produzidos pelo Homem, sistematizado e estudado por ele, algo conhecido. Um lugar onde a realidade é distorcida por um sistema de causas e consequências minucioso e sustentado pela máxima “eu quero ensinar para que ela (minha criança) sobreviva e viva melhor porque eu a amo”, também imune a julgamentos pelo poder da palavra AMOR, expressão máxima da bondade. A pergunta é: o que DE FATO Victoria vê quando está sem óculos? Melhor, o que a CÂMERA (nós) vê quando Mama aparece? Ela vê um recurso que torna a percepção da realidade subjetiva. Ela vê as elipses que Muschietti constrói.

Elipses são, cinematograficamente falando, elementos que promovem uma interatividade central com o espectador. Elipses fazem pensar, inferir ou até mesmo ultrapassar interpretações situacionais. Não VEMOS o que acontece, por exemplo, quando Mama brinca com as meninas, mas vemos suas reações, elas podem ser inferidas, preenchemos o vazio com imaginação. Nos parece que existe amor, felicidade, alegria mas nossos “óculos” rotulados também tentam distorcer. Um dos artifícios é a imagem de Mama que parece monstruosa (por isso os óculos como motifs. Tirá-los é privar-nos de tal imagem, ver o que ela é). Outro são as mortes provocadas por ela e a evolução materna por parte de Annabel. Queremos, quase precisamos odiar Mama.

A partir daí muito se desenvolve na estória, há muito que se discutir. A personagem sobrenatural molda as crianças, criando um mundo paralelo que planifica as possibilidades de interação das meninas, partindo de um cenário altamente restrito para um mais aberto e complexo que os dos seres humanos “comuns” e influencia tudo no filme.

Certamente uma obra com ideias interessantíssimas…até o terço final que possui problemas excessivamente graves. E é impressionante a capacidade de destruição. Como o filme vai para um lugar comum, como se perde em uma necessidade intransponível de corporificar um filme de terror e suas regras, como tudo soa incrivelmente estúpido e como os personagens se tornam unidimensionais e excessivamente simples com atitudes totalmente desconexas, como se não tivessem passado por quase nada que o filme brilhantemente mostrou (os dilemas, as ambiguidades psicológicas e o senso de justiça). A conclusão em si não é incoerente, mas a forma que ocorre proporciona momentos de constrangimento, tamanha a ingenuidade, a ponto de por tudo a perder. Nem parece o mesmo filme. Uma GRANDE pena. A impressão final é de uma brilhante ideia muito bem executada (uma direção claramente diferenciada repleta de elipses, cenários mórbidos, escuridão atenuada por objetos artificiais – e, que, portanto, causa uma insegurança constante ao espectador – e personagens centrais complexos)…até um terço final morbidamente ruim tão potente que prejudica em demasiado qualquer possibilidade de elogio.

OBS: Escolhi essa imagem da foto porque representa exatamente o que o filme é, um conflito radical de percepções. Positivas e negativas. Simultaneamente.

Upstream Color (Shane Carruth, 2013)

•02/06/2013 • 3 Comentários

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8.5/10

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!

Em economia, frequentemente utiliza-se o termo neoclassicismo para categorizar indivíduos que acreditam, simplificadamente, em uma vertente específica na qual o Estado interfere nas transações econômicas de forma danosa. Há, segundo os que se enquadram nesse pensamento, uma autoregulação automática do mercado, proporcionada pela figura fictícia da mão invisível inferida por Adam Smith.  Essa “mão” é uma metáfora do mercado, constituído pela atuação de inúmeros agentes privados com interesses próprios e variados, mas cujas características somadas, materializadas em oferta e demanda de bens e serviços, promoveriam um valor nulo com pequenas alternâncias. As tendências expansionistas poderiam ocorrer devido a alguns fatores como o crescimento natural da procura pelo aumento populacional ou melhores condições de vida.

Importa aqui uma única palavra: interferência.  Parece-nos inevitável pensar que de fato existem características ignoradas na análise simplificada de qualquer fenômeno real. Ignoram-se as externalidades e a existência dos bens públicos, por exemplo, que, obviamente, inviabilizariam uma teoria concreta contando apenas com os fatores citados no parágrafo anterior. No final, há sempre uma interferência necessária ou não por parte do homem, mesmo em processos artificiais (criados) como o comércio ou a oferta de bens. A presença ou não do estado na economia não exclui o interesse de terceiros, independente do papel teórico do governo na sociedade.

Upstream Color discute, dentre outros aspectos, a interferência humana em processos naturais complexos e, aparentemente, imprevisíveis, sempre buscando tirar proveito de suas consequências.  Desenvolvemos um mecanismo de inteligência capaz de atingir níveis muito sofisticados de manipulação.  O benefício, logicamente, é restrito a quem idealizou o método. Egoístico e imperceptível a olhos pouco atentos, que, apesar de tudo, contribuem ativamente para seu sucesso. Mesmo com o prejuízo cabal advindo dessa manipulação.

Não é à toa que o espécime semelhante a um nematódeo (cujo ciclo de vida é praticamente inviável) da qual o filme trata sobrevive apesar das dificuldades absurdas para se tornar um indivíduo adulto. A natureza, preciosa e atenta, constrói metaforicamente, artifícios sedutores para a perpetuação do parasita que, curiosamente, descende da forma mais evoluída como hospedeiro (homem) para a menos evoluída (orquídea).

Em todas as etapas de evolução, entretanto, a interferência humana destrói a possibilidade de extinção dessa forma de vida. A forma que chamaremos aqui de nematódea produz no organismo humano infectado um torpor destrutivo, a completa alienação, a desvinculação do mundo psicológico, a submissão completa, a indiferença das ações. Enfim, a perfeita chave de manipulação por certos indivíduos.

O segundo estágio evolui em porcos. De transmissão difícil, portanto…a não ser que a vinculação do ser humano infectado com o porco traga algum benefício para alguém.
Algo como a propriedade de promover o acesso através do toque no animal à vida da vítima e seus anseios e medos. E criar uma sinfonia através dos sons percebidos de maior importância inconsciente que possa ser ouvida. Melhor, VENDIDA.

Por fim, o terceiro estágio, onde o animal é descartado e as orquídeas brancas se transformam em azuis nas delicadas águas dos rios onde as larvas penetram ativamente pelas entranhas da planta. Orquídeas lindas, formas de vida perfeitas, que, obviamente, são coletadas e vendidas a quem se interessa por extorquir vítimas quando os nematódeos brotam novamente de seus interiores e o ciclo se fecha.

Não é de se estranhar o diálogo com a sociedade real. Um mundo extremamente consumista que não poupa ninguém para adquirir benefícios próprios, que descarta pessoas por dinheiro, independente de causar a morte e o sofrimento, de verdadeiro torpor em prol de recursos financeiros para adquirir bens esdrúxulos e inúteis que nos vendem como imprescindíveis à vida.

Não é à toa também a vinculação sutil entre o comportamento da vítima e de uma forma de vida menos complexa como o porco. Como se descendêssemos a um nível básico, de intensa irracionalidade inexplicável ao cientificismo. E, logicamente, a destruição da previsibilidade do comportamento humano.

Um nó na garganta. Um tapa na cara. Uma perspectiva brutal e cruel de como seria concretamente o inferno, ao meu ver. O inferno seria passar alguns minutos como uma entidade que soubesse de tudo que se passa na cabeça das pessoas e como sempre as atitudes reforçam que o humano faz qualquer coisa para conseguir o que é de seu interesse. Independente dos melhores discursos moralistas ou ideológicos.  Fedemos. Somos podres por dentro.

Upstream Color é o que poderíamos esperar de um diretor com um filme extraordinário como Primer e escancara sua evolução na profissão. Diálogos excepcionais, fotografia excelente e uma estória completamente original. Carruth não se importa com didatismos e muito é deixado para o expectador refletir. Não é diretor para muitos, desgasta e esgota o cérebro do público, mas é fundamental como representante de um grupo de pessoas que não limitam a arte às linguagens universais, proporcionando experiências criativas únicas e com muito a dizer para quem quer pensar e ouvir. Obra prima do ano de 2013.

Non si Deve Profanare Il Sono dei Morti (Zumbi 3, Let Sleeping Corpses Lie, Jorge Grau, 1974)

•31/12/2012 • 2 Comentários

Let Sleeping Corpses Lie [1974].4

7.5/10

A desnaturalização de um personagem serve a uma ordem destrutiva. O pessimismo dialoga com a gênese de figuras macabras, de humanidade inacabada e perversa. Ao conceber uma monstruosidade, os autores nos lançam em um torpor onde a lógica e a sensibilidade podem fascinar, horrorificar ou torturar. De certo, entretanto, a capacidade de abalar nossos sentidos com as pretensões de um universo não objetivo.

Figuras terríveis nascem como possíveis cânceres sociais, provenientes da matéria do núcleo da vida, onde adormecem aprisionados e esquecidos onde ninguém ousa intervir, por medo e constrangimento de seus comportamentos imprevisíveis. Delatá-los, corporificá-los faz parte de uma cerimônia catártica, induzida pela arte quase que forçosamente a quem se propõe a admirar as experiências proporcionadas por seus limites desvencilhados da realidade .

Desta forma, parece impossível não incorporar uma relação de caráter espiritual diante dessas aberrações. Como Deus permite que tais horrores perscrutem nossos domínios? São seres demonizados, fugitivos de um inferno desvinculado da nossa esfera de vida? Mas não. A agressividade e ousadia de construção de indivíduos estéreis à socialização ou estereótipos desejáveis delata o verdadeiro câncer porque nasce, cresce e se desenvolve em nossas entranhas.

O filme de Jorge Grau se dedica a um dos monstros mais temidos do universo fantástico, os chamados zumbis. Sua imagem e semelhança com os humanos cria um vínculo indissolúvel com nossa natureza. A excentricidade comportamental destas criações ocorre perante a simbologia tipica da alienação. Ecos do mundo moderno, onde a similaridade da perda das funções cognitivas e sensoriais dos mortos-vivos constitui simplesmente um módulo exagerado de nosso comportamento disruptivo em relação a análises e atitudes (principalmente) críticas e individuais, uma vez que sorvemos quase que indistintamente tudo que nos é atirado pela mídia ou pelas regras psicológicas de convívio social. A consequência desse último caso é que nosso cérebro é devorado pela imensa dinâmica social a que estamos expostos, onde participam nossos familiares, amigos, colegas e mídia (curiosamente sem perceberem e especialmente na fase mais vulnerável de nossa vida: a infância). Daí a assustadora metáfora do canibalismo dos zumbis apossando de homens e mulheres conhecidos após a morte. Seria intenção aqui um despertar para um mundo onde não há para onde fugir?

Grau, entretanto, fornece, em caráter semi-original, uma preocupação latente com o meio ambiente e a tecnologia, deixando as implicações sobre o consumismo, meios de produção e mídia com Romero no brilhante Night of the Living Dead, filme de caráter apocalíptico mimetizado indefinidamente em obras posteriores.

A intensa relação com as paisagens naturais, exibidas em uma fotografia com planos gerais belíssimos e cortes significativos detalhados em momentos de paz contrasta com as cenas claustrofóbicas e escuras dos conflitos. Mas o caráter local e limitado da trama é uma surpresa ainda mais notável e funciona como um instigante presságio que nunca eclode de que ocorresse uma epidemia e ainda que irromperia em um fenômeno mundial a qualquer momento.

O filme conta a estória de um casal forasteiro formado circunstancialmente que se envolve em uma estranha trama de assassinatos relacionados pela polícia a típicos de psicóticos. A fluidez da trama ocorre diante de uma série de fatores coincidentes que reforçam as suspeitas policiais por mais que o casal tente sustentar os eventos sobrenaturais reais das quais o povoado é alvo. A explicação reside em meio ao estado caótico proporcionado por pragas agrícolas e novos métodos aplicados no solo pelos residentes, a qual através de ondas eletromagnéticas emitidas por um aparelho experimental fazem com que indivíduos de sistemas neurológicos pouco desenvolvidos (como insetos) se ataquem e se matem. Não previam que em uma pequena fração de tempo, seres humanos mortos também fossem atingidos, antes de findar suas funções orgânicas definitivamente.

Zumbi 3 seria uma obra prima do gênero se não tivesse um final burocrático e moralista, além de um desenvolvimento um pouco lento demais para suas pretensões, mas surpreendentemente consegue ser bem próximo disso até os últimos dois minutos de filme, o que indica que as surpresas continuarão até o último minuto (mesmo não sendo boas). Imperdível para os amantes de terror.

PS: repare na sensação de pequenez do carro diante dos cenários maravilhosos naturais da foto do início do comentário.

Holy Motors (Leos Carax, 2012)

•17/12/2012 • Deixe um comentário

Holy Motors, de Léos Carax

9.0/10

A composição de um quadro onde residirá uma preciosa pintura normalmente se inicia em um pensamento corriqueiro e em sua importância secundária, e adquire vida na manipulação livre e no preenchimento do espaço vazio da tela com símbolos influenciados e criados pelo conceptor. Às vezes a ideia é criada a partir de um fato real, cuja distorção permite recriações infinitas, reinterpretadas e conexas com as vontades do público que observa o resultado concreto.

Neste contexto, é fundamental que se compreenda que a arte é criada a partir de uma tela em branco. Seu preenchimento pertence à esfera do imaginário, seus componentes  podem adquirir feições radicalmente distintas do papel que desempenham na vida real, são símbolos.  Entender sua dinâmica é compor um espaço diegético de cunho compartilhado com o autor, mas predominantemente pessoal, identificando a lógica dos acontecimentos e desvendando um emaranhado de linhas tortuosas que podem se complementar quando provenientes de matéria de boa qualidade. Assim, até mesmo a ausência de lógica pode ser um padrão interessante de análise.

Usamos muitas máscaras diariamente. Apesar de muitas vezes haver uma série de atitudes comuns, não há dúvida de que nossa personalidade se molda de acordo com o grupo de convívio, pelo menos nos aspectos que não agridem nossos conceitos fundamentais. Por outro lado, convivemos com o temeroso extremo oposto: a rotina. As ações são limitadas a um número de tarefas, atividades e pessoas. Muitas vezes, esta segunda definição prevalece em nossas ideias e achamos tudo repetitivo e entendiante. Aí adicionamos novos elementos (o que chamamos mudança) e voltamos a uma nova rotina em pouco tempo, até nos cansarmos e recomeçar…de novo.  Esta simultaneidade aparentemente absurda e contraditória (rotina x máscaras) possibilita pensar na realidade complexificada, onde a racionalidade não dita as regras e nem fatores opostos são absolutamente excludentes.

Mas não falamos em Holy Motors de realidade.  Falamos de um esboço livre. A liberdade do tecido cru, insípido, onde se constróem os paradigmas pertinentes ao universo do filme confronta nossos saberes básicos, mas apresenta coerência interna, mesmo que compreensível apenas no nível onírico. Imagine se fôssemos capazes de quebrar radicalmente a suposta rotina e pudéssemos adotar durante o dia os rostos de diversos personagens diferentes (e não só as personalidades). Imagine se pudéssemos elevar este conceito à potência máxima e virtualmente vivêssemos as mais absurdas aventuras com as habilidades mais distintas possíveis, desenvolvendo inúmeras potencialidades? Imagine se pudéssemos mesmo retornar às nossas origens evolutivas e fundir essa realidade no espaço tempo com a estrutura de vida desejada atualmente (família, filhos, riqueza)? E imagine, por fim, que a realidade funcionasse de modo a suportar todos os ritos possíveis envolvidos nessa confusa transformação?

O protagonista de Holy Motors não se submete às nossas limitações na maior parte da estória. Ele parece ao mesmo tempo um receptáculo vazio (capaz de assumir diversas identidades críveis como distintas no filme), um humano (no intervalo entre uma tarefa e outra seu caráter humanizado é evidenciado) e uma divindade (ele parece transitar livremente em suas tarefas e corpos, imune à morte, à emoção e à sensibilidade DEPOIS de sua missão cumprida). Em todos, entretanto, é genial o diálogo com a porção criativa da evolução de um filme, em especial com o papel do ator. O ator apresenta a habilidade de interpretar inúmeros papéis sem revelar sua verdadeira personalidade. Mas, por vezes é muito difícil imaginar, pela precisão das atuações, como ele consegue voltar a ser ele mesmo depois de uma cena. Não no filme de Carax.

Assim, um bom comentário do filme pode começar com um: “E SE” ao invés do “por quê” tão tradicional. A narrativa cíclica não emudece o espectador pelas histórias paralelas, mas pela beleza intrínseca ao processo construtivo e destrutivo dos caracteres e ambientes.  Tais como Oscar, os nomes e personalidades se intercambiam em um mosaico em que o que importa é o contexto geral e não o papel desempenhado em específico pelas pessoas. Aí adentram belíssimos universos fantasiosos reprodutores da tecnologia, do drama, da ficção, do terror, da loucura, do policial e da comédia…e da música.  Esta última providencia um dos momentos mais lindos do cinema, quando Oscar incorpora um sanfoneiro e é seguido por um magnífico grupo de artistas cuja emoção salta aos olhos.

Holy Motors, sem dúvida, não é um filme fácil, mas se trata de um espetáculo que ao menos chama a atenção do mais fiel cinéfilo. As brilhantes interpretações de Lavant chegam a ser impressionantes, merecedoras de Oscar. E há ótimas aparições de Eva Mendes e até da cantora pop Kylie Minogue.  Para mim, um filmaço original, personalíssimo e espetacular de Carax, com um final bacana. Um convite espetacular para conhecer a obra desse inteligente diretor.

Inside Job (Trabalho Interno, Charles Ferguson, 2010)

•26/11/2012 • 1 Comentário

9,1/10

A dinâmica do capitalismo envolve renovação. O sistema sobrevive ainda em tempos atuais devido a sua excessiva capacidade de metamorfose e adaptação à situações problemáticas. A ideia é responder de forma rápida e prática a processos deteriorativos de modo a sustentar os lucros de suas alimentadoras, hoje as grandes instituições financeiras. Para tal, uma complexa estrutura que envolve a manipulação dos formadores de opinião, a exploração psicológica dos desejos consumistas do cidadão comum (expansíveis ilimitadamente porque são praticamente impostos por eles mesmos) e a liderança política, influente nos principais países do mundo foi construída e elaborada minuciosamente, atingindo um nível tão elevado de inteligência, que alguns fatores cruciais para sua perpetuação ocorrem como consequências diretas de outros, criando uma cadeia de eventos estável e praticamente impossível de ser violada…mas somente para seus conceptores, naturalmente.

A globalização, o fluxo de informações e a tecnologia elevaram exponencialmente em conjunto as possibilidades do estabelecimento de mercados de lucratividade inimaginável, com infinitas alternativas de consolidação e alto risco. E todos os recursos são empregados hoje em dia para sua manutenção, que envolve, como citamos, desde o objetivo do grande afluxo de recursos para as grandes corporações, passando por seu “substrato” (o cidadão comum sentir a necessidade de ser incorporado ao processo consumista – através de uma poderosíssima influência psicológica que atinge o indivíduo desde seu nascimento até a morte) e atingindo a última barreira – a legitimação (com sua influência política, efetivamente não há punição se algo der errado e os prejuízos são distribuídos somente pelas camadas menos importantes economicamente, já que o risco é terceirizado).

Vamos nos deter a princípio, antes de adentrar na excepcional abordagem de Ferguson em Inside Job, ao fator mais desgastante do processo: a esfera psicológica do indivíduo que a sustenta. Desgastante porque os fatores que influenciam são, simultaneamente, determinantes para a sequência mas não proporcionam benefícios diretos tão importantes que justifiquem posturas que lhe causem tantos prejuízos se algo der errado…a não ser que ele não perceba (ou não queira perceber) por viver, de certa forma, uma ilusão. O risco do do insucesso parece então menor que a possibilidade de sucesso, mesmo que não seja. É o mercado manipulativo, o mais nojento de todos. Mas, mesmo com sua existência conhecida, ele aperfeiçoou seus métodos de forma acelerada nos últimos 20 anos. Mas…como funciona?

1) A internet – a internet proporcionou uma verdadeira revolução na divulgação das informações. Pontos de vista individuais são compartilhados, lidos, dissecados e disseminados pelo globo terrestre sem seus mentores saírem de casa ou sequer serem identificados.  Naturalmente as sofisticadas tecnologias a ela aliadas também possuem um lado obscuro. Se as notícias e pensamentos refletem conjecturas de pessoas, que apresentam um espectro infindável de opiniões…não é absurdo dizer que não possuem caráter positivo ou negativo a priori. E podem, obviamente, ser utilizadas para a proliferação de ideias “plantadas”.  Mesmo com o acesso ainda limitado que a internet possui, sua expansão crescente proporciona uma arma incrível de defesa de um consumismo desenfreado.

2) A credibilidade – aliado à internet, há um mecanismo complexo de validação de informações. Como as pessoas buscam desesperadamente um pilar para se apoiarem no caso de decisões difíceis, o sistema praticamente impõe os órgãos e pessoas que devem ser ouvidas.  Se trata, entretanto de algo sustentado, na verdade, por pessoas que não têm a menor responsabilidade real em propagar informações idôneas, o que funciona como uma proteção em caso de acusações.

3) O emprego de expressões técnicas em textos informativos – além da revolução tecnológica, ocorreu nos últimos anos, uma gigantesca revolução no mercado.  Os novos rumos dos investimentos favorecem o capital especulativo e introduzem termos de difícil compreensão ao público leigo como: mercado de derivativos, de futuros, a termo, swaps, hedges, etc.  Preciosas formas de lucro e aplicações (que implicam em alta rentabilidade e elevado risco)  acabam se tornando formas de exclusão da maior parte das pessoas e priorizando um grupo de intelectuais (ou daqueles que podem pagar por eles).

Enfim, poderíamos continuar por muito tempo fundamentando a análise com muitos fatores adicionais (até mesmo no meio acadêmico, na formação do economista como profissional há ramos e bifurcações do mecanismo) sem esgotá-la, mesmo sem entrarmos  no mérito dos significados e implicações. O importante é percebermos como os fatores são interdependentes e funcionam em um mecanismo de retroalimentação positiva, reforçando efeitos.

Inside Job é um trabalho investigativo soberbo produzido por Charles Ferguson sobre a crise imobiliária de efeitos devastadores, originada nos Estados Unidos em 2008 e que são sentidos até hoje pelo mundo afora, mas não é de fácil deglutição. Os termos principais são exaustivamente explicados, contextualizados e servem para expor os atores da crise (protagonistas reais) e suas intenções, promovendo um convite desafiador ao espectador. Basicamente, ver os detentores do poder reproduzirem suas estratégias em vários períodos diferentes com o aval das maiores autoridades  do planeta é um soco no estômago, especialmente quando percebemos que a substituição de qualquer um deles ocasiona a ascenção de indivíduo de índole semelhante.

O esforço envolvido  na compreensão dos eventos pelo expectador se torna um elemento crucial na construção do enfoque provocativo que refrata em várias direções, levando a uma conclusão aterradora: estamos envolvidos definitivamente no processo. Há uma interessantíssima viagem no interior de um universo particular cuja lógica é ditada por CDO’s, Efeito Ponzi, fraudes bancárias e outros elementos nas quais não vale explicar aqui pois o filme é excepcional em expô-los.  Seríamos capazes de quebrar sua lógica cruel? Na nossa opinião e na de Ferguson vale a pena tentar. Narrado por Matt Damon.